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Como garantir aplicação eficiente e segura na cultura do café

Calibração correta das máquinas, uso de produtos fitossanitários específicos e controle no momento correto são aspectos fundamentais para garantir uma aplicação eficiente e segura na cultura do café.

O manejo fitossanitário em culturas perenes, como o café, é praticado recorrentemente ao longo do ano, mesmo em condições desafiadoras para se obter uma aplicação com boa qualidade.

A aplicação para ser de qualidade deve reunir quatro aspectos fundamentais: 1) proteger a lavoura, afinal é o objetivo para o qual a mesma está sendo realizada; 2) ser segura para o aplicador que está executando a aplicação; neste caso, o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), desde o início do preparo da calda até a descontaminação do pulverizador e seus componentes, é o principal aliado, juntamente com treinamentos sistemáticos sobre tecnologia de aplicação; 3) proteção do meio ambiente, para não haver contaminação do solo, água, polinizadores, dentre outros, e entrar na cadeia trófica; e 4) proteção do consumidor, à medida que são utilizadas doses recomendadas, produtos registrados para a cultura, prazos de carência entre outras boas práticas que são premissas básicas da tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários.

Atendidos esses quatro aspectos é possível afirmar que o uso de produtos fitossanitários na agricultura é seguro a todos os entes da cadeia, como produtores, consumidores e meio ambiente.

Existe um entendimento genérico, cuja origem é difícil de precisar, de que gotas finas devem ser utilizadas para a aplicação de fungicidas; gotas médias para inseticidas e alguns herbicidas; e gotas grossas para herbicidas. Não é uma recomendação técnica, porém, existente no ambiente dos usuários da tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários, mas que não encontra sustentação e respaldo na pesquisa científica.

A seleção do tamanho da gota deve ser uma tarefa de planejamento para cada aplicação, visto que não pode ser generalizada, pois está ligada a diversos fatores intrínsecos de cada momento da pulverização. Por exemplo, verão/inverno, condições psicrométricas instantâneas em que se pretende atingir determinado alvo, nível de infestação ou incidência, volume da copa e quantidade de folhas a serem cobertas com gotas. Entretanto, muitas vezes são feitas recomendações tabeladas ou presentes na bula dos produtos, o que geralmente acontece sem conhecimento prévio das condições específicas em que se realizará a aplicação.

Simultaneamente ao tamanho da gota a ser selecionado, parâmetros como densidade de gotas, porcentagem de cobertura, amplitude relativa, deposição ou retenção foliar, entre outros, devem ser analisados. Esses funcionam como uma contraprova para a pergunta: selecionamos a ponta certa para produzir o tamanho de gotas desejado/recomendado? É fundamental a análise simultânea desses parâmetros com o tamanho da gota, pois se considerado isoladamente representa pouca informação, já que é um valor absoluto representado pelo Diâmetro da Mediana Volumétrica (DMV). 

PULVERIZADORES

As aplicações com pulverizadores hidropneumáticos ou turboatomizadores na região produtora de café do Cerrado Mineiro são na sua maioria realizadas utilizando pontas que geram gotas finas e, tradicionalmente, quando o produtor substitui as pontas, ele opta pelo mesmo modelo. A questão não é a qualidade das pontas, mas o fato de raramente se ter um conjunto reserva que produza gotas de tamanhos diferentes na fazenda, utilizando-se sempre os mesmos modelos para aplicações de inseticidas, fungicidas e fertilizantes foliares durante todo o ano, independentemente das condições psicrométricas, do volume de calda, do alvo, dos produtos etc.

A seleção do tamanho da gota deve ser uma tarefa de planejamento para cada aplicação
A seleção do tamanho da gota deve ser uma tarefa de planejamento para cada aplicação

O conhecimento em tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários preconiza que as condições são dinâmicas e que o responsável técnico deve se atentar aos fatores que afetam a aplicação, buscando adequar-se, praticamente em tempo real, às mudanças meteorológicas, no alvo, na cultura etc., para obter pulverizações eficientes e controle eficaz dos agentes nocivos às culturas.

Os pulverizadores e a tecnologia disponível para manejo fitossanitário na cafeicultura estão bastante defasados comparados aos pulverizadores hidráulicos de barra. Nestes existem estações meteorológicas embarcadas, fechamento automático, capas com mais de uma ponta para facilitar a substituição do tamanho de gotas, controle eficiente de pressão de trabalho, entre outros avanços tecnológicos que ainda não foram adicionados aos pulverizadores empregados para manejo fitossanitário na cafeicultura. Segundo alguns fabricantes, a tecnologia está disponível, mas não há demanda por parte dos agricultores ou disposição para se investir um pouco mais nos equipamentos. Haveria uma explicação para este fato?

Nas fazendas produtoras de café, é comum a equipe calibrar o pulverizador medindo a vazão de uma a três pontas em cada barra. Seria essa amostragem suficiente para dar uma percepção da uniformidade de distribuição da calda no dossel da planta? Entretanto o operador “toma um banho”, se optar por fazer a medição em todas as pontas. Uma alternativa, mais econômica frente aos sistemas de avaliação conjunto das pontas, seria um sistema de engate rápido na parte superior, permitindo que no momento da determinação da vazão a barra fosse posicionada na horizontal, assim os operadores amostrariam a vazão de um maior número de pontas ou, talvez, de todas, e seriam mais assertivos em relação ao volume de calda que estão aplicando.

ALTERNATIVAS

No anseio de apresentar uma alternativa, que atenda aos quatro aspectos fundamentais da tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários, quais sejam, proteção da cultura, aplicador, meio ambiente e consumidores, alguns trabalhos têm sido conduzidos pelo Grupo de Investigação em Mecanização Agrícola (Grima), constituído por pesquisadores de diferentes instituições de ensino, pesquisa e extensão brasileiras, em diferentes laboratórios na área de tecnologia de aplicação e mecanização agrícola.

O objetivo é apresentar aos cafeicultores resultados de pesquisa que demonstrem eficácia biológica, selecionando gotas adequadas ao momento, alvo, volume de calda e porte da planta.

Um exemplo desses esforços é resumido a seguir, onde se conduziu um trabalho de pesquisa com as seguintes condições da aplicação: ponta “A”, gotas finas, e ponta “B”, gotas grossas, segundo a classificação da Sociedade Americana de Agricultura, Biologia e Engenharia (Asabe) S 572.1. Ambas produzem jato cônico vazio e ângulo de 80º, volume de calda de 200L/ha e 400L/ha, velocidade de trabalho de 3,8km/h a 7,8km/h, pressão de trabalho de 565kPa a 1.241kPa, condições meteorológicas médias de 29°C de temperatura, 37% de umidade relativa e 4,3km/h de velocidade do vento, visando controle do bicho-mineiro do café.

Este inseto apresenta pico de infestação que coincide com um período de baixa umidade relativa do ar e tem sido um dos maiores problemas da cafeicultura. A aplicação realizada demonstrou-se segura sob diferentes aspectos e protegeu a lavoura, apresentando resultados parciais do trabalho e com efeitos significativos (Tabelas 1, 2, 3 e 4). Esta aplicação ocorreu em área com infestação de 65% de larvas vivas; portanto, em condições bastante críticas.

O volume de 400L/ha é usual nas propriedades da região e como alternativa, 200L/ha apresentou uma eficácia maior com gotas grossas, em relação ao tradicionalmente empregado. Uma análise geral dos parâmetros apresentados permite inferir que o uso de gotas grossas pode ser uma alternativa viável ao cafeicultor, combinado com volume de calda menor.

As mesmas pontas e os volumes de calda foram utilizados em um trabalho para controle da broca-do-café, e os resultados indicaram comportamento semelhante em termos de parâmetros da aplicação e eficácia de controle, com maior deposição de corante traçador nos frutos quando se utilizou a ponta “B”, que produz gotas grossas.

AVALIAÇÃO

A tomada de decisão em relação ao tamanho da gota a ser utilizada exige conhecimento amplo sobre alvo, ambiente, máquina, arquitetura da planta, entre outros. A necessidade de capacitação sistemática e continuada das equipes de campo é fundamental para se conduzir aplicações seguras sob todos os aspectos, sendo necessário que o produtor/empresário entenda essa realidade para não aumentar a animosidade da sociedade em relação à atividade agrícola e ao uso de produtos fitossanitários essenciais para os cultivos. É notório que boa parte dos produtores brasileiros é cautelosa e sabe de suas responsabilidades sociais. Entretanto, não tem sido suficiente guardar para si as preocupações e os cuidados tomados da porteira para dentro, será preciso demonstrar à sociedade que suas ações refletirão em alimentos sem resíduos e produzidos de forma técnica na mesa do consumidor em seus lares, nos centros urbanos.

Por fim, as operações de pulverização de produtos fitossanitários têm sido criticadas pela sociedade e, em alguns casos, é possível afirmar que há razão e fundamento nas críticas. A saída para a harmonização entre consumidores e produtores é o uso correto da tecnologia de aplicação, que consiste na ciência de aplicar os produtos fitossanitários no momento e local corretos, com o mínimo de desperdício, como bem descrito pelo professor Tomomassa Matuo.

Cleyton Batista de Alvarenga,
Paula Cristina Natalino Rinaldi,
João Paulo Arantes Rodrigues da Cunha,
Renan Zampiroli,
Matheus Vilhena Parenti,
Dalton Luiz Benz,
Marcos Paulo Resende Ribeiro e
Darlisson Medeiros Santos,
Agronome Paul Saint-Paul
Túlio Urban Lourenço Miranda Silva,
Universidade Federal de Uberlândia

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