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Ácaros predadores no manejo integrado da mosca-branca

Superar entraves como a presença de tricomas glandulares, que contêm substâncias adesivas capazes de dificultar a movimentação do agente de controle biológico, está entre os desafios para o emprego viável deste método em tomateiro.

A mosca-branca, Bemisia tabaci (Gennadius) biótipo B (Hemiptera: Aleyrodidae) é uma das principais pragas da cultura do tomate. Este inseto suga a seiva das folhas, o que pode comprometer o desenvolvimento das plantas e a produção. Todavia, talvez ainda mais sério é o fato desta espécie ser vetora de vírus, com destaque para o geminivírus, responsável pelo mosaico do tomateiro. Em geral, quando a cultura de tomate é infestada com adultos já infectados pelo vírus, a simples picada de prova já é suficiente para causar a sua transmissão. Dessa forma, o nível de tolerância dos produtores de tomate para esta praga é extremamente baixo.

O controle de B. tabaci biótipo B é invariavelmente realizado com a aplicação frequente de inseticidas. Estas aplicações acabam ocorrendo de forma preventiva para assegurar a eliminação da mosca-branca e a redução da possibilidade de ocorrência de viroses. Todavia, as falhas no controle desta praga com inseticidas são cada vez mais comuns. Conforme já largamente documentado, a aplicação frequente e sem critérios de inseticidas pode trazer efeitos negativos, com destaque para o desenvolvimento de populações resistentes da praga, principalmente quando produtos que apresentam o mesmo modo de ação são utilizados. Outro ponto negativo é a mortalidade de inimigos naturais, responsáveis pelo controle biológico natural.

A utilização do controle biológico é uma das bases do Manejo Integrado de Pragas (MIP). Na cultura do tomate, a prática do MIP ainda é incipiente e precisa ser incentivada principalmente pelo considerável número de pragas e doenças. Essa utilização do MIP resulta na redução de custos, melhoria da qualidade do ambiente de produção e até no aumento do valor agregado ao produto final.

Uma das alternativas de controle biológico é a utilização de ácaros predadores. Em diversos países têm havido grande interesse para controle da mosca-branca em hortaliças utilizando ácaros predadores, com destaque para a espécie Amblyseius swirskii Athias-Henriot (Acari: Phytoseiidae). Este ácaro é eficiente no controle de ovos e ninfas da praga em diversos cultivos de olerícolas e de ornamentais, e tem sido utilizado principalmente na Europa. Todavia, a sua eficiência não foi evidenciada em plantas de tomate. Isso decorre provavelmente pela presença de tricomas, que são estruturas presentes na superfície das folhas e hastes de algumas plantas (semelhante aos pelos nos animais). No caso do tomate, os tricomas são glandulares (estrutura globulosa na extremidade) e contêm substâncias adesivas que dificultam a movimentação desse ácaro predador e, desta forma, limitam a eficiência do controle biológico da praga nesta cultura. Importante salientar que essa espécie de ácaro predador não ocorre no Brasil.

No Brasil, foi realizado um trabalho intenso pela equipe do professor Gilberto José de Moraes (Esalq/USP) para prospecção de ácaros predadores para o controle de B. tabaci biótipo B. Nesta prospecção foi encontrada a espécie Amblyseius tamatavensis Blommers (Acari: Phytoseiidae) (Figura 1A) que se mostrou bastante eficiente no controle da mosca-branca. Essa espécie de ácaro predador se alimenta primordialmente de ovos da mosca-branca (Figura 1B), embora possa também se alimentar dos primeiros instares das ninfas da praga. Quando alimentado com ovos de mosca-branca, A. tamatavensis apresenta considerável taxa reprodutiva, comparativamente aos outros ácaros predadores utilizados comercialmente no mundo para controle de mosca-branca.

Uma fêmea de A. tamatavensis coloca, em média, entre um e dois ovos por dia, podendo, às vezes, até ultrapassar esse número. Em menos de dois dias, imaturos deste ácaro predador eclodem e passam a predar os ovos da mosca-branca. A fase jovem tem duração de quatro dias, aproximadamente, enquanto a longevidade dos adultos é, em média, de 15 dias. Assim, durante o seu tempo de vida, cada fêmea pode colocar cerca de 15 a 20 ovos. Esta espécie de ácaro predador consome cerca de oito ovos de B. tabaci biótipo B por dia. Desta forma, a capacidade de predação pode chegar a cerca de 150 moscas-brancas por indivíduo de ácaro predador. Isto é notável e pode contribuir sobremaneira com o controle biológico da praga em diversos cultivos, inclusive tomate.

Em um estudo conduzido também pela equipe do professor Gilberto José de Moraes (Esalq/USP) em plantas jovens de pimentão (Capsicum annuum L.), em Piracicaba, São Paulo, este ácaro foi capaz de reduzir de 60% a 80% as densidades populacionais de B. tabaci biótipo B. Em outro estudo, conduzido pela equipe do professor Marcelo Poletti (Promip), em Engenheiro Coelho, São Paulo, também foi verificada elevada predação de ovos da mosca-branca em plantas de algodão (Gossypium hirsutum L. cultivar Deltapine 51) e batata (Solanum tuberosum L. cultivar Atlantic).

Confirmando as expectativas iniciais, estudos conduzidos em Jaboticabal, São Paulo, indicam que A. tamatavensis também foi muito eficiente no controle de B. tabaci biótipo B em tomate (Solanum licopersicum L. híbrido Santyno F1 - Grupo Santa Cruz). Apesar da presença de tricomas glandulares em tomate, A. tamatavensis apresentou boa capacidade de movimentação para localizar e controlar a mosca-branca.

Nestes estudos conduzidos na Unesp, campus de Jaboticabal, verificou-se que a liberação de pelo menos 26 ácaros predadores por m2 de área de cultivo de tomate permitiu nível de controle de cerca de 90% da praga (Figura 2). Avaliou-se também a liberação do ácaro predador logo após a detecção dos primeiros adultos de mosca-branca e comparou-se com a liberação após uma semana da infestação inicial dos adultos da praga. Os níveis mais elevados de predação foram conseguidos quando a liberação do predador foi realizada logo após a observação dos primeiros adultos de mosca-branca. Ainda, após quase um mês de avaliação no tomate, verificou-se a presença do predador nos folíolos, numa demonstração do sucesso na sobrevivência do ácaro nesta cultura.

A liberação dos ácaros predadores é realizada de forma bastante simples, já que são mantidos em recipiente contendo vermiculita. Desta forma, a liberação pode ser facilmente realizada salpicando o produto sobre as folhas do tomateiro. A liberação já é realizada desta forma com grande sucesso com outros ácaros predadores em outras culturas. Além disso, um detalhe importante é que A. tamatavensis pode ser facilmente criado para fins comerciais utilizando presas alternativas, o que facilita sua multiplicação. Estes fatores são primordiais para que este ácaro predador seja adquirido e distribuído nos cultivos agrícolas, dentro de um programa de controle biológico aplicado.

Por fim, em situações de altas infestações da praga, a maior quantidade de ácaros predadores liberados - ou a utilização de outros métodos de controle em conjunto com a liberação do ácaro predador - deve ser considerada. No entanto, no tomate existem outras pragas e doenças importantes, e, por isso, na adoção do MIP, o uso de produtos seletivos é fundamental para o sucesso do ácaro predador. Por enquanto não existe uma lista descrevendo quais produtos químicos podem ser utilizados em conjunto com A. tamatavensis, como ocorre para outros ácaros predadores já comercializados para o controle de outras pragas. Porém, já é de conhecimento geral que ácaros predadores são suscetíveis a produtos acaricidas. Ressalta-se que existem inseticidas que também possuem ação acaricida. Sendo assim, o produtor deve se atentar e buscar orientação sempre que necessário para evitar que a aplicação de produtos para outras pragas ou doenças causem a morte deste agente de controle biológico.

Os cultivos agrícolas têm demandado soluções mais sustentáveis para o manejo de pragas e doenças. O sucesso alcançado com a utilização de ácaros predadores para o controle de mosca-branca em outros países sugere que este método de controle também pode ser viável no Brasil. Com base nos estudos realizados, conclui-se que existe um grande potencial de se controlar B. tabaci biótipo B em tomate no Brasil com o uso do ácaro predador A. tamatavensis, dentro de um programa de MIP. 

Figura 1 - Ilustração de fêmeas adultas de Amblyseius tamatavensis (A) e detalhe de uma fêmea sobre folíolo de tomate contendo ovos de mosca-branca, que são preferidos para alimentação deste predador.
Figura 1 - Ilustração de fêmeas adultas de Amblyseius tamatavensis (A) e detalhe de uma fêmea sobre folíolo de tomate contendo ovos de mosca-branca, que são preferidos para alimentação deste predador.
Figura 2 - Efeito da liberação do ácaro predador Amblyseius tamatavensis no controle de mosca-branca em tomate. A liberação do predador foi realizada um dia após a infestação inicial de mosca-branca, com adoção de 26 ácaros predadores/m2 de cultivo de tomate.
Figura 2 - Efeito da liberação do ácaro predador Amblyseius tamatavensis no controle de mosca-branca em tomate. A liberação do predador foi realizada um dia após a infestação inicial de mosca-branca, com adoção de 26 ácaros predadores/m2 de cultivo de tomate.

José Chamessanga Álvaro, Raphael de Campos Castilho, Odair Aparecido Fernandes, FCAV/Unesp

Cultivar Hortaliças e Frutas Novembro 2019

A cada nova edição, a Cultivar Hortaliças e Frutas divulga uma série de conteúdos técnicos produzidos por pesquisadores renomados de todo o Brasil, que abordam as principais dificuldades e desafios encontrados no campo pelos produtores rurais. Através de pesquisas focadas no controle das principais pragas e doenças do cultivo de hortaliças e frutas, a Revista auxilia o agricultor na busca por soluções de manejo que incrementem sua rentabilidade. Na edição de novembro de 2019 você confere também: 

- Leprose dos citros
- Enxertia em hortaliças
- Combate da praga Diabrotica speciosa no tomate
- Ferramentas para controle das moscas-das-frutas 
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