Zelo na colheita

  • Página 20 |
  • Mar 2019 |
  • Lucas Augusto da Silva Gírio; Patricia Candia de Menezes; Franciele Morlin Carneiro; Adão Felipe dos Santos; Rouverson Pereira da Silva

Um dos maiores desafios de quem produz cana-de-açúcar no Brasil está relacionado aos custos de produção. Segundo dados do Pecege, o custo médio de implantação de um canavial na região Centro-Sul, na safra de 2017/18, foi de R$ 7.282,04. Levando-se em consideração todas as etapas na formação de um canavial, quase metade do investimento se refere aos insumos, sendo boa parte deles cotados em dólar. Com a valorização da moeda estrangeira frente ao real, tem sido cada vez mais necessários o uso racional de recursos e a eficiência nas operações agrícolas para viabilizar a produção.

A longevidade dos canaviais é uma maneira eficaz de diluir os elevados custos iniciais na formação da lavoura. Quanto maior o número de cortes tolerado por um canavial, com boa produtividade, menor será a necessidade de sua renovação e assim aquele custo inicial passa a ser diluído, corte a corte.

Entretanto, com a expansão da mecanização a partir do fim da queima da cana, temos visto o aumento de falhas e perda de vigor dos canaviais e a redução do número de cortes tolerados pelas soqueiras, acarretando em quedas de produtividade e elevação de custos.

Diante do cenário recente, o setor produtivo e de pesquisa tem unido forças para reverter as dificuldades encontradas, sendo possível levantar alguns cuidados necessários para quem produz, como veremos a seguir.

 CUIDADOS RELACIONADOS À PLANTA e VARIEDADES ADAPTADAS

Um canavial de qualidade se inicia na escolha adequada das variedades. O Brasil tem o privilégio de ter programas de melhoramento genético de excelência, com uma gama enorme de variedades que podem ser escolhidas de acordo com a necessidade e condições disponíveis para cada produtor. Com a mudança do cenário, para plantio e colheita mecanizados, foram desenvolvidas variedades com elevada performance nestas condições e com características desejáveis, como porte ereto, alta produtividade, gemas menos proeminentes, elevada brotação etc.

PORTE E SENTIDO DE TOMBAMENTO

O conhecimento do porte do canavial é essencial, pois influi no desempenho das colhedoras e, por exemplo, na velocidade operacional da máquina. Por isso, é importante caracterizá-lo antes da operação de colheita. Uma maneira prática e rápida de caracterizar o canavial é a metodologia do triângulo-padrão criado por Ripoli (1996), que diz respeito à posição relativa dos colmos em relação ao solo, podendo ser classificados em ereto, acamado e deitado.

Estudos recentes têm mostrado que associado ao porte, o sentido em que os colmos do canavial estão tombados em relação ao deslocamento da colhedora pode influenciar na qualidade da colheita, principalmente no recolhimento dos colmos decepados e abalos às soqueiras. O sentido de tombamento é classificado, segundo Gírio (2018) em: neutro, contra ou a favor ao sentido de deslocamento da máquina.

 UMIDADE DA PALHA

A colheita mecanizada da cana ocorre 24 horas por dia durante a safra, com isso, alguns cuidados devem ser tomados. Para as colheitas noturnas, são recorrentes recomendações de cuidados no que diz respeito à visibilidade, porém, dependendo das condições ambientais, a umidade da palha pode ser um fator que merece atenção. Quando a umidade do ar é elevada, a palha úmida tende a apresentar maior resistência ao corte e o embuchamento passa a ser mais frequente, reduzindo a eficiência operacional da colhedora devido às constantes paradas.

CUIDADOS RELACIONADOS À MÁQUINA e PISOTEIO DE SOQUEIRAS

O crescente aumento do uso de máquinas agrícolas no processo produtivo da cana, possivelmente foi um dos fatores que mais contribuíram para as quedas de produtividades dos canaviais em um primeiro momento. Se antes a colheita era realizada manualmente, com poucas máquinas circulando nos talhões, hoje o tráfego é intenso. O tráfego de máquinas pesadas, principalmente colhedoras, além de compactar o solo e dificultar o desenvolvimento da cultura, pode causar danos e abalos às soqueiras quando feito de maneira desordenada.

No que diz respeito a pisoteio de soqueiras, é interessante entender o conceito de afastamento de segurança entre máquina e cultura. O conceito corresponde ao afastamento lateral, em ambos os lados da fileira da cultura, no qual o rodado das máquinas não prejudica a cultura, tanto na parte aérea quanto no sistema radicular. Levando-se em conta a largura dos rodados e a largura da cultura ao perfilhar, a distância de segurança entre a lateral do rodado e a cultura, segundo Belardo (2016), é de no mínimo 15cm.

Representação do triângulo-padrão de Ripoli (1996), para classificação do porte de canaviais
Classificação de Gírio (2018) do sentido de tombamento dos colmos do canavial em relação ao sentido de deslocamento da colhedora


Com a possibilidade de colher duas fileiras ou mais de cana, é possível adotar um novo conceito, chamado de canteirização, em que o pisoteio pode ser reduzido ao criar áreas de tráfego para todo maquinário, desde a implantação da cultura até a colheita.

A limitação de se colher duas ou mais linhas simultâneas é o relevo. Caso o relevo seja acidentado ou o microrrelevo não esteja adequadamente nivelado, como, por exemplo, após a operação chama de “quebra-lombo”, é possível que ocorram duas situações: haja excesso de tocos altos e/ou arranquio de soqueira.

Quando a umidade do ar é elevada, a palha úmida tende a apresentar maior resistência ao corte e o embuchamento passa a ser mais frequente, reduzindo a eficiência operacional da colhedora devido às constantes paradas

Possivelmente, a melhor solução para evitar pisoteio de soqueiras seja o uso do direcionamento automático com correção de sinal via RTK, que permite trafegar com erros entre 2cm e 5cm, apenas. Quando a implantação de um canavial é feita utilizando o piloto automático, o paralelismo entre linhas é quase uniforme, facilitando as operações subsequentes quando comparado ao não uso desta tecnologia. Uma das operações mais favorecidas com o uso do piloto é a colheita, pois apresenta visibilidade baixa devido às características da planta, que se torna ainda mais limitante no período noturno.

Desgaste de uma faca após oito horas de uso em relação a uma faca nova e monitoramento do desgaste das facas de corte do mecanismo de corte basal


ALTURA DE CORTE

Na maioria das unidades produtoras, recomenda-se uma altura de corte basal dos colmos entre 45mm e 55mm em relação ao nível do solo, e a aferição pode ser feita no campo, com uma régua graduada, logo após a passagem da colhedora.

O corte não deve ser muito mais elevado que os 55mm, pois a maturação dos colmos se inicia da base para as pontas, ou seja, quanto maior a altura de corte, maior será a perda de material rico em sacarose. Por outro lado, se o for muito próximo ao solo, por vezes chegando a tocá-lo, há um aumento de impureza mineral que será levada para a indústria, bem como arranquio de soqueiras, redução da longevidade do canavial e desgaste excessivo de facas.

É comum encontrar colhedoras com mecanismos de corte de base flutuantes que acompanham o microrrelevo do solo e facilitam o controle deste fator pelo operador, mas nem sempre esse mecanismo está calibrado ou funcionando adequadamente, ficando a critério do operador decidir o impasse de levar mais matéria-prima rica em sacarose e impurezas, baixando a altura de corte, ou deixar matéria-prima no campo, mas levar menos impureza mineral para a indústria, elevando a altura de corte.

DESGASTE DE FACAS

As facas de corte são os componentes que efetivamente vão cortar a cana por impacto. Quanto mais afiado for o fio de corte, melhor será a qualidade da colheita e menor serão os danos e abalos causados às soqueiras. Uma soqueira muito danificada tem facilitada a entrada de patógenos e pragas, o que reduz a longevidade do canavial.

Representação do afastamento de segurança de 72,5 cm e 32,5 cm em uma colhedora convencional, com bitola de 1,90 m e espaçamento da cultura de 1,50 m.

Além disso, como o corte é realizado por impacto, facas pouco afiadas, combinadas a alturas de corte elevadas, tendem a causar maior abalo às soqueiras, devido ao maior braço de momento formado, proporcionando um efeito “alavanca” nas soqueiras.

Por isso, deve-se monitorar constantemente estes componentes e trocá-los sempre que necessário. A principal causa de desgaste das facas é o solo. Solos mais abrasivos, como os arenosos, exigem uma maior frequência de inversão das faces da faca. Enquanto em um solo argiloso a frequência de inversão das facas se dá em torno de a cada oito horas trabalhadas, em solos arenosos a frequência de inversão aumenta, e o intervalo entre as trocas cai para praticamente metade do tempo.

A verificação do desgaste pode ser feita visualmente ou de forma mais precisa, aferindo-se a perda de massa e o desgaste do fio de corte com um paquímetro. À medida que a lâmina perde o corte, tende a ficar mais espessa.

Como pode ser observado, o aumento da mecanização trouxe um novo cenário para a canavicultura. Para que se atinjam elevados patamares de produtividade, longevidade dos canaviais e lucro, o produtor de hoje deve ser cada vez mais técnico, buscando informações e adquirindo novas tecnologias. Cuidados como os evidenciados no texto são essenciais para garantir a competitividade frente aos desafios surgentes.

  

Com a possibilidade de colher duas fileiras ou mais, é possível adotar a canteirização, em que o pisoteio pode ser reduzido ao criar áreas de tráfego para todo maquinário, desde a implantação da cultura até a colheita

 

A recomendação para altura de corte basal dos colmos fica entre 45mm e 55mm em relação ao nível do solo, e a verificação pode ser feita no campo com uma régua graduada

 

Representação da colheita mecanizada em um sistema em que foi utilizado o direcionamento automático no plantio (paralelismo entre as linhas), e sem o direcionamento automático (sem paralelismo)


 

 

 

Matérias da Edição:
  1. Página 10

    MF9330

  2. Página 16

    Pressão líquida

  3. Página 24

    Teste de velocidade

  4. Página 42

    Solos manchados

  5. Página 46

    Choque orgânico

  6. Página 49

    Terminologia

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