Produtividade ameaçada

  • Página 11 |
  • Set 2019 |
  • Rafael M. Pedroso, Giovani A. Ghirardello, Luisa C. Baccin, Esalq

Além da competição por água, luz e nutrientes, algumas espécies de plantas daninhas produzem compostos que podem reduzir o potencial produtivo da cultura. A presença de plantas daninhas durante o ciclo da cenoura também pode reduzir a qualidade final das raízes, como observado por Soares et al (2010), onde o maior período de convivência da cultura com as plantas daninhas resultou em acidez total e pH das raízes mais elevado, além da menor relação sólidos solúveis/acidez total.

Tomando por base um campo de produção de cenoura com produtividade de 31,6t/ha (próxima à média nacional) e considerando os níveis de perdas produtivas por matocompetição citados anteriormente, tem-se que mesmo uma infestação leve de plantas daninhas pode diminuir a produtividade em 12,3t/ha (39% na produtividade), fazendo-a decair a valores próximos a 19,3t/ha (Figura 2). Com um preço médio hipotético de R$ 33,00 por caixa de 20kg de cenouras lavadas, haveria uma perda monetária próxima a R$ 20.295,00 por hectare cultivado neste cenário, justificando a adoção de sistemas de manejo focados no controle de plantas daninhas.

Períodos de controle de plantas daninhas

Os períodos de interferência podem ser denominados como período anterior à interferência (PAI), período total de prevenção à interferência (PTPI) e período crítico de prevenção à interferência (PCPI), auxiliando na determinação do momento mais adequado para controle de plantas daninhas sem que ocorram grandes perdas na produção (Pitelli, 1985).

O período de controle na cultura ocorre, em geral, da segunda até a sexta semana após a emergência, variando basicamente de acordo com as espécies infestantes, condições edafoclimáticas, sistema de cultivo e épocas de plantio (Souza et al, 2008). Dados expressos na literatura demonstram diferentes períodos de convivência das plantas daninhas com a cultura da cenoura, onde PAI varia de 20 a 49, PCPI de 35 a 49 e PTPI de 20 a 49 dias após a emergência (Deuber et al, 1976; Machado Neto e Seno 1984; Pitelli et al, 1976). Entre as práticas de manejo, a redução do espaçamento entre fileiras influencia positivamente o controle de plantas daninhas. Freitas et al (2009) avaliaram os períodos de interferência das plantas daninhas em cenoura cultivada em dois espaçamentos (15cm x 6cm e 20cm x 6cm), e concluíram que o PCPI variou de 19 dias a 36 dias e 18 dias a 42 dias após a emergência da cultura para os espaçamentos de 15cm x 6cm e 20cm x 6cm, resultando em redução de sete dias quando se reduz o espaçamento devido ao fechamento mais rápido das entre linhas.

Assim, tem-se que o período em que a cultura deve ser mantida no limpo, ou seja, livre da infestação de plantas daninhas, ocorre durante o início do crescimento vegetativo. Por este motivo, o controle de plantas daninhas é geralmente uma das primeiras práticas realizadas nos canteiros de produção de cenoura após a semeadura (Figura 3).

Principais espécies

Algumas espécies de plantas daninhas comumente encontradas em áreas de produção de cenoura estão na Tabela 1 e na Figura 4. Variam de acordo com o local de produção, o histórico de uso da área e a rotação de culturas realizada, a forma como as plantas daninhas são manejadas e principalmente em relação à época de cultivo. O plantio a campo aberto em canteiro irrigado é uma das formas mais comuns de cultivo de cenoura no Brasil, sendo que boa parte das cultivares utilizadas é de plantas de inverno (temperaturas amenas), quando são atingidas elevadas produtividades (acima de 40t/ha). Assim, as espécies principais infestantes possuem também adaptações às condições climáticas relacionadas à época de cultivo.

Peculiaridades do sistema de produção

O cultivo a partir de sementes (e não mudas) em canteiros com dimensões entre 80cm e 100cm de largura, e 15cm e 20cm de altura (De Matos et al, 2011) é prática comum. A distância entre canteiros é em geral de 30cm, e é importante que a área entre os canteiros seja mantida limpa, como sumarizado na Figura 5. É comum preparar o solo mecanicamente através do uso de rotoencanteirador, arados e grades (Souza et al, 2008). Estas práticas promovem incorporação dos restos culturais, acelerando sua decomposição e mineralização de nutrientes, além da eliminação de plantas daninhas já existentes. A emergência de plântulas pode demorar até duas semanas ou mais, sendo a cultura de lento desenvolvimento inicial. Por este motivo, é imprescindível um bom manejo de plantas daninhas nas primeiras semanas após a semeadura, garantindo um bom estabelecimento e estande de plântulas na ausência de interferência de plantas daninhas. A definição do estande final de plantas ocorre após a operação conhecida por desbaste, realizada uma única vez entre 25 dias e 30 dias após a semeadura.

Opções de manejo

É necessário que a cultura se desenvolva na ausência de plantas daninhas durante o período de maior interferência para garantir elevadas produtividades. Dentre os métodos de controle de plantas daninhas disponíveis para a cultura, podem ser citados método químico (aplicação de herbicidas), método físico (preparo de solo, uso de coberturas) e método cultural (espaçamento e densidade de plantas), além da utilização de mais de um método em conjunto para a maior eficiência de manejo. A escolha do método de controle irá depender das espécies presentes no local, das condições de clima e do solo, dos tratos culturais adotados, programa de rotação de culturas e da oferta de mão de obra e de equipamentos.

Manejo químico

O controle químico baseia-se na utilização de herbicidas para realizar o controle das plantas daninhas. Este método pode ser dividido de forma genérica, de acordo com a época em que o manejo das plantas daninhas será realizado, sendo o herbicida utilizado em pré-emergência/pós-emergência da cultura ou da planta daninha. Em relação à época de aplicação, pré ou pós-emergência da cultura, o manejo de herbicidas deve levar em consideração a seletividade, principalmente na aplicação de herbicidas pós-emergentes, para que não haja perdas em produtividade decorrentes do mau posicionamento destas ferramentas (Figura 6).

Os herbicidas registrados para a cultura da cenoura, bem como sua modalidade de uso e o tipo de plantas daninhas que são controladas, estão descritos na Tabela 2. É importante salientar que as condições do equipamento de aplicação irão influenciar na eficácia do manejo, sendo necessárias a realização de calibração dos equipamentos e a utilização correta das doses descritas nos rótulos das embalagens.

O preparo de solo, realizado antes do plantio, favorece a emergência de novos fluxos de emergência de plantas daninhas no local. Recomenda-se efetuar o controle destas plantas através do uso de herbicidas pós-emergentes, não seletivos, com ação de contato, como o diquat ou o paraquat, ou então de ação sistêmica como o glifosato, antes ou logo após a semeadura da cultura, mas sempre respeitando o período anterior à emergência, uma vez que estes produtos não possuem efeito residual ou atividade no solo e, portanto, não afetam a germinação das sementes.

O manejo em pré-emergência das plantas daninhas é realizado por meio da aplicação de herbicidas ao solo, que irão atuar durante ou após a germinação das sementes, inibindo assim o desenvolvimento das plântulas. Este manejo pode ocorrer em pré-plantio incorporado (PPI) ou pré-plantio sem incorporação ou mesmo logo após o plantio. A aplicação de herbicidas pré-emergentes é adotada para a redução da infestação proveniente do banco de sementes de plantas daninhas presentes no solo, e sua recomendação deve levar em consideração a infestação presente na área, o tipo de solo (arenoso ou argiloso) e o teor de matéria orgânica para o estabelecimento da dose, uma vez que o produto é aplicado diretamente ao solo e pode ser aderido ou lixiviado do solo de acordo com suas características. A umidade é outro fator muito importante a ser considerado para o emprego de pré-emergentes, sendo recomendada aplicação no solo com umidade próxima da capacidade de campo.

Após a emergência da cultura, a aplicação de herbicidas deve ser recomendada levando em consideração a seletividade das moléculas à cultura, as espécies infestantes e o mecanismo de ação de herbicidas para que haja eficácia de controle. Ressalta-se que o manejo deve ser realizado de preferência em pós-emergência inicial, quando as plantas daninhas se encontram no início do desenvolvimento. A aplicação de herbicidas pós-emergentes pode ser combinada a pré-emergentes, com ação residual, como linuron, oxadiozon ou prometryne, aumentando o tempo de controle das plantas daninhas e melhorando o espectro de ação.

Em áreas com infestação de gramíneas pode ser realizado o manejo em pós-emergência com graminicidas registrados para a cultura da cenoura (clethodim, fenoxaprop, fluazifop e oxadiazon), pois estes produtos não têm ação sob eudicotiledôneas como a cenoura, de forma que a seletividade e a segurança à cultura são garantidas. Para áreas com infestação de folhas largas, as opções tornam-se reduzidas à utilização de linuron em pré ou pós-emergência da cultura ou, ainda, prometryne em pré-emergência, sendo estes os únicos produtos registrados.

Adotando-se estas ferramentas, as plantas daninhas emergidas no local de cultivo são controladas pela ação dos herbicidas pós-emergentes e as que se encontram em processo de germinação são controladas pelos herbicidas pré-emergentes com ação residual.

Outros métodos de controle

Os métodos alternativos ao controle químico de plantas daninhas são controles cultural, físico e mecânico. A utilização de estratégias de controle combinadas garante o sucesso no manejo das plantas daninhas na cultura.

O controle cultural de plantas daninhas em cenoura consiste em alterar características no meio de cultivo para favorecer um ótimo desenvolvimento da cultura, cobrindo o solo e impedindo a germinação de plantas daninhas. Diminuição do espaçamento entre fileiras de plantas da cultura pode influenciar positivamente no controle de plantas daninhas; quanto menor o espaçamento, mais rapidamente ocorre o fechamento do dossel da cultura, diminuindo a entrada de luz e desfavorecendo o crescimento de plantas daninhas (Freitas et al, 2009). A maior densidade de plantas, aliada a espaçamentos reduzidos, pode ainda apresentar incremento de produtividade na cultura.

Outro método de controle que pode ser adotado é o físico, que consiste na utilização de fogo, de cobertura do solo com palha ou cobertura plástica (mulching) para impedir a emergência e o desenvolvimento das plântulas através de barreira física. A cobertura do solo pode ser realizada com produtos de origem vegetal, como serragem ou palhada proveniente de capins, que podem apresentar efeito mecânico de impedimento da germinação e também afetar a disponibilidade de luz para a germinação das sementes presentes no solo, além da liberação de compostos alelopáticos que interferem na germinação. Outra opção é a utilização de cobertura plástica para cultivo em pequenas áreas ou cultivo orgânico.

O método mecânico é realizado em todo cultivo de cenoura, consistindo em operações de manejo do solo para canteirização, que promove o controle das plantas daninhas presentes na área através da incorporação destas plantas ao solo. Outro método de controle mecânico que pode ser utilizado de acordo com a oferta de mão de obra é a eliminação manual por meio da utilização de sacho ou enxada entre as linhas. Porém, este método de controle não é eficiente para remoção das plantas daninhas na linha de cultivo (aquelas que crescem entre as plantas da cultura, na linha da semeadura), pois pode danificar as raízes da cenoura, justamente o órgão de interesse econômico na planta. Por fim, uma vez que as plantas são semeadas diretamente no campo, pois o vegetal não tolera o transplante, é necessária mão de obra para realização do desbaste, momento em que as plantas daninhas podem ser removidas manualmente.

Figura 1 - Canteiro de produção de cenoura infestado por plantas daninhas. A remoção tardia das infestantes ocasiona perdas irreversíveis à produtividade
Figura 1 - Canteiro de produção de cenoura infestado por plantas daninhas. A remoção tardia das infestantes ocasiona perdas irreversíveis à produtividade.
Figura 2 - As perdas pela interferência de plantas daninhas em cenoura podem variar entre 39% e 100% da produtividade potencial, inviabilizando o cultivo rentável e sustentável desta hortaliça. Figura produzida com base nos dados publicados por Blanco e Oliveira (1971); Durigan (1992); Freitas et al. (2009)
Figura 2 - As perdas pela interferência de plantas daninhas em cenoura podem variar entre 39% e 100% da produtividade potencial, inviabilizando o cultivo rentável e sustentável desta hortaliça. Figura produzida com base nos dados publicados por Blanco e Oliveira (1971); Durigan (1992); Freitas et al. (2009)
Figura 3 - Ciclo de crescimento da cenoura. A redução do período de interferência pode ocorrer com a adoção de cultivares mais adaptadas à região e à época de plantio, ou que apresentem algumas vantagens competitivas como crescimento e brotações rápidas, permitindo um fechamento das entre linhas mais eficiente.
Figura 3 - Ciclo de crescimento da cenoura. A redução do período de interferência pode ocorrer com a adoção de cultivares mais adaptadas à região e à época de plantio, ou que apresentem algumas vantagens competitivas como crescimento e brotações rápidas, permitindo um fechamento das entre linhas mais eficiente.
Figura 4 - (A) beldroega; (B) buva, com detalhe mostrando a inflorescência contendo sementes da espécie; (C) capim pé-de-galinha; e (D) corda-de-viola, infestantes comuns ao cultivo de cenoura.
Figura 4 - (A) beldroega; (B) buva, com detalhe mostrando a inflorescência contendo sementes da espécie; (C) capim pé-de-galinha; e (D) corda-de-viola, infestantes comuns ao cultivo de cenoura.
Figura 5 - Problemas potenciais ocasionados por plantas daninhas que se desenvolvem na área entre os canteiros de produção.
Figura 5 - Problemas potenciais ocasionados por plantas daninhas que se desenvolvem na área entre os canteiros de produção.
Figura 6 - Plantas de cenoura apresentam sintomas de fitotoxicidade (necrose) ocasionada por aplicação de metribuzin à folhagem das plantas, herbicida que não possui registro para uso nesta cultura.
Figura 6 - Plantas de cenoura apresentam sintomas de fitotoxicidade (necrose) ocasionada por aplicação de metribuzin à folhagem das plantas, herbicida que não possui registro para uso nesta cultura.

Rafael M. Pedroso, Giovani A. Ghirardello, Luisa C. Baccin, Esalq

Matérias da Edição:
  1. Página 8

    Mancha zonada

  2. Página 16

    Adubação verde

  3. Página 22

    Requeima manejada

  4. Página 26

    Feridas abertas

  5. Página 36

    Fungos de solo

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