Resistência implacável

  • Página 8 |
  • Set 2019 |
  • Mateus Tonini Eitelwein, Rodrigo Gonçalvez Trevisan e Marcos Nascimbem Ferraz, Smart Agri; José Paulo Molin, USP/Esalq

As plantas daninhas ou invasoras podem atuar de várias maneiras na redução da produtividade. Isso ocorre pela competição por luz, água, nutrientes ou pela liberação de metabolitos secundários tóxicos, que prejudicam o desenvolvimento da cultura de interesse, fenômeno conhecido como alelopatia. Além disso, estas plantas podem ser hospedeiras de patógenos e insetos nos períodos de entressafra, aumentando a pressão de doenças e pragas durante a safra.

Há ainda problemas causados pela presença de daninhas no momento da colheita, onde suas sementes acabam misturando-se com os grãos de interesse econômico, podendo causar contaminação da carga. Os casos mais recentes desta natureza ocorreram com o fedegoso (Senna occidentalis), em que empresas se recusaram a receber cargas por conta da presença da semente desta daninha, que é tóxica para alimentação animal.

Um dos aspectos biológicos das plantas daninhas que dificultam seu controle é a presença de dormência nas sementes. Isso faz com que as plantas possam germinar em diversos momentos ao longo do tempo, com diferenças de dias até vários anos. Normalmente, a estratégia usada para controle é esperar que uma quantidade significativa de plantas germine antes de se realizar a aplicação de herbicidas, entretanto existe o risco de que as primeiras plantas a germinarem já estejam maiores que o estádio ideal de controle, levando à necessidade de aumento de doses e o risco de menor taxa de controle, além, é claro, da possibilidade de já terem produzido sementes.

A própria soja, o algodão ou o milho resistentes a herbicidas podem se tornar um problema para as culturas subsequentes, uma vez que o combate pode exigir um herbicida específico, ou em alguns casos necessitar remover a planta manualmente para não comprometer a cultura de interesse. Neste mesmo sentido, o vazio sanitário, exigido por lei em 11 estados brasileiros, determina a eliminação total de plantas hospedeiras para interromper o ciclo biológico de pragas e doenças na entressafra, o que garante uma pressão menor destes problemas durante a safra.

No caso do algodoeiro, que naturalmente rebrota após a colheita, a destruição da soqueira torna-se obrigatória; amparada por lei federal, com o objetivo principalmente de controle do bicudo (Anthonomus grandis) na entressafra. As principais técnicas para destruição da soqueira utilizam princípios mecânicos ou químicos, podendo ser uma combinação dos dois. No caso da destruição mecânica com o uso de máquinas específicas, a taxa de rebrota pode chegar a 30%, dependendo do tipo de máquina e características do solo. No entanto, como regra, a taxa de rebrota é sempre baixa, mas exige controle químico subsequente em área total, gerando desperdício de defensivos e gastos desnecessários, além, é claro, do impacto ambiental que pode ser evitado.

É conhecido que a introdução de cultivares transgênicas com resistência ao glifosato causou uma revolução no combate às ervas daninhas no Brasil. Por possuir alta eficácia e baixo impacto ambiental, o herbicida tornou-se praticamente único durante o ciclo da soja. Em contrapartida, a repetição do mesmo princípio ativo acaba selecionando no campo as plantas daninhas resistentes. Torna-se importante destacar que a resistência não é induzida pelo herbicida, mas já existe naturalmente em alguns indivíduos que acabam sendo selecionados.

O modo como são feitas a seleção e a perpetuação de uma planta daninha resistente ao longo dos anos pode ser observado na Figura 1. A seleção ocorre naturalmente quando se aplica repetidamente o mesmo herbicida, iniciando em reboleiras ao redor das plantas resistentes, até atingir toda a lavoura.

As plantas daninhas ou invasoras podem atuar de várias maneiras na redução da produtividade
As plantas daninhas ou invasoras podem atuar de várias maneiras na redução da produtividade.

Na Figura 2 pode-se observar o problema de ervas daninhas resistentes em uma lavoura comercial, pois sobreviveram à aplicação de herbicida. A imagem aérea foi captada logo após a semeadura e demonstra claramente que essas plantas irão competir com a cultura, gerar perda de produtividade e espalhar sementes pela lavoura, aumentando a quantidade destas plantas para o próximo ano.

Este problema não fica restrito apenas ao talhão onde ocorreu a seleção. As sementes se dispersam e a utilização do mesmo tipo de herbicida em nível regional alastra o problema para todo o país. Deste modo, o problema ganha proporções que atingem as principais regiões produtoras do país, ou seja, os locais de cultivo de plantas resistentes ao glifosato, como soja, milho e algodão. A Figura 3 destaca as áreas com problemas de plantas daninhas resistentes no Brasil, destacando o Norte do Rio Grande do Sul, onde as primeiras cultivares de soja RR foram semeadas.

O primeiro caso de resistência de uma erva daninha ao glifosato foi observado na Austrália, em 1996. Desde então, o número de espécies só tem aumentado, tornando-se uma dor de cabeça para os agricultores em todo o mundo. Atualmente, EUA e Austrália são os países que lideram o ranking do número de espécies de plantas com comprovada resistência ao glifosato, apresentando 17 espécies e 16 espécies, respectivamente. Em terceiro e quarto lugar surgem Argentina e Brasil, com 12 espécies e oito espécies, respectivamente (Figura 4).

Segundo o Levantamento Internacional de Ervas Daninhas Resistentes a Herbicidas (http://www.weedscience.org), são 43 espécies resistentes ao glifosato catalogadas no mundo (Figura 5). Apesar do elevado número, o glifosato ainda é o segundo, aparecendo atrás da atrazina, que tem nada menos que 66 espécies com resistência comprovada.

No Brasil, há oito espécies com resistência comprovada ao glifosato, sendo capim amargoso (Digitaria insularis), buva (Conyza bonariensis / Conyza canadensis / Conyza sumatrensis), capim pé-de-galinha (Eleusine indica), capim branco (Chloris elata), azevém (Lolium multiflorum) e uma espécie exótica de caruru (Amaranthus palmeri).

O caruru exótico ou caruru gigante é considerado a principal planta daninha do algodoeiro nos EUA e foi encontrado pela primeira vez em 2015 no estado do Mato Grosso, causando alerta entre os produtores. Por apresentar crescimento rápido, é extremamente agressivo, podendo produzir de 100.000 a 1.000.000 de sementes por planta. Além disso, a espécie apresenta resistência a seis mecanismos de ação de herbicidas, tornando o seu controle ainda mais difícil.

Na safra de algodão de 2016, 2017 e 2018 não foram constatados novos casos de Amaranthus palmeri, indicando que os esforços do Instituto Mato-Grossense do Algodão (IMAmt) e do Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (InDeA/MT) surtiram efeito. No entanto, as áreas em Tapurah e Ipiranga do Norte, onde a espécie foi detectada, seguirão sob intenso acompanhamento. A Argentina é um dos países afetados em que a espécie já se tornou um grave problema, espalhando-se rapidamente por todo o território do país. Após ser identificado pela primeira vez em 2011, em uma região restrita da província de Córdoba, passou a ter presença generalizada em todas as regiões em 2017, com infestações de nível moderado a alto em mais de 50% das áreas.

Deixando o Amaranthus palmeri um pouco de lado e abordando o problema mais atual dos produtores, não é preciso dirigir muito pelas rodovias do Centro-Oeste para identificar plantas de capim amargoso, buva e capim pé-de-galinha. Estas três espécies têm sido as de maior recorrência na região Centro-Oeste do Brasil, já na Região Sul, além da buva, junta-se à lista o azevém.

A buva resistente em solo brasileiro é representada por três espécies: Conyza sumatrensis, Conyza bonariensis e Conyza canadensis. A Conyza sumatrensis teve o primeiro caso de resistência comprovado somente em 2010. Em apenas sete anos, mais quatro mecanismos de ação de herbicidas perderam efeito para esta espécie, caracterizando uma resistência múltipla.

O problema mais comum no Centro-Oeste e região do Matopiba tem sido o capim amargoso, planta perene que depois de formar touceiras torna-se difícil de ser controlada. A dispersão de sementes pelo vento a longas distâncias contribui para a disseminação desta daninha. O controle químico desta espécie deve ser realizado quando a planta ainda estiver em fase inicial de desenvolvimento, geralmente até os 45 dias após a emergência. Após este prazo, o crescimento torna-se acelerado e a formação de pequenos rizomas dificulta o seu controle.

Além das oito espécies citadas como resistentes, há ainda aquelas que são tolerantes ao glifosato, ou seja, podem sobreviver à aplicação do herbicida nas doses recomendadas, mesmo sofrendo graves danos. O combate químico a estas plantas deve ser realizado com outros princípios ativos, sempre buscando uma rotação eficiente. No entanto, na maior parte das vezes, por se tratar de produtos mais caros, resultam em aumento dos custos de produção. Estes novos gastos não faziam parte da vida do produtor até pouco tempo, o que começou a ser problema recorrente há pelo menos seis anos.

Estudos recentes da Embrapa apontam para um aumento do custo de controle de 42% e 165%, em áreas com presença de buva e capim amargoso resistentes ao glifosato, respectivamente. Lavouras com a presença de ambas as espécies geram aumento médio de 222% em relação ao combate em áreas com plantas suscetíveis.

Diante disso, o mercado está novamente vivendo um aquecimento em torno de cultivares de soja transgênicas resistentes a herbicidas alternativos ao glifosato. As grandes empresas do setor já estão buscando posicionar a sua tecnologia, como é o caso do sistema Cultivance (parceria entre Basf e Embrapa) resistente a herbicidas do grupo das imidazolinonas, a Xtend (Bayer) resistente ao dicamba e o Enlist (Dow Agrosciences) resistente ao 2,4-D, glifosato e glufosinato.

Enquanto estas cultivares não chegam, a tecnologia pode auxiliar o produtor a cortar gastos com herbicidas sem comprometer a produção. Embora pouco divulgadas, algumas tecnologias já existem e estão à disposição do agricultor. No entanto, é importante ficar claro que naturalmente as plantas daninhas não estão distribuídas uniformemente em toda a lavoura. Na maior parte das vezes estão agregadas em reboleiras, principalmente devido à forma de dispersão das sementes. Em outras, os focos podem ser de plantas isoladas e muito esparsas. Independentemente da situação, haverá uma tecnologia capaz de auxiliar no seu combate localizado.

Figura 1 - Aumento do número de plantas de uma espécie resistente a um herbicida devido à aplicação repetida do mesmo princípio ativo
Figura 1 - Aumento do número de plantas de uma espécie resistente a um herbicida devido à aplicação repetida do mesmo princípio ativo.
Figura 2 - Talhão com a presença de plantas daninhas resistentes
Figura 2 - Talhão com a presença de plantas daninhas resistentes.
Figura 3 - Região em vermelho, áreas infestadas com plantas daninhas resistentes no Brasil
Figura 3 - Região em vermelho, áreas infestadas com plantas daninhas resistentes no Brasil.
Figura 4 - Mapa global do número de espécies resistentes ao herbicida glifosato
Figura 4 - Mapa global do número de espécies resistentes ao herbicida glifosato.
Figura 5 - Sequência cronológica de identificação das 43 espécies resistentes ao glifosato
Figura 5 - Sequência cronológica de identificação das 43 espécies resistentes ao glifosato.

Mateus Tonini Eitelwein, Rodrigo Gonçalvez Trevisan e Marcos Nascimbem Ferraz, Smart Agri; José Paulo Molin, USP/Esalq

Matérias da Edição:
  1. Página 14

    Agentes aliados

  2. Página 18

    Custo de tratar

  3. Página 22

    Eficácia otimizada

  4. Página 30

    Alvos agrícolas

  5. Página 32

    Como controlar

  6. Página 38

    Alvo monitorado

  7. Página 41

    Futuro semeado

  8. Página 42

    Mofo disseminado

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  • N 243

    Ago 2019

    Teste de fogo para fungicidas

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