Planejamento para implantação do sistema de plantio direto

  • Página 19 |
  • Jul 2020 |
  • Sueli Kullmann, Vanessa Bassin Cogo e Vilnei de Oliveira Dias

A busca pelo aumento da produtividade, aliada a ações que visam a sustentabilidade e a conservação do solo, tem sido o enfoque das técnicas de cultivo na agricultura. A utilização do preparo convencional através de arado de discos e grades pesadas ocasiona perdas de solo por erosão e redução da capacidade de infiltração, somadas à compactação das camadas mais inferiores, conhecida como pé de grade.

Diante disso, o Sistema Plantio Direto (SPD) vem sendo adotado como alternativa para a preservação do solo. Cabe ressaltar a diferença entre plantio direto e SPD. O primeiro utiliza apenas dois princípios da agricultura conservacionista, a realização da semeadura sem mobilização prévia do solo e a manutenção da cobertura vegetal na superfície. Já o SPD consiste no plantio direto associado com a rotação de culturas, manejo da enxurrada e todas as demais práticas que visam manter a capacidade produtiva do solo.

De acordo com a Embrapa, 32 milhões de hectares são cultivados em plantio direto no Brasil, no entanto, dentre estes valores, apenas 2,7 milhões de hectares seguem de maneira completa o SPD. Destaca-se o estado do Paraná, que segundo o Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) apresenta cerca de 5,7 milhões de hectares em plantio direto, o que representa mais de 80% da sua área agricultável.

As vantagens do SPD estão relacionadas principalmente com a conservação da fertilidade do solo, através do controle da erosão. Segundo a Embrapa, deixam de ser erodidos até 100 milhões de toneladas de solo anualmente, com 18 bilhões de metros cúbicos de água mantidos no solo. A utilização da cobertura vegetal diminui o impacto da chuva e o selamento da superfície do solo, permitindo que a água infiltre, auxiliando no controle dos processos erosivos. Assim, antes da semeadura é necessária a realização da dessecação, mantendo a palhada como proteção e também como fonte de nitrogênio para a cultura a ser estabelecida.

O Sistema Plantio Direto (SPD) vem sendo adotado como alternativa para a preservação do solo
O Sistema Plantio Direto (SPD) vem sendo adotado como alternativa para a preservação do solo

A presença de restos vegetais é imprescindível no SPD, portanto, não se utilizam implementos como arado e grade, típicos do sistema convencional. Adotam-se apenas implementos sulcadores com o propósito de descompactar camadas inferiores. Para tanto, os escarificadores são os mais utilizados, trabalhando a uma profundidade de até 30cm, com menor mobilização do solo. Com a redução do uso do maquinário e equipamentos surge uma economia no consumo de óleo diesel em até 72% (Salton, 1998).

A rotação de culturas é realizada através da alternância entre diferentes espécies na mesma área. Este processo tem o intuito de auxiliar na descompactação do solo, redução da proliferação de agentes causadores de problemas fitossanitários, redução da incidência de plantas daninhas e pragas. Deve-se dar preferência para culturas com lenta decomposição, permanecendo por mais tempo sobre a superfície do solo.

Outras práticas que complementam os princípios conservacionistas do SPD são o terraceamento e cultivo em nível. Segundo Denardin et al (2005), o terracemento tem como objetivo controlar a erosão do solo em terrenos declives, quando a intensidade da chuva supera a taxa de infiltração de água no solo. Para tanto, é realizada a construção de uma estrutura transversal ao sentido do maior declive do terreno, sendo composta por um dique e um canal que retêm e permitem a infiltração da água ou fazem com que água escoe lentamente, perdendo força e reduzindo a erosão. Na prática de cultivo em nível, as linhas de semeadura acompanham as curvas de nível, ou seja, o plantio é realizado de acordo com os desníveis do terreno, diferentemente do terraceamento, em que os desníveis são artificiais. Assim, as linhas de plantio atuam como obstáculos para reduzir a velocidade do escoamento da água aumentando a taxa de infiltração no solo.

Levando em consideração que não há preparo do solo anterior à semeadura, o SPD exigiu a criação de semeadoras específicas, assim as mesmas necessitam de uma estrutura mais robusta e maior peso para aplicar a força necessária, a fim de realizar o corte dos resíduos culturais e a abertura dos sulcos.

Semeadoras para SPD

Atualmente, o mercado brasileiro, segundo Schlosser et al (2016), apresenta 19 empresas que montam e/ou fabricam semeadoras voltadas para o plantio direto, totalizando 743 modelos disponíveis, com destaque para o Rio Grande do Sul, com 548 modelos fabricados (73,76%).

As semeadoras para plantio direto podem ser classificadas em três tipos principais, as de fluxo contínuo, de precisão e múltiplas. As de fluxo contínuo trabalham com sementes miúdas (trigo, aveia, arroz), sendo depositadas continuamente no sulco. As semeadoras de precisão distribuem as sementes em um número predeterminado a cada metro a distâncias homogêneas. Já as semeadoras múltiplas podem ser adaptadas tanto para fluxo contínuo como de precisão. Hoje em dia encontram-se no mercado modelos com dosagem por pressão positiva (sopro), tanto para sementes quanto para fertilizantes, algo relativamente inovador no Brasil. Além disso, modelos que prometem dosar com eficiência em altas velocidades de semeadura.

A diferença entre modelos de semeadoras não está atrelada apenas aos seus mecanismos constituintes, mas também à largura de trabalho, que dependerá do número de linhas. Portanto, áreas maiores necessitarão de semeadoras com maior largura de trabalho, aumentando, assim, a capacidade operacional. No momento da aquisição deve-se atentar à potência requerida pela semeadora, que deve estar de acordo com a potência do trator.

Considerações finais

Sem dúvida a adoção do SPD acelerou o desenvolvimento da agricultura brasileira, colaborando para a preservação do solo, a recuperação de áreas degradadas e a diminuição da janela entre colheita e semeadura, permitindo o cumprimento do calendário agrícola.

Neste contexto, projeta-se o aumento das áreas de cultivo sob esse sistema, principalmente ao se falar em estratégias de combate ao aquecimento global, pois a baixa mobilização do solo, a manutenção da cobertura vegetal e a rotação de culturas aumentam a retenção de carbono no solo. Segundo o CGE ABC/RS (Comitê Gestor Estadual da Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), até 2020 estima-se a expansão de oito milhões de hectares em SPD no Brasil.

O planejamento adequado do SPD está diretamente relacionado ao sucesso do sistema, bem como na conservação e melhoria da fertilidade do solo, se caracterizando como um investimento a longo prazo para o produtor, tendo retorno garantido se bem implementado.

Surgimento do plantio direto

Esta técnica surgiu em 1950 na Inglaterra, nas pesquisas com a molécula Paraquat, realizadas pela Imperial Chemical Industries (ICI), hoje denominada Syngenta. Posteriormente, foi levado para os Estados Unidos, onde as pesquisas tiveram maior significância, sendo que em 1973 já havia 430 mil hectares sob plantio direto nos EUA e Canadá (Carvalo; Freitas, 2008).

No Brasil, Herbert Bartz, da cidade de Rolândia (PR) introduziu o SPD a nível de produtor. Preocupado com a degradação do solo na sua propriedade em função das enxurradas, em 1972 Bartz viajou até a Inglaterra para a estação experimental da ICI, onde os produtores estavam tendo bons resultados com o plantio direto. Partindo da Inglaterra, chegou até os EUA para conhecer os avanços que o produtor Harry Young estava tendo com o plantio direto. Na propriedade era utilizada uma semeadora Allis-Chalmers, que posteriormente Bartz importou do mesmo fabricante para iniciar o plantio de soja. Os resultados positivos na produtividade, conservação do solo e, principalmente, relacionados à economia de trabalho com o maquinário foram logo percebidos, fazendo com que mais produtores da região adotassem a nova técnica.

Merece destaque também na introdução do SPD no Brasil, Manoel Henrique “Nonô” Pereira, que em setembro de 1976 utilizou a semeadora modelo Rotacaster, vinda da Inglaterra, adaptando um pulverizador nas entre linhas da mesma. Entretanto, com a alta mobilização do solo causada pela Rotacaster e a ineficiência dos herbicidas, ocorria a germinação do trigo. Diante disso, em dezembro do mesmo ano, Nonô semeou soja sobre a palha de centeio utilizando a semeadora modelo PS6 da marca Semeato, alcançando melhores resultados. Adaptou ainda, uma barra porta-ferramentas para instalação de um disco de corte à frente da semeadora para o corte da palhada.

Em 1979 foi lançado o modelo TDA 220 da Semeato, a primeira semeadora de plantio direto desenvolvida no Brasil. Era constituída por um dosador do tipo fluxo contínuo e sulcadores do tipo triplo disco. Posteriormente, a marca lançou o modelo TDA 300 que apresentava rodados articulados, mais indicada para terrenos irregulares e áreas de várzea.

No início da implementação do SPD no Brasil muitos produtores não conseguiam adquirir semeadoras para o plantio direto em função do seu alto custo, realizando, portanto, adaptações nas semeadoras convencionais. Adicionavam-se discos de corte, rodas controladoras de profundidade, rodas pressionadoras de solo e colocação do fertilizante com utilização de facas estreitas. Nas semeadoras de sementes miúdas colocavam-se pipoqueiras para realizar a semeadura de sementes graúdas, prática que resultou nas multissemeadoras que conhecemos hoje.

Sueli Kullmann
Vanessa Bassin Cogo
Vilnei de Oliveira Dias
Lamap/Unipampa Alegrete

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