Teste de velocidade

  • Página 24 |
  • Mar 2019 |
  • Leandro Rampim, Paulo José Alba, Jhonatan Spliethoff, Roberto de França, Vitor Hugo Outeiro

Para obter bons resultados na produtividade das culturas de milho e soja, é importante se ter cuidado com o manejo da semeadura, pois a variação de distância entre as plantas e a profundidade de semeadura estão entre as causas que reduzem a produtividade destas culturas. O aumento da produtividade devido ao manejo de densidade populacional e a uniformidade de distribuição estão relacionados com o adequado aproveitamento da área foliar das culturas para interceptação da radiação solar, definindo a adequada população de plantas para cada cultura, assim como para os diferentes híbridos de milho e cultivares de soja.

Pelo fato de que a janela de semeadura pode ser reduzida nas áreas de cultivo de milho e soja, principalmente para aproveitar o pico de produtividade referente ao zoneamento agroclimático, o desempenho operacional das semeadoras deve ser aproveitado ao máximo. De forma que tal estratégia é fundamental para se aproveitar o potencial dos híbridos e das cultivares implantadas e a melhor condição de clima para as plantas, com menor custo, dispensando aquisição de número exagerado de máquinas.

Para conseguir aumentar o desempenho das semeadoras, a alternativa mais utilizada é aumentar a velocidade de semeadura, contudo, com isso pode-se prejudicar a qualidade de semeadura (plantabilidade) da cultura da soja (Bertelli et al, 2016). Sabe-se que outra possibilidade é ter mais máquinas, todavia, tem-se direcionado o foco para o aumento da largura das novas semeadoras comercializadas e adquiridas pelos produtores, pois os produtores buscam uso de menor número de tratores e menor número de operadores. Não obstante, tem-se adquirido tratores de elevada potência para possibilitar deslocamento em elevada velocidade, possibilitando alcançar elevado rendimento operacional, tanto por largura das máquinas quanto devido à elevada velocidade de semeadura, o que pode causar menor qualidade de semeadura e consequentemente menor produtividade.

 QUALIDADE DE SEMEADURA

A qualidade da semeadura é função, entre outros fatores, do tipo de máquina semeadora, da velocidade de operação, da regulagem do disco de corte e da profundidade de semeadura. Delafosse, já em 1986, tratava a velocidade de semeadura como um dos aspectos que mais influenciam o desempenho de maquinários, sendo que para semeadoras, a distribuição longitudinal de sementes no sulco de semeadura é afetada pela velocidade, que, por fim, influencia na produtividade da cultura. Sendo assim, é necessária velocidade de semeadura adequada para se ter adequado estande de plantas.

Quando se fala em espaçamentos, normalmente os utilizados são os aceitáveis, falhos e múltiplos. Segundo a ABNT (1994), tem como definição distância entre sementes o espaçamento entre sementes em uma mesma linha de semeadura, medidas com uma referência de um centro geográfico de sementes consecutivas. A distância referência (Xref) é a distância entre sementes definida segundo a recomendação agronômica da densidade populacional; aceitável é a distância entre sementes que varia de 0,5 a 1,5x Xref; múltiplos é a ocorrência de distância entre sementes menores que 0,5x Xref e falhos é quando a distância entre sementes é maior que 1,5x Xref (Reis e Forcellini, 2009).

 ENSAIOS DE CAMPO

Para conhecer a qualidade de semeadura de máquinas atuais, foram montados ensaios para as culturas de milho e soja, testando diferentes velocidades de semeadura. Os ensaios de campo foram realizados na Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária - Fapa, no distrito de Entre Rios, no município de Guarapuava (PR).

Figura 1 - Coeficiente de Variação do Espaçamento, Percentagem de Espaçamentos Aceitáveis e Profundidade de semeadura em diferentes velocidades de semeadura da cultura do milho, utilizando diferentes semeadoras de precisão novas, reguladas pelos técnicos da própria marca, conforme regulagens do fabricante em comparação com os dados médios gerais, Guarapuava/PR, safra 2017/2018
Figura 1 - Coeficiente de Variação do Espaçamento, Percentagem de Espaçamentos Aceitáveis e Profundidade de semeadura em diferentes velocidades de semeadura da cultura do milho, utilizando diferentes semeadoras de precisão novas, reguladas pelos técnicos da própria marca, conforme regulagens do fabricante em comparação com os dados médios gerais, Guarapuava/PR, safra 2017/2018

Na safra 2017/2018 foram realizados ensaios para semeadura de milho e soja utilizando várias semeadoras modernas, com regulagens realizadas pela equipe técnica de revendedores de cada marca (conforme regulagens do fabricante). Foram testadas semeadoras das marcas Case, Horch, John Deere (dois tipos de dosadores verticais), Massey Ferguson, New Holland, Planti Center, Semeato (dois tipos de dosadores horizontais) e Stara. O objetivo deste artigo é mostrar a diferença na distribuição e no desempenho das semeadoras, trabalhando em diferentes tipos de solos, coberturas e velocidades. Portanto, não serão apontados modelos ou marcas nos resultados. Apenas trataremos as máquinas utilizadas no experimento como letras de A a G. Isso evita que comparativos equivocados de desempenho sejam feitos, pois as máquinas trabalharam em condições distintas de cobertura, por exemplo, no plantio de soja, o que gerou um desempenho diferente entre máquinas que trabalharam em condições de palhada mais densa e palhada mais branda, por exemplo.

E também é importante comentar que as máquinas/marcas testadas para milho não são exatamente as mesmas avaliadas para soja. Algumas destas marcas disponibilizaram semeadoras para semeadura de milho e outras para semeadura de soja. Nas semeadoras testadas, havia máquinas com sistema dosador horizontal (horizontal comum ou horizontal com rampa) e outras com dosador vertical (pneumático). Foram testadas diferentes velocidades de semeadura para cada semeadora, com velocidade máxima menor para milho e maior para a cultura de soja, que, de forma geral, permite maior velocidade de semeadura, devido ao maior número de plantas.

Para o ensaio foi utilizado o mesmo lote de sementes para milho e outro lote de sementes para soja. Após a realização da semeadura, foi aguardada a emergência total das plantas de milho e soja. Na sequência, foi avaliado o coeficiente de variação do espaçamento entre plantas, percentagem de espaçamentos aceitáveis e profundidade de semeadura em diferentes velocidades de semeadura tanto para a cultura do milho quanto para a cultura da soja.

Na Tabela 1 consta os resultados do ensaio da semeadura de milho realizado com semeadoras de precisão novas e modernas, reguladas pelos técnicos da própria marca, conforme regulagens do fabricante. Enquanto na Tabela 2 consta os resultados do ensaio da semeadura de soja realizado com semeadoras de precisão novas e modernas, também reguladas pelos técnicos da própria marca, conforme regulagens do fabricante.

O coeficiente de variação ou variabilidade do espaçamento entre plantas demonstra que a elevação da velocidade de semeadura, na maioria das semeadoras testadas, interfere negativamente na acomodação das sementes no sulco de semeadura, tanto para milho quanto para soja (Tabelas 1 e 2). Tal resultado pode ser visualizado ao se observar a percentagem de espaçamentos aceitáveis, prejudicado com o foco em aumento do rendimento operacional (Figuras 1 e 2).

Na cultura de milho, as semeadoras C, E e F reduziram os espaçamentos aceitáveis ao elevar a velocidade, acarretando em aumento da variação de espaçamentos para as semeadoras C e F. Nas semeadoras em que a regulagem de profundidade foi mais profunda, a elevação da velocidade reduziu a profundidade de semeadura, como ocorreu nas semeadoras B e F. Por outro lado, as semeadoras A, B e D apresentaram resultados satisfatórios, sem ocorrer interferência nos espaçamentos aceitáveis, evidenciando resultados interessantes para tais semeadoras. Se destacam as semeadoras B e D, que mesmo ao semear em velocidade de 8km/h, apresentaram adequada qualidade de semeadura (Figura 1).

Na cultura de soja, as semeadoras A, B, D, E, F e G apresentam redução dos espaçamentos aceitáveis com a elevação da velocidade de semeadura, sendo que as semeadoras A e D também reduziram a profundidade de semeadura com a elevação da velocidade. No ensaio de soja, a semeadora C se destacou, pois, mesmo com a velocidade de semeadura atingindo 13,5km/h, apresentou praticamente os mesmos resultados detectados nas velocidades mais baixas (Figura 2).

Vale a pena ressaltar, que o tipo de solo e as condições de umidade também podem interferir na qualidade de semeadura. Por conta disto, faz-se necessário selecionar uma semeadora ideal baseado na condição de cada local, mas o uso de forma equivocada pode prejudicar o desempenho da mesma, e não realizando as regulagens para cada solo e condição de campo pode prejudicar a eficiência operacional.


No que diz respeito à velocidade de semeadura, já na década de 2000, mesmo máquinas com menor tecnologia, Mahl et al (2004) verificaram que a melhor distribuição das sementes de milho foi com menores velocidades de deslocamento (4,4km/h e 6,1km/h). Quando se teve o aumento da velocidade para 8,1km/h, os espaçamentos múltiplos e falhos foram maiores, diminuindo a precisão do sistema. Dias et al (2009) ressaltaram que o aumento da velocidade de deslocamento da semeadora interfere na velocidade tangencial do sistema distribuidor. Carpes et al (2013) observaram que o aumento da velocidade da semeadora, de 5km/h para 10km/h, eleva a retirada de solo do sulco de semeadura, podendo aumentar o espaçamento entre plantas no sentido longitudinal.

Figura 2 - Coeficiente de Variação do Espaçamento, Percentagem de Espaçamentos Aceitáveis e Profundidade de semeadura em diferentes velocidades de semeadura da cultura da soja, utilizando diferentes semeadoras de precisão novas, reguladas pelos técnicos da própria marca, conforme regulagens do fabricante em comparação com os dados médios gerais, Guarapuava/PR, safra 2017/2018


A redução de espaçamentos aceitáveis com aumento da velocidade causa desuniformidade de plantas da cultura de milho, podendo prejudicar o desempenho individual, já que podem ter plantas próximas umas da outras, reduzindo a produtividade individual e consequentemente a produtividade da área.

A variabilidade de espaçamentos entre plantas pode causar redução na produtividade de culturas agrícolas. Sendo assim, para que sejam obtidas diferentes densidades de semeadura e, por conseguinte, populações de plantas, são necessárias variações na regulagem da semeadora, o que pode interferir na qualidade da dosagem de sementes, expressando na distribuição de espaçamentos aceitáveis, múltiplos e falhos.

Nos ensaios é importante enfatizar que cada semeadora apresentou regulagens diferentes, as quais foram realizadas pela equipe técnica da marca, fato que é possível constatar com as diferenças de profundidade de semeadura entre as semeadoras, tanto para milho quanto para soja. Segundo Santos (2001), a profundidade ideal de semeadura da soja é entre 3cm e 5cm. O aumento da velocidade de semeadura pode acarretar em retirada de solo do sulco de semeadura (lançar solo distante do sulco), repercutindo em menor profundidade de semeadura. Tal situação demonstra a ocorrência de maior irregularidade na profundidade de semeadura ao elevar a velocidade de semeadura, podendo prejudicar a germinação e repercutindo em emergência desuniforme, o que pode ser agravado em situação de menor disponibilidade hídrica após a operação de semeadura. Para a regulagem de profundidade de semeadura, deve-se atentar para o correto ajuste conforme a profundidade almejada, fazendo a avaliação no campo na velocidade que se pretende utilizar. Deve-se ressaltar que o aumento da velocidade expõe mais solo, fator indesejável quando se almeja sustentabilidade do sistema plantio direto e menores riscos de erosão do solo.

Trabalhos mostram que a produtividade final de uma cultura é afetada diretamente pela velocidade de semeadura, pois este fator está diretamente ligado a como as sementes estão distribuídas na linha. Segundo Madaloz (2014), a velocidade excessiva na semeadura acarreta desuniformidade na profundidade das sementes no solo, aumentando a frequência de falhas e plantas duplas, consequentemente aumenta a competição intraespecífica e o desenvolvimento irregular.

Os resultados obtidos nos ensaios de milho e soja, mesmo com uso de máquinas modernas, enfatizam a importância de utilizar velocidade moderada durante a semeadura. Na década de 2000, que apresentava máquinas menos evoluídas, ensaios também evidenciavam que o aumento da capacidade operacional ocasionada pelo uso de velocidades de trabalho mais elevadas comprometia a qualidade da semeadura (Canova et al, 2007). Lacerda (2015) enfatiza a recomendação da Embrapa quanto à velocidade de semeadura da soja, que fique em torno de 4km/h a 6km/h, sendo que valores superiores afetam a distribuição das sementes. Observação se faz para a região Norte do Mato Grosso, na qual a maioria dos produtores tem suas operações de semeadura sendo executadas em torno de 9km/h. A distribuição adequada de plantas está ligada à regulagem das semeadoras, o que interfere diretamente em espaçamentos aceitáveis, múltiplos e falhos da cultura (Dias et al, 2009), que podem ser prejudicados com o aumento da velocidade de semeadura.

Para se obter a densidade de semeadura com determinada população de plantas, são necessárias algumas variações na regulagem da semeadora


No quesito distância entre a semente e o adubo, pode-se dizer que a proximidade entre eles compromete a emergência das plântulas, devido ao efeito salino que o adubo pode exercer na linha de semeadura, por isso o correto é que o fertilizante seja adicionado cinco centímetros ao lado e abaixo da semente (Madaloz, 2014).

É fato que, para obter densidade de semeadura, com determinada população de plantas, são necessárias algumas variações na regulagem da semeadora, podendo assim interferir diretamente na dosagem de sementes, expressa na distribuição de espaçamentos, alterando a qualidade da semeadura. Conhecendo estas especificidades, evidencia-se necessidade constante de monitorar a qualidade de semeadura, principalmente ao alterar o número de sementes por metro.

Segundo Bortolotto (2014), a plantabilidade (qualidade de semeadura) é uma variável fundamental para o potencial produtivo de uma lavoura, sendo constituída por um bom estande de plantas seguindo as recomendações de populações para cada espécie. Além do mais, boa regulagem de semeadora, junto com sementes de qualidade, proporciona boa plantabilidade.

A forma em que as plantas estão distribuídas na linha de semeadura pode acarretar na queda de produtividade da cultura. As plantas que estão mal distribuídas implicam baixo aproveitamento de recursos disponíveis como água, luz e nutrientes. No caso da cultura da soja, quando as plantas se encontram mais concentradas em certos pontos, pode acarretar plantas mais altas, menos ramificadas, com um diâmetro de colmo reduzido, sendo mais propensas ao acamamento, resultando em menor produção individual. Além disto, os espaços vazios deixados na linha de semeadura podem acarretar o desenvolvimento de plantas daninhas, e as plantas de soja ficam com tamanho menor que as outras. De fato, modificações relacionadas com a população de plantas podem aumentar ou reduzir a produtividade, pois essa característica é consequência da densidade das plantas nas linhas e também do espaçamento entre as linhas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tão importante quanto ter semeadoras modernas, independentemente de marca selecionada, são a regulagem adequada da semeadora quanto à profundidade de semeadura (efetuada na velocidade que será realizada a semeadura); a regulagem adequada do número de sementes (baseado na população ideal para cada híbrido/cultivar e germinação/vigor das sementes); e a condição de umidade do solo, tipo de solo e condição climática após a semeadura (fator fundamental para obter resultado satisfatório na semeadura), ficando atento às previsões meteorológicas.

De forma geral, os avanços das tecnologias presentes nas semeadoras modernas podem proporcionar melhor qualidade de semeadura. Isto é notável, tanto que os produtores rurais têm percebido tais evoluções ao longo dos anos e, mesmo aqueles que fazem revisões corretas em suas máquinas, fazem a troca de suas máquinas usadas em perfeito estado de conservação por máquinas modernas para continuar aprimorando a implantação das culturas no processo de semeadura.

Com o aumento da velocidade, tem-se menor eficiência dos sistemas dosadores de sementes e interferência na abertura do sulco de semeadura, podendo prejudicar a acomodação das sementes.

Baseado no ensaio realizado, também é possível constatar que o espaçamento aceitável para algumas semeadoras se mantém mais uniforme, mesmo com o aumento da velocidade, evidenciando que avanços têm ocorrido nos projetos de novos produtores. Isto mostra que o produtor tem vantagens ao substituir máquinas antigas por máquinas modernas que possam garantir desempenho satisfatório mesmo com velocidade acima do ideal. Neste aspecto, é necessário fazer ressalva que, conforme se aumenta a velocidade de semeadura, é necessário que outros fatores sejam favoráveis, como umidade adequada no pós-semeadura para iniciar germinação e ter eficiência na emergência uniforme; regulagem adequada em condições de elevado volume de resíduos vegetais; evitar a semeadura em umidade inadequada no solo, além de ausência de problemas de compactação do solo, que reflete em mais sementes expostas ao elevar velocidade de semeadura.


É possível perceber a demanda por novas e constantes pesquisas para acompanhar os avanços tecnológicos das novas semeadoras, com a finalidade de suprir necessidade de elevar rendimento operacional da implantação da cultura. Estes trabalhos também possibilitam otimizar as máquinas no momento de semeadura, tanto para alcançar alta produtividade quanto para disponibilizar área de cultivo para implantação de outras culturas, ampliando o número de cultivos durante os 12 meses do ano ou, até mesmo, facilitar o cultivo de adubos verdes em momentos que ainda ocorra umidade do solo.

 

Matérias da Edição:
  1. Página 10

    MF9330

  2. Página 16

    Pressão líquida

  3. Página 20

    Zelo na colheita

  4. Página 42

    Solos manchados

  5. Página 46

    Choque orgânico

  6. Página 49

    Terminologia

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