Quando realizar dessecação pré-colheita em soja e feijão

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  • Dez 2019 |
  • Eliana Fernandes Borsato, Luis Henrique Penckowski, Evandro Maschietto, Fundação ABC

A intensificação dos sistemas de cultivos na busca por conduzir duas culturas de verão na mesma safra tem levado à necessidade de liberar a área o mais cedo possível para a semeadura da cultura subsequente. A ocorrência de infestações de plantas daninhas próximas da colheita da cultura, a retenção foliar, a diferença de maturação das vagens, entre outros, tornam viável a utilização de herbicidas dessecantes na pré-colheita da soja e do feijão. Quando realizada de maneira adequada, a dessecação pré-colheita pode resultar em maior uniformidade da maturidade fisiológica da lavoura, aumentar o rendimento de máquina na colheita, antecipar o plantio da cultura seguinte e obter grãos de melhor qualidade fisiológica.

Para isso, é necessário aprender a identificar o estádio de desenvolvimento das culturas. Na soja é importante conhecer a diferença entre os hábitos de crescimento determinado e indeterminado. Nas cultivares com hábito de crescimento determinado, o início do florescimento ocorre na região central da haste (entre o 6° e o 8° nó da haste principal) e segue tanto para a base como para o topo da planta, com pouca diferença na maturação das sementes. Para as cultivares com hábito de crescimento indeterminado, o início da floração ocorre muito cedo, quando a planta ainda se encontra no estádio vegetativo; o florescimento se inicia no 4° ou 5° nó da haste principal e segue até o topo, sendo mais intenso nos nós medianos; nessas cultivares os estádios de desenvolvimento não são bem definidos e a emissão constante de vagens resulta na maturação desuniforme, implicando problemas na colheita e grãos com diferentes níveis de umidade. A época de dessecação pré-colheita é mais flexível nas cultivares com hábito indeterminado, pois a maioria das sementes imaturas está presente somente no topo da planta, enquanto nas de hábito determinado ocorrem tanto no topo como na base das plantas.

Atualmente, a maioria das cultivares de soja semeadas é de hábito de crescimento indeterminado. No campo, as características mais observadas na pré-colheita da soja para essas cultivares são a retenção de folhas e plantas com haste verde, além da diferença de maturação das sementes.

Então, qual o momento ideal para realizar a dessecação pré-colheita? Deve ser efetuada após o máximo acúmulo de matéria seca nos grãos, evitando a translocação de metabólitos dos herbicidas para os grãos e para que não ocorra prejuízo na produtividade. Esse estádio pode ser definido como a maturação fisiológica da cultura, a partir da qual não ocorre acúmulo de fotoassimilados e se inicia o processo de perda da umidade do grão.

Na cultura da soja, assim como em outras culturas, esse período corresponde ao início do amarelecimento das vagens e folhas e posteriormente desfolha. Pesquisas têm mostrado que a dessecação é viável a partir do estádio R 6.5, porém no estádio R 7 a aplicação pode ser considerada segura.

A Figura 1 apresenta uma escala adaptada de Fehr & Caviness (1977) e Ritchie et al (1977), compreendendo as divisões nas fases de maturação e desfolha.

É importante lembrar que aplicações realizadas muito cedo, ainda com os grãos em fase de enchimento, podem resultar em acúmulo do herbicida no grão e, consequentemente, inviabilizar a germinação. Além disso, aplicações precoces tendem a reduzir a produtividade da soja e do feijão e não apresentar o benefício de antecipar a colheita devido à grande quantidade de matéria verde ainda presente nas plantas. Por outro lado, se realizada mais tarde a dessecação pré-colheita pode atrasar a colheita, pois deve ser respeitado o intervalo de segurança entre a aplicação e a colheita.

Como identificar no campo esses estádios de desenvolvimento?

A desfolha não pode ser utilizada para determinar a época de aplicação, pois a retenção de folhas pode variar de cultivar e das condições de desenvolvimento da cultura. A coloração da vagem pode não ser a melhor ferramenta para definir a época de aplicação e o melhor parâmetro está no desenvolvimento das sementes nas vagens.

O período que corresponde ao final de enchimento dos grãos pode ser observado quando ocorre a descoloração das folhas. As folhas perdem sua tonalidade verde-escura e passam para uma cor mais clara, que posteriormente se tornarão amarelas. Para a soja, no estádio R 6.0 a semente atinge o máximo de acúmulo de matéria seca, preenche toda a cavidade da vagem e começa o processo de “desmama” do grão. No final desse estádio não é mais observada uma membrana branca que reveste a semente, estando o grão solto na vagem. No estádio R 7.1, 50% das vagens e das folhas estão amarelas (Figura 2).

No estádio R 7.2, o amarelecimento da planta está mais avançado, os grãos dentro da vagem também perdem a cor verde e se tornam amarelados. Os grãos de soja ainda apresentam formato de “feijão” (Figura 3). No estádio R 8.1, a desfolha é intensa e as vagens começam a adquirir coloração marrom. Para a cultivar com hábito indeterminado pode ser observada a diferença na maturação dos grãos. No terço superior, a quantidade de grãos verdes é maior que no terço inferior.

A campo, o monitoramento do estádio das plantas deve ser mais frequente a partir do início do amarelecimento das folhas. Tanto para cultivares com hábito determinado ou indeterminado deve se observar as vagens localizadas no terço médio das plantas. Sugere-se coletar as vagens acima do 4° nó de forma ao acaso, abrir as vagens e observar se os grãos estão separados (“desmamados”) da vagem ou se estão aderidos através de uma membrana branca; a partir dessa fase os grãos perdem a cor verde e se tornam amarelados, porém ainda possuem formato de “feijão”; essa fase é identificada como estádio de desenvolvimento R 7.2 (Figuras 1 e 3) e a aplicação de dessecantes, de maneira geral, pode ser realizada sem efeitos negativos na produtividade.

E quais são os benefícios em dessecar as plantas de soja próxima à colheita?

Em ensaio conduzido pela Fundação ABC na safra 2012/2013 em nove cultivares de soja e em dois locais (Ponta Grossa, no Paraná; e Itaberá, em São Paulo), a dessecação pré-colheita da soja quando realizada no estádio R 7.2 permitiu antecipar a colheita em seis dias, na média. Essa antecipação pode ser benéfica quando existe a necessidade de realizar o escalonamento da colheita devido à oferta de maquinário, assim como antecipar a semeadura da safrinha. Quando a dessecação foi realizada em R 6.0 a antecipação da colheita foi de nove dias, porém ocorreram perdas na produtividade e, principalmente, na qualidade do grão, resultando em sementes com menor germinação, vigor e maior dano por umidade (Figura 4).

A dessecação pré-colheita também auxilia para uniformizar a maturação dos grãos, principalmente nas cultivares com hábito indeterminado, onde as vagens na parte inferior atingem a maturidade antes e estão mais secas, enquanto as vagens na parte superior da planta ainda estão verdes. A retenção de folhas e a presença de hastes verdes também são comuns para essas cultivares, e se não realizada a dessecação pré-colheita a quantidade de massa verde e de grãos verdes na colheita também resulta em perdas na produção. O ataque de percevejo é outro fator que pode justificar a dessecação pré-colheita da soja, pois pode ocasionar um desequilíbrio fisiológico na maturação, resultando em plantas com haste verde/retenção foliar.

A infestação de plantas daninhas na colheita da cultura também pode justificar o uso da dessecação pré-colheita. A presença de plantas daninhas nessa etapa pode resultar em maior dificuldade na colheita devido ao entupimento das máquinas, à exigência de maior velocidade no cilindro batedor, ao maior tempo gasto para colocar a colhedora em condições de recomeçar a operação, aos maiores danos mecânicos às sementes e ao aumento na porcentagem de impurezas no produto colhido. Outro fator a ser considerado é que altas infestações de plantas daninhas levam a um aumento no teor de umidade do grão, sendo necessária a redução da velocidade da máquina, tornando o grão mais sujeito à deterioração.

Portanto, a utilização de herbicidas na pré-colheita da soja otimiza o uso das colhedoras e reduz a porcentagem de impureza nos grãos. É importante ressaltar que após a aplicação do herbicida dessecante o intervalo até a colheita deve ser de no mínimo sete dias, respeitando o intervalo de segurança sugerido na bula do produto.

Com relação à escolha do herbicida, os de contato atuam de forma mais rápida (exemplo: glufosinato e diquat) e podem auxiliar quando o objetivo é a antecipação da colheita. Os herbicidas registrados para dessecação pré-colheita da soja (Seab, 2019) estão na Tabela 1.

A velocidade de dessecação na pré-colheita de cultivares de soja varia conforme os dessecantes, sendo diquate e paraquate, os mais rápidos e eficientes quando comparados ao herbicida glufosinato. O estádio de aplicação também interfere na velocidade da dessecação, sendo mais rápida a desfolha/dessecação quando aplicada em plantas com estádios mais avançados de desenvolvimento, ou seja, no estádio R 8.1 a dessecação ocorre mais rápido que a realizada no estádio R 7.2.

Tanto diquate como paraquate são eficazes na desfolha da soja e apresentam velocidade de dessecação similar. Esses herbicidas pertencem ao grupo químico bipiridílio e atuam como inibidores do fotossistema I. De forma resumida, diquat e paraquat interferem no processo de captação de energia solar, pelo qual as plantas reduzem o CO2 a CH2O, liberando O2; esse processo somente ocorre na presença de luz. Dentre os dessecantes, glufosinato além de apresentar dessecação mais lenta é o herbicida que mais impacta na qualidade fisiológica das sementes tanto em germinação (Figura 5), vigor, porcentagem de sementes não germinadas e dano das sementes.

A escolha do herbicida dessecante também pode variar de acordo com a planta daninha predominante na pré-colheita da soja. Em lavouras com maior presença de plantas daninhas com folha estreita o melhor controle é obtido com paraquate e quando predominam folhas largas a melhor opção é o herbicida diquate.

Portanto, para as cultivares com hábito de crescimento determinado, assim como para as cultivares com hábito indeterminado, a dessecação pré-colheita da soja deve ser realizada de forma segura a partir do estádio R 7.2. Com isso, podem ser observados os benefícios de antecipação da colheita e manutenção da qualidade do grão sem prejuízos na produtividade.

Dessecação pré-colheita na cultura do feijão

Na cultura do feijão, os benefícios da dessecação pré-colheita são similares aos da soja, porém a identificação do momento de aplicação ocorre em função do números de vagens secas/maduras nas plantas. São consideradas como vagens secas aquelas que apresentam grãos rajados mesmo quando a vagem ainda possui coloração verde (Figura 6).

A recomendação da aplicação de dessecantes na pré-colheita do feijão também deve levar em conta o destino do grão, se é para consumo ou produção de semente. Quando realizada mais cedo, com 60% das vagens secas (Figura 7), não ocorrem perdas na produtividade. Porém, é observada menor qualidade da semente devido à redução na germinação ou vigor, sendo recomendado o uso do grão somente para consumo (Figura 8). Então, quando o campo de feijão é destinado à produção de sementes a dessecação deve ser realizada com mais de 80% das vagens secas.

Quanto à performance dos dessecantes, o comportamento é similar ao que ocorre na cultura da soja. Recomenda-se consultar a dose recomendada e o intervalo de segurança para cada produto. Outro fator importante na cultura do feijão se refere à colheita mecanizada das áreas, que somente é possível quando as plantas são dessecadas. Portanto, essa ferramenta, quando bem utilizada, traz benefícios aos produtores de soja e feijão.

Figura 1 - Subdivisão do estádio de desenvolvimento correspondente à maturação dos grãos (adaptado de Fehr & Caviness, 1977 e Ritchie et al., 1977)
Figura 1 - Subdivisão do estádio de desenvolvimento correspondente à maturação dos grãos (adaptado de Fehr & Caviness, 1977 e Ritchie et al., 1977)
Figura 2 - Plantas de soja com hábito de crescimento indeterminado no estádio de desenvolvimento R 7.1, com hastes verdes e início do amarelecimento de folhas, vagens e grãos. Fundação ABC, Ponta Grossa - PR, 2009/2010
Figura 2 - Plantas de soja com hábito de crescimento indeterminado no estádio de desenvolvimento R 7.1, com hastes verdes e início do amarelecimento de folhas, vagens e grãos. Fundação ABC, Ponta Grossa - PR, 2009/2010
Figura 3 - Plantas de soja com hábito de crescimento indeterminado no estádio de desenvolvimento R 7.2, com hastes verdes e início do amarelecimento de folhas, vagens e grãos. Fundação ABC, Ponta Grossa - PR, 2009/2010
Figura 3 - Plantas de soja com hábito de crescimento indeterminado no estádio de desenvolvimento R 7.2, com hastes verdes e início do amarelecimento de folhas, vagens e grãos. Fundação ABC, Ponta Grossa - PR, 2009/2010
Figura 4 - Produtividade da soja de acordo com a época de aplicação de herbicidas dessecantes (média de 9 cultivares instaladas em 2 locais). Fundação ABC, 2012/2013
Figura 4 - Produtividade da soja de acordo com a época de aplicação de herbicidas dessecantes (média de 9 cultivares instaladas em 2 locais). Fundação ABC, 2012/2013
Figura 5 - Germinação da soja de acordo com o dessecante utilizado na dessecação pré-colheita (média de 9 cultivares e em 2 locais). Fundação ABC, 2012/2013
Figura 5 - Germinação da soja de acordo com o dessecante utilizado na dessecação pré-colheita (média de 9 cultivares e em 2 locais). Fundação ABC, 2012/2013
Figura 6 -  Vagens de feijão com grãos ainda verdes (foto da esquerda) e vagens maduras com grãos rajados (foto da direita). Fundação ABC, 2010
Figura 6 - Vagens de feijão com grãos ainda verdes (foto da esquerda) e vagens maduras com grãos rajados (foto da direita). Fundação ABC, 2010
Figura 7 -  Plantas de feijão em diferentes estádios de desenvolvimento. Fundação ABC, 2015
Figura 7 - Plantas de feijão em diferentes estádios de desenvolvimento. Fundação ABC, 2015
Figura 8 -  Efeito da dessecação sobre a produtividade e a qualidade da semente de feijão em função do estádio de desenvolvimento da cultura. Fundação ABC, 2010
Figura 8 - Efeito da dessecação sobre a produtividade e a qualidade da semente de feijão em função do estádio de desenvolvimento da cultura. Fundação ABC, 2010

Eliana Fernandes Borsato, Luis Henrique Penckowski, Evandro Maschietto, Fundação AB

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