Vassoura daninha

  • Página 20 |
  • Out 2019 |
  • André Barbacovi, Mateus Gustavo de Oliveira, Caicer Viebrantz, Willian Brandelero, Elias Abel Barboza, Leonita Beatriz Girardi, Ilvandro Barreto de Melo, Katia Trevizan, Lorena Postal Waihrich, Alice Casassola, Faculdade Ideau (Instituto de Desenv.

A interferência das plantas daninhas na cultura é maior nos estádios iniciais de desenvolvimento da cultura, denominado período crítico de competição, o qual pode variar em função das condições de ambiente, da população e das características das espécies em competição. Além disso, a infestação é influenciada pelas características da espécie como adaptabilidade ecológica e prolificidade, longevidade e dormência das sementes e dos propágulos e da frequência na utilização de herbicidas de mecanismo de ação único.

O controle de plantas daninhas evoluiu da capina manual para o uso de produtos químicos herbicidas. Esse controle consiste na adoção de práticas que resultam na redução da infestação, mas não necessariamente na sua completa eliminação ou erradicação, sendo que deve apresentar relação de custo-benefício, ou seja, de modo que não interfiram no rendimento econômico da cultura. O primeiro produto químico utilizado com propriedade herbicida para controle de plantas daninhas (dicotiledôneas) foi o 2,4-D, em 1945. Depois da Segunda Guerra Mundial ocorreu um rápido desenvolvimento de novas moléculas herbicidas, que passaram a ser excessivamente utilizadas no manejo de plantas daninhas. O uso intensivo desses produtos - aliado à má aplicação, como dosagem baixa, em momento inadequado, e a pulverizador mal regulado - pode acarretar em seleção de plantas daninhas com resistência às moléculas de herbicidas, contaminação de lençóis freáticos e solos. O pouco entendimento a respeito da biologia e ecologia de plantas daninhas pode levar ao uso inadequado de herbicidas.

A vassourinha-de-botão (Borreria verticillata (L.) G. Mey), também conhecida como cordão-de-frade, erva-botão, falsa-poaia, perpétua-do-mato, poaia-comprida, poaia-preta, poaia-rosário, vassourinha, vassoura-de-botão, é uma espécie herbácea perene que se desenvolve em todas as regiões do País, vegetando em áreas antropizadas, ou seja, naquelas cujas características originais foram alteradas como solo, vegetação e relevo. Sendo assim, o objetivo deste trabalho foi identificar as perdas em produtividade da soja em decorrência da presença de populações crescentes de Borreria verticillata por metro quadrado.

Experimento

O experimento foi implantado no dia 4 de novembro de 2018, no município de Itapuca, Rio Grande do Sul, onde foi utilizado um trator, modelo 6300, com 100cv, e uma semeadeira SHM 1517 da Semeato, composta por sete linhas com um espaçamento de 45cm. Foi utilizada a variedade TMG7262, uma adubação na linha com uma formulação de 4-30-10 e uma dosagem de 300kg/ha e 100kg/ha de cloreto de potássio em cobertura.

 O delineamento experimental utilizado foi delineamento de blocos ao acaso (DBA), com cinco tratamentos: TE (testemunha) sem plantas daninhas, T2 duas plantas daninhas (PD) por m², T4 quatro PD por m², T6 seis PD por m², e T8 oito PD por m², com quatro repetições, totalizando 20 unidades experimentais, como uma área de 9m² cada uma, totalizando 180m². Durante o ciclo de desenvolvimento da cultura, realizaram-se os mesmos tratos culturais do restante da área comercial (aplicações de herbicidas, fungicidas, inseticidas e adubos foliares).

Após a senescência natural das plantas, foram coletados dois metros lineares de cada unidade experimental (UE) - população de 12 plantas por metro linear –, levados ao laboratório e realizadas as seguintes avaliações: peso de mil sementes (PMS), altura média de plantas, número de entrenós e produtividade. A avaliação de altura média de planta foi realizada com auxílio de uma trena, onde se realizou a média de cinco plantas por parcela. Os entrenós foram contabilizados em cinco plantas por parcela e, posteriormente, realizada a média. Para o peso de mil sementes (PMS) foram contabilizadas mil sementes, as quais foram pesadas em balança de precisão, e a avaliação de produtividade se conseguiu através da coleta de plantas em um total de 1m2 aleatório por parcela (Figura 1). Após a coleta, os dados foram submetidos à análise de regressão, pois se trata de tratamentos quantitativos.

Para o peso de mil sementes - PMS (Figura 2) pode-se observar que a testemunha (TE) apresentou o maior valor, 205g, pois não apresentava interferência de plantas daninhas na área da UE. A incidência de plantas daninhas na área interferiu efetivamente no PMS, pois quanto maior a presença de plantas daninhas, menor foi o PMS. T2 apresentou PMS de 200g; T4, 197,5g; T6, 195g, e T8, 192,5g.

Para a variável altura de plantas (Figura 3), a testemunha (TE) alcançou a maior média de 0,86m. Os demais tratamentos apresentaram resultados decrescentes com o aumento da população de plantas daninhas/m², sendo respectivamente T2 0,83m, T4 0,82m, T6 0,80m e T8 0,78m. Sabe-se que a interferência observada reflete o nível de competição por nutrientes, água e/ou luminosidade das plantas daninhas com a cultura.

Em relação ao número de entrenós (Figura 4), observou-se que no tratamento em que não havia presença de plantas daninhas (TE) obteve-se um maior número de entrenós, 15,5 entrenós por planta. Na cultura de soja, os legumes se desenvolvem nos entrenós, sendo assim, por regra geral, quanto mais entrenós, maior probabilidade de expressão de legumes. T2 apresentou 15 entrenós por planta, seguidos por T4 com 14 entrenós por planta, e T6 e T8 com médias iguais de 13,5 entrenós por planta.

A produtividade (Figura 5) confirmou os resultados observados, ou seja, a influência do número de plantas daninhas no desenvolvimento da cultura da soja. O peso médio dos grãos da parcela testemunha foi 404g/m². T2 apresentou média de 397g; T4, 384g; T6, 379g, e T8, 370g/m². Entre a TE e o T8 houve uma diferença de 35g, que para uma lavoura comercial, pode definir seu sucesso ou fracasso.

Experimento no Rio Grande do Sul avaliou perdas de produtividade da soja pela presença da vassourinha-de-botão
Experimento no Rio Grande do Sul avaliou perdas de produtividade da soja pela presença da vassourinha-de-botão.

As plantas daninhas no presente trabalho acompanharam todo o ciclo de desenvolvimento da cultura da soja, desde a semeadura até a colheita. Competiram com a cultura de interesse durante todo o ciclo por água, luminosidade e nutrientes. Entretanto, sabe-se que a maior interferência ocorre durante o período crítico de prevenção à interferência (PCPI), pois é nele que a cultura de interesse faz a diferenciação dos primórdios florais, afetando de forma direta e indireta as variáveis analisadas. Em soja, esse período é variável dependendo da cultivar analisada. Considerando uma tolerância de redução de 5% na produtividade em M-SOY 6101, por exemplo, o intervalo de 33 dias e 66 dias após a emergência foi caracterizado como período crítico de prevenção da interferência, ou seja, período em que a cultura deveria ser mantida na ausência de plantas daninhas.

Para todas as variáveis, o tratamento sem a presença de plantas daninhas foi o que apresentou melhores resultados. Com o aumento do número de plantas daninhas, os valores de todas as variáveis analisadas decaíram (PMS, altura de planta, número de entrenós e produtividade), comprovando a interferência de Borreria verticillata na cultura da soja e a importância do manejo dessas plantas para o sucesso da lavoura.

Figura 1 - Método de avaliação e coleta por metro quadrado
Figura 1 - Método de avaliação e coleta por metro quadrado.


Figura 2 - Representação da média do peso de mil sementes (PMS) dos tratamentos sem (TE) e com incidência de plantas daninhas por m² (2, 4, 6 e 8)
Figura 2 - Representação da média do peso de mil sementes (PMS) dos tratamentos sem (TE) e com incidência de plantas daninhas por m² (2, 4, 6 e 8).
Figura 3 - Representação das alturas médias de cada tratamento sem (TE) e com incidência de plantas daninhas por m² (2, 4, 6 e 8)
Figura 3 - Representação das alturas médias de cada tratamento sem (TE) e com incidência de plantas daninhas por m² (2, 4, 6 e 8).
Figura 4 - Médias de entre-nós das plantas de cada tratamento sem (TE) e com incidência de plantas daninhas por m² (2, 4, 6 e 8)
Figura 4 - Médias de entre-nós das plantas de cada tratamento sem (TE) e com incidência de plantas daninhas por m² (2, 4, 6 e 8).
Figura 5 - Médias de produtividade em gramas de grãos de cada tratamento sem (TE) e com incidência de plantas daninhas por m² (2, 4, 6 e 8)
Figura 5 - Médias de produtividade em gramas de grãos de cada tratamento sem (TE) e com incidência de plantas daninhas por m² (2, 4, 6 e 8).

André Barbacovi, Mateus Gustavo de Oliveira, Caicer Viebrantz, Willian Brandelero, Elias Abel Barboza, Leonita Beatriz Girardi, Ilvandro Barreto de Melo, Katia Trevizan, Lorena Postal Waihrich, Alice Casassola, Faculdade Ideau (Instituto de Desenv. Educacional de Passo Fundo)

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