Terminologia

  • Página 49 |
  • Mar 2019 |
  • José Fernando Schlosser, Daniela Herzog, Giácomo Müller Negri, Lucas Simon da Rosa

Um dos assuntos mais polêmicos quando se trata da relação acadêmica com as empresas fabricantes e os usuários de máquinas agrícolas é a forma utilizada para designar máquinas e seus componentes, ou seja, a terminologia utilizada para referenciar estas máquinas. Afora as diferenças regionais, há generalizado consenso entre os profissionais que trabalham em mecanização agrícola, tanto no ensino como na pesquisa. Grande parte deste mérito deve ser dada ao professor Luiz Geraldo Mialhe, que ao longo dos anos e na sua produção bibliográfica nos trouxe grande contribuição. A maioria dos que trabalham nesta área utilizou na sua formação os textos deste emérito professor.

Durante o ano de 2014, o Laboratório de Agrotecnologia do Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas da Universidade Federal de Santa Maria desenvolveu uma compilação de toda a terminologia utilizada em documentos da área e apresentou o trabalho à Associação Brasileira de Engenharia Agrícola (SBEA) durante a reunião temática ocorrida no Congresso Brasileiro de Engenharia Agrícola, em Cuiabá (2011). Com a aceitação da associação, o assunto voltou a ser discutido nos anos seguintes, nas reuniões dos Congressos de Londrina (2012) e Fortaleza (2013).

Segundo a ABNT, máquina agrícola é aquela projetada especificamente para realizar integralmente ou coadjuvar a execução de operações agrícolas

A par do trabalho desenvolvido por diversos pesquisadores, a padronização da terminologia utilizada para designar máquinas e seus componentes nunca se concluiu e permanece a polêmica do uso diverso, de acordo com o setor de atividade. As normas oficiais contribuem pouco, pois embora abordem o tema e sejam públicas, têm o acesso dificultado pelo alto custo de aquisição.

Neste texto precário em aprofundamento, destacaremos apenas os termos mais importantes e polêmicos, com o objetivo de expor ao leitor da Revista Cultivar Máquinas esta tentativa de padronização e consolidação.

Evidentemente que para tornar este texto atrativo, discutiram-se os argumentos para a concordância ou contradição destes termos e, portanto, selecionaram-se os mais importantes e destacados, além de mais polêmicos em suas formas de utilização.

Começaríamos por trazer à discussão a questão tão bem posta por Mialhe, L.G. (1972), que diferencia ferramenta, máquina e implemento. Ferramenta é o implemento em sua forma mais simples, constituindo a parte ativa de outro implemento ou máquina (ferramenta ativa ou órgão ativo) e, como é geralmente designada na prática, apetrechos manuais como a enxada, a foice, o machado etc. A Máquina nesta ótica é um conjunto de mecanismos com movimento relativo entre as partes, ao passo que implemento, mais simples, não possui componentes que giram entre si.

A ABNT define Implemento agrícola (Agricultural implement) como a máquina na sua forma mais simples, cujos órgãos não apresentam movimentos relativos e projetados para realizar ou coadjuvar a execução de operações agrícolas, e Máquina agrícola (Agricultural machine) como a máquina projetada especificamente para realizar integralmente ou coadjuvar a execução de operações agrícolas. Tem como objetivo aumentar a produtividade do trabalho de produção agropecuária. Particularmente nos atrai mais a ótica de Mialhe, que não considera o implemento como máquina. Na área comercial e entre os produtores rurais é comum generalizar o termo máquina para todos os equipamentos utilizados para a produção agrária. A Máquina Agrícola para a ABNT é aquela projetada especificamente para realizar integralmente ou coadjuvar a execução da operação agrícola, e a Ferramenta Agrícola é o Implemento em sua forma mais simples, o qual entra em contato direto com o material trabalhado, acionado por uma fonte de potência qualquer.

Também é interessante analisar os sufixos utilizados nos termos. Em geral, este ponto é o mais conflitante entre a academia e o setor industrial e comercial. A academia, em geral, adota o sufixo “ora” para designar a máquina, enquanto a indústria e o comércio de máquinas adota o sufixo “eira”. Por exemplo, semeadora e semeadeira, plantadora e plantadeira. O sufixo “ora” melhor designa máquina, a nosso ver, e o sufixo “eira” melhor se adapta à pessoa. No uso diário e doméstico se aceita utilizar, por exemplo, lavadora, para uma máquina de lavagem de roupas e lavadeira para uma pessoa que lave roupas.

Entretanto, nas máquinas agrícolas, voltando ao primeiro exemplo, a academia utiliza Semeadora como uma máquina destinada a implantar culturas por meio de sementes, como, por exemplo, milho, soja, arroz; Plantadora, para uma máquina destinada a implantar uma cultura por meio de introdução ao solo de partes vegetativas, como, por exemplo, mandioca, cana-de-açúcar; e Transplantadora, para designar uma máquina destinada à implantação de uma cultura por meio de mudas ou plantas no estado vegetativo jovem, como eucalipto.

Na indústria, principalmente no Rio Grande do Sul, onde está instalada grande parte das empresas fabricantes desta máquina, é comum o uso do termo semeadeira para designar a máquina de semeadura com fluxo contínuo de sementes (grãos finos) e plantadeira para a máquina utilizada para semear grãos maiores como o milho e a soja. Evidentemente que os produtores rurais adotam mais facilmente a terminologia utilizada pela indústria do que a da academia. Neste contexto, um fato curioso, certos professores e pesquisadores da área de mecanização agrícola passam a usar a terminologia da indústria quando se comunicam com este setor e com os produtores.

Na área comercial e entre os produtores rurais é comum generalizar o termo máquina para todos os equipamentos utilizados para a produção agrícola


As normas oficiais em nada auxiliam neste caso. A NR 12 adota indiscriminadamente os sufixos “ora” e “eira” (plantadeira, ceifadeira), e também peca, em determinados casos, por definições fechadas, que não abrange outras alternativas da indústria, por exemplo quando define a Colhedora de algodão (Cotton harvester), a faz da seguinte maneira: Máquina que possui um sistema de fusos giratórios que retiram a fibra do algodão, sem coletar a parte vegetativa da planta, ou seja, caules e folhas. Determinados modelos têm como característica a separação da fibra e do caroço, concomitante à operação de colheita. (NR 12). Mas nem todas as máquinas de colheita de algodão fazem este processo.

Outro ponto de conflito é com respeito ao subsolador e ao escarificador. Em geral, aceita-se que a grande diferença entre estes equipamentos é que o subsolador é destinado aos trabalhos profundos de descompactação, enquanto que o Escarificador (Chiselplow) é um implemento de preparo e conservação do solo, dotado de hastes fixas ou vibratórias, utilizado para romper camadas compactadas a profundidades de até 40cm. Para muitos, não há diferença conceitual entre estes dois equipamentos.

Sem querer gerar perseguição ao trabalho adotado na NR 12, vejam a definição de Pulverizador autopropelido (Self propelledsprayer): Instrumento ou máquina utilizado na agricultura no combate às pragas da lavoura, infestação de plantas daninhas e insetos. Sua maior função é permitir o controle da dosagem na aplicação de defensivos ou fertilizantes sobre determinada área. Qual a prévia diferença entre instrumento e máquina? As pragas são os insetos. E as doenças?

Enfim, o que se consegue concluir é que não há concordância total neste tema e desconhecemos o alcance da sua importância.

Em geral, a academia adota o sufixo ora para designar a máquina, enquanto a indústria e o comércio de máquinas adotam o sufixo eira


Documentos que tratam da padronização de terminologia

São vários os documentos que tratam de padronização de terminologia e que foram analisados nesta compilação, principalmente as Normas ABNT: NBR 66:1998 – Agregados – Constituintes mineralógicos dos agregados naturais – Terminologia; NBR-9741- cancelada em 2010; NBR 12541:1992 - Aplicação de defensivos agrícolas - Terminologia; NBR 12548:1992 - Métodos de aplicação de defensivos agrícolas – Terminologia; NBR 12936:1993 - Pulverizador agrícola – Terminologia; NBR 12937:1993 - Máquinas e implementos aplicadores de defensivos agrícolas – Terminologia; NBR ISO 11450:2016 - Equipamentos para colheita e conservação - Enfardadoras cilíndricas - Terminologia e especificações comerciais e NBR ISO 14269-1:2017 - Tratores e máquinas agrícolas e florestais autopropelidas — Ambiente do compartimento do operador - Parte 1: Vocabulário; Documentos da American Society of Agricultural and Biological Engineers (Asabe) e Normas Regulamentadoras do Ministério do Trabalho e Emprego (NR 12 e NR 31). No entanto, ainda que as normas sejam bem elaboradas e prevejam terminologia diferente, nada impede que o setor industrial e comercial utilize termos que facilitem a comunicação.


Matérias da Edição:
  1. Página 10

    MF9330

  2. Página 16

    Pressão líquida

  3. Página 20

    Zelo na colheita

  4. Página 24

    Teste de velocidade

  5. Página 42

    Solos manchados

  6. Página 46

    Choque orgânico

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