Presença crescente

  • Página 10 |
  • Out 2019 |
  • Silvestre Bellettini, Uenp/CLM; João Henrique S. Andrzejewski, Uenp/CLM; Munir Mouhanna, Cooperativa Integrada; Clayton Y. Taji, Fazenda Santa Maria

Os agricultores dos municípios do Norte paranaense cultivam grandes áreas de cana-de-açúcar, café, soja, milho e em ambientes protegidos, culturas como: pimentão, pepino e tomate. Em meio às extensas áreas cultivadas, a alfafa fica quase imperceptível nas propriedades rurais, e embora pouco conhecida, há produtores que trabalham há décadas com a cultura.

A alfafa é uma leguminosa de alto valor nutritivo, usada principalmente na alimentação de cavalos de raça no Brasil. Garante renda quase que mensal ao produtor com maiores preços no período outono-inverno, pela menor oferta do produto devido ao desenvolvimento da cultura mais lento, ao maior distanciamento entre os cortes e, dependendo do manejo adotado, o ciclo da cultura pode variar em média de cinco a sete anos. A principal vantagem da cultura é que permite seis a oito cortes/ano dependendo do clima, na primavera-verão, cortes a cada 28 a 32 dias e outono-inverno, 35 a 42 dias (Fontes et al, 1993; Bellettini et al, 1997).

Percevejo castanho ou percevejo-castanho-da-raiz são designações utilizadas para várias espécies. Pertencem à família Cydnidae (Hemiptera) que habitam o solo, se alimentam de raiz, possuem coloração marrom, castanha ou âmbar. No Brasil, há registros de ocorrência desse inseto de Norte a Sul, mas danos econômicos em lavouras e pastagens têm sido mais frequentes em regiões de Cerrado.

Considerado um inseto polífago (Camargo e Amábile, 2000), o percevejo castanho já foi registrado em ervilha, pimenteira, sorgo, tomateiro, tremoço, pastagens, colonião e diversas plantas daninhas (Nakano e Telles, 1997), alfafa, amendoim, arroz, beldroega, café, cana-de-açúcar, capim-açu, capim-gordura, capim-marmelada, coqueiro, eucalipto, girassol, milho, sorgo, bananal, feijoeiro, batata, fumo, mandioca (Corrêa-Ferreira e Panizzi, 1999; Nakano, 2004). Pode ocorrer tanto em sistemas de semeadura direta como convencional (Silva, 1999), ninfas e adultos atacam as raízes das plantas em reboleiras (Embrapa Soja, 2003). Apresenta período de incubação de cinco dias, período ninfal de 145 dias, longevidade do adulto de 150 dias, ciclo de vida de 150 a 180 dias. Pode apresentar até duas gerações ao ano (Belot e Vilela, 2017), distribuindo-se no perfil do solo em profundidades que variam de 0cm a 60cm, sendo mais frequentemente encontrado em camadas de 0cm a 40cm de profundidade (Fernandes et al, 2000).

Presença de adultos do percevejo castanho
Presença de adultos do percevejo castanho.

A partir da década de 1980, os problemas com percevejos castanhos em culturas anuais começaram a ser mais frequentes, com grandes prejuízos especialmente em lavouras de soja e algodão nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, São Paulo e Minas Gerais (Oliveira, 1999).

Na safra 1995/96, esse inseto foi constatado pela primeira vez no Paraná, causando danos em lavouras de soja da região de Cornélio Procópio. Em 1997/98, houve registro de ocorrência em pastagens no município de Campo Mourão (Corrêa-Ferreira et al, 1999); em 1998/99, a Embrapa Soja recebeu relatos de técnicos da extensão pública e privada, na região de Ubiratã e Assaí (Embrapa, 1999).

Em 2018, no município de Santa Amélia, Norte do Paraná, foram verificados em diferentes propriedades na cultura da alfafa os mesmo sintomas descritos por Rizzo, 1979, e Fernandes et al, 1999, ou seja, manchas em reboleiras com sintomas de murchamento, redução do crescimento das plantas, amarelecimento das folhas, danos nas raízes pela retirada de seiva e injeção de saliva tóxica, o que provoca o enfraquecimento e a morte das plantas. Com a abertura de trincheiras em vários locais, constatou-se a presença do percevejo castanho (S. castanea) em diferentes estádios de desenvolvimento, profundidades de solo e odor característico desagradável que exalam.

A ocorrência da praga neste ano de 2019 tem aumentado consideravelmente, causando desconforto aos produtores. Os problemas se acentuam devido à cultura da alfafa permanecer na área durante cinco a sete anos, à movimentação de máquinas para o cultivo, a pequenas propriedades, à biologia, ao comportamento e às opções de controle.

Ninfas e adultos do percevejo no solo
Ninfas e adultos do percevejo no solo.
Lavoura sem danos provocados pela praga
Lavoura sem danos provocados pela praga.
Raízes afetadas pela incidência do inseto
Raízes afetadas pela incidência do inseto.

Poucas são as alternativas de manejo da praga. Em áreas de renovação da cultura da alfafa, os produtores preparam o solo ainda úmido para expor os percevejos castanhos à superfície e ao sol. Já áreas em produção, o aumento do teor de matéria orgânica no solo, a correção de fertilidade com calagem, gessagem, fosfatagem e potassagem, as adubações balanceadas e o uso de sulfato de amônio, ureia, sulfato de cálcio, enxofre elementar ou sulfugran 90% S podem ser utilizados nas reboleiras na tentativa de amenizar o problema.

O controle através de inseticidas químicos e biológicos tem se mostrado pouco viável em função do hábito e do comportamento da praga.

Silvestre Bellettini, Uenp/CLM; João Henrique S. Andrzejewski, Uenp/CLM; Munir Mouhanna, Cooperativa Integrada; Clayton Y. Taji, Fazenda Santa Maria 

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