Quando controlar nematoides

  • Página 30 |
  • Out 2019 |
  • Romero Marinho de Moura, Universidade Federal de Pernambuco

Os nematoides da cana-de-açúcar são conhecidos como problemas fitossanitários desde o século 19, quando D. M. Treub, em 1885, fez o assinalamento do nematoide-das-galhas, identificando-o como Heterodera javanica (atualmente Meloidogyne javanica), um endoparasito sedentário que estava causando perdas em Java, Indonésia. Em 1888, F. Soltwedel apud J. R. Williams 1969, descreveu Tylenchus sacchari como responsável por problemas causados à cultura, também em Java. Esse relato pode ter sido o primeiro assinalamento do nematoide-das-lesões Pratylenchus zeae ou P. brachyurus, endoparasitas migradores, muito comuns nos dias atuais, associados a canaviais debilitados. No fim do século 19 e início do século 20, N.A. Cobb, o mais famoso dos nematologistas, que era norte-americano, foi o primeiro a se dedicar e publicar estudos sobre a importância dos nematoides em cana-de-açúcar, com publicações na Austrália em 1893 e depois no Havaí, em 1906 e 1909. Esses estudos vieram atrelados à busca do diagnóstico da doença “declínio da cana-de-açúcar”, que ocorria em níveis epidêmicos no Havaí, USA e que, provavelmente, segundo muitos autores, era a virose Sereh. Nathan A. Cobb, envolvido oficialmente no diagnóstico, encontrou um grande número de fitonematoides, até então desconhecidos, nas rizosferas das plantas estudadas e especulou que a doença que assolava os canaviais daquele estado norte-americano era consequência da ação conjunta de nematoides fitoparasitas. A especulação de N.A. Cobb não veio a se confirmar, mas ficou evidente à época que esses minúsculos parasitas, em altas populações, podem prejudicar o desenvolvimento da cana-de-açúcar. Preocupado em identificar, descrever e fazer os primeiros assinalamentos desses nematoides, Cobb reportou gêneros, espécies que são conhecidas até hoje, a exemplo de Tylenchus dihystera (Helicotylenchus dihystera), Tylenculus similis (Radopholus similies), Xiphinema entre outros. Com o passar dos anos, entretanto, apenas dois fitonematoides foram efetivamente relacionados a altas perdas em produtividade da cana-de-açúcar, uma cultura agora amplamente disseminada no Ocidente e Oriente por meio dos seus híbridos, bem mais resistentes a doenças e pragas. Esses híbridos substituíram as tradicionais variedades de “sangue-nobre” (Saccharum officinarum), suscetíveis a diversos males, especialmente ao mosaico, uma virose que dizimou canaviais no mundo inteiro nas primeiras décadas do século 20 no Ocidente e no Oriente. Esses híbridos foram introduzidos no Brasil após a grande epidemia de mosaico nos anos 30, mas a suscetibilidade da cultura em relação aos fitonematoides permaneceu. Os nematoides que se destacaram em importância econômica devido à patogenia foram: o nematoide-das-lesões (Pratylenchus zeae P. brachyurus) e o nematoide-das-galhas (Meloidogyne spp.).  Devido ao reconhecimento mundial da importância econômica desses dois nematoides em relação à cana-de-açúcar, tornaram-se rotinas nas empresas sucroalcooleiras as análises nematológicas de amostras de solo de canaviais, do ponto de vista qualitativo (presença de diferentes gêneros) e quantitativo (número de espécimes por gênero). Essas análises têm por objetivo primeiramente o monitoramento das populações locais para tomadas de decisão sobre ações de controle. Os resultados dessas análises têm confirmado os dados de N.A. Cobb obtidos no início do século 20, especialmente no que concerne à diversidade de gêneros presentes nas rizosferas. Atualmente, sabe-se que essa diversidade pode ser alterada qualitativamente e quantitativamente, de acordo com a localização do canavial, a variedade cultivada e a época do ano (Figura 1). A distribuição horizontal dos ectoparasitas no campo é bastante uniforme, não se formando reboleiras e sendo favorecida pelo uso de implementos (Figura 2 A e B). Por outro lado, a distribuição vertical varia entre 30cm e 40cm de profundidade.

Os principais gêneros de fitonematoides (endo e ectoparasitos) que podem ser encontrados nas rizosferas da cana-de-açúcar se enquadram em um dos grupos parasitários, exemplificados pelos gêneros predominantes.

Desde o assinalamento do primeiro fitonematoide em cana-de-açúcar por D.M. Treub em 1887, mais de 300 novas espécies pertencentes a mais de 48 gêneros foram assinaladas (Silva, 2019, dissertação de mestrado CAV/UFPE). Somado a isto, dados de literatura mostram que mais de uma dezena de novas espécies de fitonematoides foram descritas tendo como hospedeiro a cana-de-açúcar.

Atualmente, pela importância econômica comprovada, os nematoides-das-lesões e o nematoide-das-galhas têm recebido maiores atenções nas atividades de controle fitossanitário. Entretanto, a pergunta que persiste é o que dizer das populações dos ectoparasitos, merecem ou não atenção fitossanitária?

A patogenia dos ectoparasitas da cana-de-açúcar demorou a ser estudada e a primeira contribuição científica sobre o tema ocorreu em Jansen et al (1959) no Havaí. Esse estudo comprovou por meio de inoculações que o parasitismo de Helicotylenchus sp. (Figura 1E) afetava o desenvolvimento das plantas. O trabalho foi documentado com fotos de lesões necróticas radiculares, associadas à ação do suposto patógeno. Em seguida, dois pesquisadores, também do Havaí, Apt e Koike (1962 a e b), reportaram, igualmente, a patogenicidade de dois ectoparasitos. No primeiro trabalho, os autores reportaram a ação do nematoide espiralado (Helicotylenchus) e no segundo a do gênero Trichodorus. Os dois autores, na primeira pesquisa, verificaram, por meio de experimentos realizados com plântulas cultivadas em vasos, que Helicotylenchus nannus, atualmente H. dihystera, em níveis populacionais acima de mil espécimes por seedling  pode causar danos significativos. A segunda pesquisa foi com a espécie Trichodorus christie, atualmente Paratrichodorus minor. Usando metodologia similar à da primeira, os autores obtiveram resultados semelhantes. Em ambas, cada nematoide, a depender da densidade populacional, afetou, de modo diferenciado, as plântulas inoculadas, verificando-se acentuadas reduções do desenvolvimento das partes aéreas e as radiculares. A partir dessas pesquisas, foi intensificada, ainda mais, a prática do levantamento populacional de fitonematoides em canaviais e, com isso, publicados novos assinalamentos de ectoparasitas, tanto no Brasil quanto no exterior.

Enquanto isso, dois atuantes pesquisadores nematologistas, V. W. Spall e P. Cadet, em países africanos, do Sul e do Oeste, em fins do século 20, afirmaram que Trichodorus e Paratrichodorus eram os fitonematoides predominantes em canaviais, sendo as espécies de Paratrichodorus as mais prevalentes e P. minor a mais virulenta. Segundo esses autores, tais nematoides são frequentes em Burkina Faso, África do Sul e Zimbábue e menos assinalados em outros países. Em canaviais de solos arenosos da África do Sul, por exemplo, populações de Paratrichodorus são frequentemente associadas a reduções do desenvolvimento de plantas e formação de raízes amputadas (stubby root); sintomas típicos de plantas parasitadas por tricodorídios (Figura 2 A e B). Alguns ectoparasitos, a exemplo dos gêneros Xiphinema e Hemicycliophora (Figura 1 B e C) induzem a formação de pequenos tumores radiculares, muito parecidos com os causados pelo nematoide-das-galhas. Esse fato pode ter ocasionado falsos diagnósticos (Figura  2C)

Um terceiro grupo de nematoides ectoparasitos encontrado associado à cana-de-açúcar com alta frequência, em nível mundial, é o dos nematoides-anelados, formado por diversos gêneros, com destaque para Criconemella e Mesocriconema. Embora esses gêneros possuam importância econômica quando parasitando outras culturas, até o momento não existem evidências de que possam causar reduções significativas da produtividade da cana-de-açúcar. Um tópico, portanto, que necessita de mais investigações. Silva; Cares; Moura, 2019 (Anais da APCA (16):129-140; em fase final de editoração), reportaram uma característica peculiar desses nematoides, ou seja, uma maior capacidade de sobrevivência do gênero Mesocriconema (Figura 1D) aos rigores da secura do solo durante o verão do Nordeste brasileiro. Isso, em relação aos demais ectoparasitos estudados.

Segundo experimentos realizados em canaviais da África do Sul, também por V.W. Sapull e P. Cadet,  foi revelado que Trichodorus sp. (Figura 1A) e Paratrichodorus sp. restringem a absorção de água pelas raízes, limitando o crescimento dos colmos em cana-planta. Os autores observaram, também, em socaria, que as perdas em produtividade constatadas na África do Sul estavam sempre relacionadas à presença dos gêneros Xiphinema (Figura 1B) e Paratrichodorus. Por outro lado, em um outro experimento, em Burkina Faso, os nematoides ectoparasitos pouco interferiram na produtividade das socas, provavelmente, segundo os mesmos autores, à predominância de H. dihystera. Esse nematoide-espiralado, afirmaram,  seria supressor dos demais ectoparasitas, impedindo o potencial reprodutivo dos dos demais, igualmente a um controle biológico. Esse fato foi confirmado por Silva, Cares e Moura (2019).

No Brasil, a relação entre os ectoparasitos e perdas na produtividade da cana-de-açúcar ainda não foi devidamente avaliada, muito embora estudos tenham mostrado associações entre baixas produtividades da cultura e a presença de ectoparasitos. Uma revisão sobre o tema “Histórico dos Nematoides da Cana-de-Açúcar” foi publicada por Moura e Guimarães, nos Anais da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica (1): 69-78, 2004.

À luz do que foi mostrado, pode-se inferir, para fins de aplicabilidade prática, que os nematoides ectoparasitos poderão ser prejudiciais à cana-de-açúcar, quando em níveis populacionais superiores a mil espécimes por 300cm3 de solo, que poderia ser considerado o nível de dano, com 500 espécimes por 300cm3 de solo, atingindo o nível de ação. Nesses níveis populacionais, as plantas podem ter o desenvolvimento afetado, especialmente pela ação parasitária nas raízes das brotações e de seedlings, sobretudo em épocas climáticas desfavoráveis à cultura. Portanto, experimentos de campo do tipo competicão de variedades, formulações de fertilizantes e outros, onde o principal parâmetro de avaliação dos tratamentos experimentais for o desenvolvimento da planta, os resultados poderão ser afetados pela presença desses organismos em níveis considerados de dano. Igualmente, essas populações devem ser consideradas por ocasião da renovação de canaviais.

Controle

Controlar nematoides ectoparasitos em canaviais é um tema pouco estudado, mas deve  ser  sempre considerado em situações  onde ocorram níveis de dano, ou seja,  populações iguais ou acima de mil espéciemes por 300cm3 de solo de rizosfera. Para aplicação de medidas de controle para essas situações, entretanto, devem ser consideradas duas situações: tratamento de pequenas áreas (áreas destinadas a pesquisas de campo, sementeiras etc, menores do que um hectare) e de grandes áreas (áreas  destinadas à produção comercial; maiores do que um hectare). As práticas apresentadas, além de afetarem os ectoparasitos, atingem os endoparasitas. 

Procedimentos para pequenas áreas

1) Efetuar análise nematológica de solo antes do plantio definitivo, preferencialmente com a cultura anterior ainda no campo.

2) Constatada população do ectoparasito em nível de dano, efetuar o revolvimento do solo, seguido da aplicação de matéria orgânica, irrigação por asperção e solarização. Uma fumigação da área ou aplicação de nematicida sistêmico aumenta a eficiência (Figura 3).

Procedimento para grandes áreas

 Revolvimento do solo, aplicação de matéria orgânica, seguida, quando possível, de irrigação por asperção. Repetir  a  prática após 30 dias a 40 dias. O controle da vegetação nativa por meio de herbicidas, antes do plantio definitivo, melhora os resultados. Estas duas práticas servião também para controlar as populações  dos demais fitonematoides da cultura. O uso de nematicida é opcional e, em média, a aplicação de nematicidas sistêmicos em cana-de-açúcar só é viável economicamente quando proporcionar aumentos da produtividade da ordem de 20 toneladas por hectare. 

A aplicação da matéria orgânica, para ambas as situações, deve ser feita com  torta de filtro Oliver; um subproduto da indústria sucroalcooleira. Além de ser excelente fonte de nutrientes (N, Ca, P e S,), esse material proporciona retenção de água no solo e apresenta potencial para correção do pH. Favorecidas por essas condições edáficas, a microflora e a fauna do solo serão incrementadas e o equilíbrio biológico das populações favorecido. Um especialista em fertilidade do solo deve ser consultado para o cálculo da dosagem  correta de torta por hectare. 

As rotações de culturas indicadas no  controle dos endoparasitas da cana-de- açúcar para grandes áreas infestadas podem interferir na dinâmica das populações dos ectoparasitas, mas os resultados são imprevisíveis, devido à diversidade de espécies e de gêneros sempre ocorrentes nas rizosferas.

Figura 1- Alguns gêneros de ectoparasitas que são encontrados em rizosferas de cana-de-açúcar. A) Trichodorus B) Xiphinema C) Hemicycliophora, D) Mesocriconema E) Helicotylechus, este, na maioria dos casos, o mais freqüente e abundante
Figura 1- Alguns gêneros de ectoparasitas que são encontrados em rizosferas de cana-de-açúcar. A) Trichodorus B) Xiphinema C) Hemicycliophora, D) Mesocriconema E) Helicotylechus, este, na maioria dos casos, o mais freqüente e abundante.
Figura 2 - Sintomas do tipo raízes-amputadas e ausência de pelos absorventes, em cana-de-açúcar, variedade SP 70 10 11, associados à presença de espécies do Trichodorus sp. na rizosfera. C- Sintomas semelhante ao dos nematoides das galhas são produzidos por ectoparasitos dos gêneros Xiphinema e Hemicycliophorae C: NAS, USA)
Figura 2 - Sintomas do tipo raízes-amputadas e ausência de pelos absorventes, em cana-de-açúcar, variedade SP 70 10 11, associados à presença de espécies do Trichodorus sp. na rizosfera. C- Sintomas semelhante ao dos nematoides das galhas são produzidos por ectoparasitos dos gêneros Xiphinema e Hemicycliophorae C: NAS, USA).
Figura 3 - A) O revolvimento do solo expõe os ectoparasitos à dissecação pelos raios solares, provocando drástica redução populacional. B) Solos aderentes aos equipamentos de mecanização do solo disseminam nematoides, tornando uniforme a distribuição horizontal dos ectoparasitas introduzindo-os, ao mesmo tempo, em novas áreas não contaminadas. C) A solarização em percelas experimentais, acompanhada de aplicação matéria orgânica e de nematicida, assegura ao pesquisador a certeza da não interferência dos ectoparasitos nos resultados experimentais. D) Torta de filtro Oliver, sempre disponível, é um excelente tipo de matéria orgânica para a cana-de-açúcar
Figura 3 - A) O revolvimento do solo expõe os ectoparasitos à dissecação pelos raios solares, provocando drástica redução populacional. B) Solos aderentes aos equipamentos de mecanização do solo disseminam nematoides, tornando uniforme a distribuição horizontal dos ectoparasitas introduzindo-os, ao mesmo tempo, em novas áreas não contaminadas. C) A solarização em percelas experimentais, acompanhada de aplicação matéria orgânica e de nematicida, assegura ao pesquisador a certeza da não interferência dos ectoparasitos nos resultados experimentais. D) Torta de filtro Oliver, sempre disponível, é um excelente tipo de matéria orgânica para a cana-de-açúcar.

Grupos parasitários de nematoides

1) Endoparasitas migradores

- Nematoides-das-lesões: (lesion-nematode)Pratylenchus zeae e P. brachyurus;

2) Endoparasita sedentário

- Nematoides-das-galhas: (root-knot nematode) Meloidogyne javanica e M. incognita;

3) Ectoparasitas

Gêneros e espécies de maiores frequências

- Nematoide-espiralado (spiral nematode): Helicotylenchus dihystera e Helicotylenchus spp;

- Nematoide-anelado (ring nematode): Criconemella spp e Mesocriconema spp;

- Nematoide-das-raízes-amputadas (stubb root nematode): Trichodorus spp. e Paratrichorus spp;

Gêneros menos frequentes:

- Aphelenchoides, Hemicycliophora, Radopholus, Hoplolaimus, Tylenchorhyncus,  Xiphinema, entre outros.

Observação: ainda não foram realizados levantamentos de espécies para a maioria das populações de ectoparasitos da cana-de-açúcar ocorrentes no Brasil e, em muitos casos, não se sabe se ocorre uma única ou mais espécies.  

Romero Marinho de Moura, Universidade Federal de Pernambuco

Matérias da Edição:
  1. Página 6

    Apetite gigante

  2. Página 10

    Presença crescente

  3. Página 14

    Manejo reforçado

  4. Página 20

    Vassoura daninha

  5. Página 23

    Mistura segura

  6. Página 26

    Soma de esforços

  7. Página 34

    Aplicado na folha

  8. Página 38

    Impacto nocivo

  9. Página 40

    Perigo extra

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