Sempre ameaçadora

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  • Jun 2019 |
  • Jesus G. Töfoli, Ricardo J. Domingues e Josiane T. Ferrari, Instituto Biológico Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

Nas folhas, os primeiros sintomas são caracterizados por manchas de tamanho variável, coloração verde-clara ou escura e aspecto úmido. Ao evoluírem, se tornam pardo-escuras a negras, necróticas e irregulares, podendo ou não apresentar halo clorótico. Na face inferior das lesões, observa-se um crescimento branco-acinzentado, de aspecto aveludado, localizado principalmente ao redor das lesões, nos limites entre o tecido sadio e o necrótico. Esse é composto por esporângios e esporangióforos do patógeno e forma-se, especialmente, em condições de alta umidade e temperaturas que variam de 12°C a 18°C. À medida que as lesões coalescem, o tecido foliar escurece e exibe um aspecto de queima generalizada. Nas brotações, a doença causa a morte das gemas apicais e ponteiros, comprometendo o desenvolvimento das plantas. Nas hastes e nos pecíolos as lesões são pardo-escuras a negras, alongadas, aneladas e, quando muito severas, podem causar a quebra desses órgãos ou a morte das áreas posteriores ao ponto de infecção. Nos frutos, quando presentes, a doença é caracterizada por manchas irregulares, deformadas, profundas, de coloração marrom-escura. Nos tubérculos, as lesões são castanhas, superficiais, irregulares e com bordos definidos. No seu interior, a necrose geralmente é assimétrica, de coloração castanho-avermelhada, aparência granular e mesclada. Os sintomas em tubérculos são mais frequentes em regiões sujeitas à ocorrência simultânea de baixas temperaturas e alta umidade no solo durante a fase de tuberização.

Etiologia

Phytophthora infestans pertencente ao Reino Chromista, Filo Oomycota, classe Oomycetes. Apresenta crescimento micelial característico, porém não mostra septos (micélio cenocítico). Os esporângios são hialinos, globosos e papilados. Os esporangióforos são desenvolvidos, com ramificação simpodial, e emergem através dos estômatos. Em condições específicas de temperatura e de umidade no interior dos esporângios formam-se os zoósporos (esporos móveis) com dois flagelos que os tornam capazes de nadar.

P. infestans pode se reproduzir de forma assexuada e sexuada. As estruturas assexuadas de propagação são os esporângios e os zoósporos. Em geral, nos locais onde ocorre apenas um grupo de compatibilidade, a população é constituída por um ou poucos grupos de indivíduos geneticamente semelhantes a um ancestral comum constituindo uma população clonal. A reprodução sexual, por sua vez, pode ocorrer de duas formas, com espécies homotálicas (autoférteis) ou com espécies heterotálicas (A1 e A2). Como resultado da reprodução sexuada, formam-se os oósporos, esporos de parede espessa, adaptados a resistir a condições adversas do ambiente. Esses são formados em maior número em hastes do que em folhas, provavelmente pelo fato dos caules sobreviverem por mais tempo no campo. Os oósporos são liberados no solo após a decomposição completa das plantas afetadas, e atuam como fonte de inóculo inicial para futuros ciclos da doença.

Quanto à população brasileira de P. infestans, inicialmente sabia-se que o grupo A1 era associado predominantemente ao tomateiro e o grupo A2 à batata, não havendo evidências da ocorrência da reprodução sexuada no país. Estudos mais recentes têm demonstrado a ocorrência simultânea dos grupos de compatibilidade A1 e A2 em uma mesma área de cultivo de batata e a presença de isolados autoférteis. No entanto, a reprodução sexuada heterotálica ainda não foi comprovada.

Sintoma de requeima em folha de batata
Sintoma de requeima em folha de batata.

Ciclo da doença

Na reprodução assexuada os esporângios germinam diretamente quando as temperaturas variam de 18°C a 24°C, ou podem produzir zoósporos biflagelados quando se encontram na faixa de 12°C a 17°C.  Nessas condições, cada esporângio origina em média oito zoósporos, o que aumenta de forma significativa a quantidade de inóculos e assim sendo, a severidade e o potencial destrutivo da doença.

Quanto à umidade, a doença é favorecida por períodos de molhamento foliar superiores a 12 horas e ambientes de névoa e chuva fina. Em algumas situações, a altitude associada à presença de orvalho e a queda da temperatura noturna são suficientes para epidemias importantes da doença.

Após o início do processo infeccioso, a colonização dos tecidos é extremamente rápida, podendo o período de incubação variar de 48 horas a 72 horas. A penetração do pró-micélio resultante da germinação dos esporângios ou dos zoósporos encistados é direta no tecido vegetal, com a formação de apressórios.

A disseminação da requeima ocorre principalmente através de batata-semente infectada, ação de ventos, água de chuva ou irrigação, circulação de pessoas e maquinários etc. 

Haste de planta de batata afetada pela requeima
Haste de planta de batata afetada pela requeima.

Medidas integradas de controle da requeima

• Realizar o plantio de batata-semente sadia. A medida permite atrasar possíveis epidemias no campo e reduz a introdução de novas raças.

• Evitar plantios em áreas sujeitas ao acúmulo de umidade, circulação limitada de ar e próximos a reservas de água. Esses locais apresentam lenta dissipação da umidade, o que favorece o desenvolvimento da requeima. O plantio deve ser realizado preferencialmente em áreas planas, ventiladas e distantes de lavouras em final de ciclo.

• Plantio de cultivares com algum nível de resistência.

Quanto à resistência à requeima, as cultivares disponíveis no país podem ser classificadas em resistentes, moderadamente resistentes, moderadamente suscetíveis e suscetíveis.

Resistentes

Ibituaçu, Itararé, Araucária, Cristal, Pérola, Catucha, BRS Clara, Iapar Cristina, Monte Alegre 172, SCS 365 – Cota e UPFSZ Atlantucha. 

Moderadamente resistentes

Crebella, Apuã, Aracy e Aracy Ruiva, Cristina, Cristal, Naturella e Panda.

Moderadamente suscetíveis

Baraka, Baronesa, BRS Ana, BRS Eliza, Caesar, Catucha, Emeraude, Florice, Itararé, Innovator, Markies, Marlen, Melody, Soleia, Caesar, Oceania, Voyager, Éden, Colorado, Novella e BRSIPR Bel.

Suscetíveis

Ágata, Almera, Arrow, Armada, Artemis, Asterix, Atlantic, Amorosa, Bailla, Bintje, Canelle, Chipie, Contenda, Cupido, Delta, Elodie, Eole, Fontane, Gourmandine, Gredine, Isabel, Monalisa, Maranca, Mondial, Omega, Opilane, El Paso e Sinora.

A suscetibilidade das cultivares pode variar em função das condições climáticas, raças do patógeno existente na área, pressão de doença, época de plantio, espaçamento adotado, nutrição das plantas etc.

• Impedir o plantio sucessivo de batata e de outras solanáceas na mesma área.

• Evitar plantios adensados, que favorecem a má circulação de ar e o acúmulo de umidade entre as plantas.

Irrigação controlada

Evitar longos períodos de molhamento foliar é fundamental para o manejo da requeima. Para tanto, deve-se evitar irrigações noturnas ou em finais de tarde; minimizar o tempo e reduzir a frequência das regas em campos com sintomas da doença. A adoção de sistemas de irrigação localizada pode reduzir a ocorrência da requeima.

Adubação equilibrada

Níveis elevados de adubação nitrogenada originam tecidos mais tenros e suscetíveis à requeima. Por outro lado, o aumento dos níveis de fósforo, cálcio e silício podem diminuir a sua incidência e severidade. O boro, o magnésio e o cobre assumem papel importante no metabolismo do fenol e na biossíntese da lignina que conferem maior resistência às plantas. A deficiência de zinco pode resultar na condução de açúcares para a superfície das plantas, favorecendo a germinação de esporângios e zoósporos.

Manejo correto das plantas invasoras

Além de concorrerem por espaço, luz, água e nutrientes, essas plantas dificultam a dissipação da umidade e a circulação de ar na folhagem, favorecendo a requeima. Destaca-se ainda que em alguns casos possam servir de hospedeiros alternativos da doença e dificultar que os fungicidas aplicados atinjam a folhagem da batata. 

Aplicação preventiva de fungicidas registrados

 O uso de fungicidas deve seguir todas as recomendações do fabricante quanto a dose, volume, momento da aplicação, intervalo e número de pulverizações, intervalo de segurança, uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI), armazenamento e descarte de embalagens etc. Para evitar a ocorrência de resistência de P. infestans a fungicidas recomenda-se que produtos específicos (sistêmicos) sejam utilizados de forma alternada ou formulados com inespecíficos (contato); que se evite o uso repetitivo de defensivos com o mesmo mecanismo de ação; e que não se façam aplicações curativas em situações de alta pressão de doença. Os fungicidas oficialmente registrados no Brasil para o controle da requeima na cultura da batata encontram-se descritos no AGROFIT (http://extranet.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons).

Aspecto destrutivo da requeima em campo de batata
Aspecto destrutivo da requeima em campo de batata.

Outras medidas de manejo

• Eliminar e destruir tubérculos remanescentes no campo e plantas voluntárias.

• Limpar e desinfestar equipamentos utilizados em culturas afetadas.

• Eliminar e destruir tubérculos doentes e descartes.

• Vistoriar constantemente a cultura para identificar focos da doença com o  objetivo de facilitar e agilizar a tomada de decisões.

• Promover condições adequadas de temperatura, umidade, circulação de ar e higiene durante o armazenamento de batata-semente.

Jesus G. Töfoli, Ricardo J. Domingues e Josiane T. Ferrari, Instituto Biológico Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

Matérias da Edição:
  1. Página 16

    Choveram manchas

  2. Página 20

    Aliados perfeitos

  3. Página 28

    Contra a fusariose

  4. Página 32

    Deu míldio

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