Solos manchados

  • Página 42 |
  • Mar 2019 |
  • Danilo C. Neves, Suzany S. Moura, Eder E. Silva, Fábio H. R. Baio e Paulo E. Teodoro

Há diversas máquinas no mercado que são capazes de realizar a semeadura da soja e do milho em diferentes populações no campo, segundo técnicas de agricultura de precisão (AP). A aplicação em taxa variada de sementes já é uma prática possível, porém pouco difundida nas lavouras brasileiras. Mas como construir o mapa de recomendação ou prescrição das taxas de semeadura? Esses mapas são baseados na variabilidade de que fator? A resposta está no entendimento da variabilidade dos “solos manchados”.

Os cultivos agrícolas são marcadamente heterogêneos, de modo a ser possível visualizar manchas no desenvolvimento e produtividade das culturas. As causas podem ser diversas, de natureza biológica como nematoides e pragas; causadas pela ação antrópica, tais como compactação, rotação de culturas, tempo de cultivo, adubação etc. Há também manchas relacionadas com propriedades intrínsecas das áreas de cultivos, como teor de argila, profundidade do solo (medida da superfície até a rocha) e do lençol freático, declividade, tipo de solo, entre outros.

As manchas são caracterizadas por locais com menores produtividades e podem se repetir ano após ano. De modo que a incidência de manchas tem impacto direto na produtividade média das lavouras. É normal nas propriedades agrícolas, os talhões mais produtivos serem os mais uniformes, ou menos manchados.

Quando relacionada a algum agente biológico, a ocorrência de manchas nas lavouras normalmente se inicia em pequenas áreas (reboleiras) e aumenta com o tempo (exemplo disso são pragas, plantas daninhas, nematoides etc). Com esse tipo de mancha, práticas para o controle do agente causal tendem a reduzir ou eliminar a ocorrência dessas áreas de menor produtividade. As manchas de natureza antrópica também podem ser alteradas, seja a curto ou médio prazo.

A Figura 1 apresenta a variação na produtividade de soja em locais menores que 50 sc/ha (<3.000kg/ha) a locais superiores a 90 sc/ha (>5.400kg/ha). A média final desse talhão com 445ha foi de 74 sc/ha (4.440kg/ha). Assim, o entendimento de o porquê da variabilidade do talhão é fundamental para a recomendação da taxa de semeadura de soja e milho. Nesse exemplo, há dois problemas distintos causando a variabilidade da produtividade: compactação e nematoides. E nenhum deles é usualmente utilizado para prescrever população de plantas. Então, aqui nos deparamos com uma incógnita, resolver o problema das manchas anteriormente à recomendação ou basear as taxas de semeadura para contornar a problemática presente? É uma decisão técnica baseada no custo/benefício.

As manchas podem estar relacionadas com características primárias dos locais de cultivos, tais como tipo de solo, percentual de argila (textura), declividade, profundidade do lençol freático etc. Essas, por sua vez, dificilmente podem ser alteradas por práticas de cultivos em curto e médio prazo, sendo necessárias práticas agrícolas adequadas para esses ambientes. A Figura 2 apresenta um exemplo do efeito do teor de argila sobre a produtividade de milho. Nesse exemplo, há uma correlação direta positiva entre teor de argila e produtividade. Sendo assim, é razoável estabelecer populações diferentes de semeadura do milho baseadas no teor de argila. Então, vem o questionamento: onde semear mais e onde semear menos?

Independentemente das causas das manchas, atualmente estão disponíveis ferramentas e conhecimento técnico para o mapeamento, diagnóstico e intervenção para reduzir o efeito da heterogeneidade dos ambientes agrícolas na produtividade das culturas. Além do aumento da produtividade, diversos estudos apontam para redução de insumos, de modo a diminuir os custos da produção, bem como menores impactos no meio ambiente.

Figura 1 - Mapa de produtividade de soja em Chapadão do Céu-GO. Mancha vermelha na região superior do mapa mostra o efeito da compactação do solo por máquinas agrícolas. Manchas vermelhas em formas irregulares na região inferior correspondem à incidência de nematoide (Pratylenchus brachyurus)
Figura 2 - Mapa de produtividade de milho em Chapadão do Céu-GO. Mancha vermelha na região superior da imagem mostra o efeito do menor teor de argila na produtividade da cultura. Variações de 10% a 65% no teor de argila do solo em área de 400ha, influenciando na produtividade entre 55 sc/ha e 155 sc/ha, com média em 108 sc/ha

Figura 3 - CEa como atributo principal na determinação da população da semeadura do milho e o resultado na produtividade

Tendo em vista a necessidade de identificar e mensurar a variabilidade espacial para a recomendação de taxas de semeadura, o primeiro passo é mapear a lavoura para localização e mensuração das manchas. Há diversas opções de tecnologias para o mapeamento de um campo agrícola: mapa de colheita, uso de drone munido com câmeras, sensores de vegetação embarcados em máquinas agrícolas, imagens de satélite, análises química e física de solo georreferenciadas, altimetria e sensores para mensuração de atributos de solo como umidade e condutividade elétrica. Cada uma dessas opções traz uma “camada de conhecimento” da área para basear a recomendação de semeadura, de modo que, para entendimento das causas das manchas em uma lavoura, pode ser necessária mais de uma informação para o correto diagnóstico.

Dentre as várias técnicas existentes para a identificação de manchas, a condutividade elétrica aparente do solo (CEa) tem grande potencial de aplicação. Contudo, mesmo esse mapeamento sendo considerado uma tecnologia de ponta, sua utilização ainda é muito incipiente. A CEa é a capacidade do solo em conduzir corrente elétrica, sendo esse parâmetro utilizado como um indicador de características do solo, como salinidade, textura, umidade, matéria orgânica, CTC, lixiviação, definição de classificação de solos, drenagem e recarga de lençol freático.

Existem no mercado diferentes modelos de sensores que mensuram a CEa para relacionar com as informações da variabilidade espacial dos fatores do solo.

A população de plantas de soja pode variar de acordo com as características do solo, com efeito na economia de sementes. Essa afirmativa foi comprovada, como o trabalho realizado na UFMS – Chapadão do Sul (MS), onde foram estabelecidas três classes de semeadura de soja, com diferentes populações, baseando-se na CEa. A região com maior potencial produtivo (identificada pelos maiores valores de CEa) recebeu a menor população de soja, ou seja, 20% a menos de sementes por hectare. Na colheita dessa soja, a produtividade nesse ambiente de alto potencial foi similar ao tratamento que recebeu a taxa padrão de sementes. Mas atenção, nessa área não havia problemas de manchas de compactação ou nematoides ou mofo branco. Enfim, é importantíssimo o conhecimento prévio das causas da variabilidade local sobre a produtividade da cultura.

A Figura 3 apresenta um exemplo da aplicação da CEa como atributo principal na determinação da população de milho em área comercial de 400ha em Chapadão do Céu (GO). Para a cultura do milho, a recomendação da população é inversa àquela aplicada para a soja. A planta de milho não “compensa” vegetativamente falhas no plantio, como a cultura da soja. O aumento populacional da cultura do milho em regiões de baixo potencial produtivo aumenta a competição entre plantas e causa a diminuição da produtividade. Assim, a região com maior potencial produtivo (identificada pelos maiores valores de CEa) recebem a maior população de milho. A Figura 3 apresenta um resultado da aplicação dessa técnica. Através da variabilidade semelhante entre os tratamentos, não houve diferença estatística para a produtividade nas diferentes classes do teor de argila, a qual está relacionada diretamente com a CEa.

Em suma, compreende-se que campos com maior uniformidade tendem a produzir mais do que aqueles que são heterogêneos, e que o conhecimento da variabilidade espacial em uma lavoura é o princípio para o manejo localizado, propiciando a sustentabilidade do meio. Para tanto, o levantamento de dados e a mensuração da CEa do solo fornecem suporte para uma boa interpretação da variabilidade. Essas tecnologias da AP apresentam perspectivas promissoras na gestão de culturas nos campos agrícolas e, além de possíveis benefícios ambientais, permite reduções de custos de produção, otimiza a utilização de insumos e aumenta a produtividade.

Figura 4 - Mesma produtividade da cultura do milho em diferentes classes do teor de argila


 

 

 

 

 

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