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Como melhorar as práticas de manejo de plantas daninhas e lagarta-do-cartucho

Plantas daninhas resistentes ao glifosato, quando não manejadas adequadamente, tendem a se tornar potenciais hospedeiras de pragas polífagas, como a lagarta-do-cartucho.

O aumento das áreas cultivadas com milho, soja e algodão resistentes ao glifosato trouxe ao produtor o benefício da facilidade nos tratos culturais e na implantação do sistema de plantio direto. Todavia, tanto esse sistema como a alta adoção das plantas transgênicas resistentes a herbicidas geraram uma grande pressão de seleção sobre as plantas daninhas, o que resultou no aumento de daninhas resistentes a herbicidas no campo (Heap & Duke 2018). Tal fato, além de dificultar muito as estratégias de manejo, onera o custo de produção, pois o produtor vem aumentando a dose aplicada e precisa diversificar os produtos utilizados.

A ocorrência de plantas daninhas no período de entressafra pode variar, dependendo das condições do tempo e características climáticas específicas de cada região, além de ser influenciada por fatores relacionados ao preparo do solo, histórico de herbicidas pulverizados e culturas cultivadas na área. O uso contínuo do herbicida glifosato na agricultura brasileira favoreceu o aumento da frequência de biótipos resistentes e espécies tolerantes a herbicidas nas principais regiões produtoras de soja do País (Lucio et al., 2019).

Atualmente, no Brasil, existem 11 espécies de plantas daninhas que possuem biótipos resistentes a esse herbicida; dentre elas destacam-se a buva (Conyza spp.), o capim-amargoso (Digitaria insularis) e o capim-pé-de-galinha (Eleusine indica) (Figura 1), como espécies com ampla distribuição geográfica (Lucio et al., 2019; Heap & Duke 2018). O tráfego de máquinas, implementos agrícolas e sementes nas fronteiras com outros países, principalmente Argentina, Uruguai e Paraguai, é importante via de entrada de novas espécies resistentes, como o caruru (Amaranthus hybridus), detectado na safra 2018/2019 no estado do Rio Grande do Sul. O sorgo-selvagem (Sorghum halepense) resistente ao glifosato já se encontra presente na Argentina (Heap, 2020), e a probabilidade de introdução no Brasil é iminente.

Figura 1 - Plantas daninhas: a) buva (Conyza spp.), b) capim-amargoso (Digitaria insularis) e c) capim-pé-de-galinha (Eleusine indica)
Figura 1 - Plantas daninhas: a) buva (Conyza spp.), b) capim-amargoso (Digitaria insularis) e c) capim-pé-de-galinha (Eleusine indica)

Todas as espécies aqui mencionadas destacam-se como plantas comuns encontradas na entressafra nos campos brasileiros (Adegas et al., 2010; Concenço et al., 2012; Heap & Duke 2018). Durante esse período, se não forem adequadamente manejadas, as plantas daninhas podem aumentar o seu banco de sementes, tornando-se difíceis de controlar e podendo servir como hospedeiros importantes para pragas e doenças (Dalazen et al., 2016).

Ponte verde

A possibilidade de cultivo de lavouras de grãos em várias épocas do ano na mesma área é uma das grandes vantagens do sistema tropical de produção, que otimiza a exploração da área. Contudo, traz consigo alguns inconvenientes, como a dificuldade de controlar espécies de pragas polífagas nas áreas de cultivo, uma vez que plantas hospedeiras são mantidas no campo durante todo o ano (Rodrigues et al., 2015).

 Entre essas pragas polífagas presentes no campo, destaca-se a lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda (Smith, 1797) (Lepidoptera: Noctuidae) (Figura 2), considerada uma das pragas mais importantes no Brasil (Mendes et al., 2018).

Figura 2 - Lagarta no cartucho, (a) lagarta no solo, (b) pupas e (c) adultos (macho e fêmea)
Figura 2 - Lagarta no cartucho, (a) lagarta no solo, (b) pupas e (c) adultos (macho e fêmea)

Segundo levantamento realizado por Montezano et al., (2018), essa espécie de praga pode se alimentar de pelo menos 353 espécies de plantas de 76 famílias diferentes, cujas principais são Poaceae, Asteraceae e Fabaceae. Dentre estas plantas estão incluídas plantas cultivadas e invasoras que ocorrem simultaneamente em diferentes regiões e estações do ano. Essa habilidade da praga, de se alimentar de muitas plantas presentes nos sistemas de cultivo, e a manutenção continuamente de culturas hospedeiras no campo, como milho, soja, algodão, sorgo e arroz (Boregas et al., 2013) em sistemas intensificados de produção, proporcionam alimento para S. frugiperda no campo durante todo o ano, configurando a chamada ponte verde, o que dificulta as estratégias de manejo da espécie.

Além disso, a ocorrência da lagarta-do-cartucho atuando como lagarta-rosca tem aumentado. Esse hábito ocorre quando a lagarta, já grande no campo, se alimenta de plântulas nas lavouras, o que reduz o estande. Tal fato pode ser causado pela manutenção da lagarta nas diferentes plantas hospedeiras. O curto período entre a dessecação e o plantio não proporciona uma redução das plantas hospedeiras, ou seja, redução de alimento para as lagartas a ponto de resultar em uma diminuição significativa da sua frequência. Como logo em seguida ocorre a germinação da nova lavoura, as lagartas passam a se alimentar das plântulas recém-emergidas (Figura 2b).

Daninhas como ponte verde

Em razão do manejo inadequado, as plantas daninhas resistentes ao glifosato tendem a permanecer verdes por mais tempo na área de cultivo, tornando-as potenciais hospedeiras de pragas polífagas. Portanto, conhecer a aptidão e a biologia da lagarta-do-cartucho nessas plantas invasoras contribui para melhorar as práticas de manejo dessa praga. Uma vez que nesses sistemas de cultivo esta praga pode se manter na área por longos períodos se alimentando de plantas daninhas, quando realizado o plantio da lavoura principal, como essa espécie já está na área, passa a causar problemas na lavoura recém-implantada, reduzindo estande e causando injúrias de alimentação que reduzem o potencial produtivo.

Nesse cenário, em que as plantas daninhas com resistência a herbicidas estão se tornando mais frequentes em áreas agrícolas, realizou-se um estudo, no qual foram avaliados os aspectos biológicos de S. frugiperda em plantas daninhas específicas comuns nos agroecossistemas brasileiros, como as da família Poaceae, capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), sorgo-selvagem (Sorghum vertcilliflorum) e capim-amargoso (Digitaria insularis), e de outras famílias, buva (Conyza sp.) (Asteraceae), caruru-verde (Amaranthus hybridus) (Amaranthaceae) e trapoeraba (Commelina benghalensis) (Commelinaceae). Com estes resultados foi possível inferir como a presença dessas plantas pode influenciar na sobrevivência dessa praga nos sistemas agrícolas.

Em estudo realizado no laboratório, verificou-se diferença para as variáveis biológicas estudadas: sobrevivência de lagartas (larval), período de desenvolvimento das lagartas e biomassa (peso) das lagartas e das pupas (Figuras 3, 5, 6 e 7).  Nesse sentido, o presente estudo traz boas notícias. A buva, muito comum em sistemas de produção e com presença de plantas resistentes em todas as regiões produtoras de grãos do País, não pode ser considerada uma planta hospedeira de S. frugiperda, uma vez que nenhuma lagarta sobreviveu (Figura 3).

Figura 3 - Sobrevivência larval de Spodoptera frugiperda (± EP) em diferentes plantas daninhas e milho (DKB 390 convencional). Médias seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo teste de Dunn a 5% de probabilidade. Adaptado de Moraes et al., 2019
Figura 3 - Sobrevivência larval de Spodoptera frugiperda (± EP) em diferentes plantas daninhas e milho (DKB 390 convencional). Médias seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo teste de Dunn a 5% de probabilidade. Adaptado de Moraes et al., 2019

Embora Dalazen et al. (2017) tenham descrito espécies de buva como hospedeiros frequentes e dominantes para a lagarta-do-cartucho no Brasil, no presente estudo a buva não demonstrou ser uma planta hospedeira tanto em bioensaios de laboratório quanto em casa de vegetação. Esses dados estão de acordo com aqueles encontrados por Mendes et al., 2016, mostrando que a buva pode ser classificada como planta de abrigo no campo, pois além de os insetos não completarem a fase larval, aumenta muito o tempo de desenvolvimento. Desse modo, as lagartas sobrevivem em subdesenvolvimento por até 40 dias, mas morrem se forem alimentadas exclusivamente com buva (Figura 4).

Figura 4 - Lagartas de Spodoptera frugiperda de mesma idade mantidas com alimentação exclusiva em folhas de milho (lagarta grande, que se desenvolveu) e buva (lagarta pequena, que não se desenvolveu)
Figura 4 - Lagartas de Spodoptera frugiperda de mesma idade mantidas com alimentação exclusiva em folhas de milho (lagarta grande, que se desenvolveu) e buva (lagarta pequena, que não se desenvolveu)

Além da buva, o capim-amargoso e a trapoeraba não propiciaram bom desenvolvimento do inseto em laboratório, com sobrevivência das lagartas de 19% e 33%, respectivamente. A alimentação exclusiva com capim-amargoso e trapoeraba também alongou muito o período de desenvolvimento das lagartas sobreviventes, que levaram em torno de 25 dias para completar essa fase (Figura 5). Vale lembrar que quanto mais tempo o inseto passa na fase de lagarta, mais suscetível fica a outras formas de mortalidade, como a predação.

Figura 5 - Período de desenvolvimento larval (dias) de Spodoptera frugiperda mantida sob alimentação exclusiva em diferentes plantas daninhas e milho, avaliado em laboratório. Médias seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo teste de Dunn a 5% de probabilidade. Adaptado de Moraes et al., 2019
Figura 5 - Período de desenvolvimento larval (dias) de Spodoptera frugiperda mantida sob alimentação exclusiva em diferentes plantas daninhas e milho, avaliado em laboratório. Médias seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo teste de Dunn a 5% de probabilidade. Adaptado de Moraes et al., 2019

Por outro lado, esse estudo também revelou daninhas que podem ser plantas hospedeiras adequadas para o desenvolvimento de S. frugiperda, como o sorgo-selvagem e o capim-pé-de-galinha. Ambas as espécies de plantas daninhas propiciaram um bom desenvolvimento da praga, pois a sobrevivência das lagartas foi semelhante à observada no milho (Figura 3), e a biomassa das pupas também foi compatível com aquela apresentada pelas lagartas que se alimentaram de milho (Figura 6). Vale ressaltar que a biomassa de pupas tem correlação direta com a fertilidade dos adultos, assim, quanto maior a biomassa das pupas, mais férteis serão as mariposas.

Figura 6 - Biomassa de pupas de Spodoptera frugiperda (média ± EP) (mg) mantidas sob alimentação exclusiva de diferentes plantas daninhas, sorgo-selvagem e milho, avaliada em laboratório. Médias seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo teste de Dunn a 5% de probabilidade. Adaptado de Moraes et al., 2019
Figura 6 - Biomassa de pupas de Spodoptera frugiperda (média ± EP) (mg) mantidas sob alimentação exclusiva de diferentes plantas daninhas, sorgo-selvagem e milho, avaliada em laboratório. Médias seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo teste de Dunn a 5% de probabilidade. Adaptado de Moraes et al., 2019

Já no estudo realizado em casa de vegetação, observou-se que houve diferença na injúria causada pela alimentação de S. frugiperda nessas diferentes plantas daninhas (Figura 7).  A injúria observada em capim-pé-de-galinha foi semelhante àquela verificada em milho, sorgo-selvagem e caruru. Contudo, em capim-amargoso, buva e trapoeraba, plantas que apresentaram pior desempenho biológico para a praga, a injúria também foi menor. Isso mostra que a presença do inseto no campo pode passar sem ser percebida pelo produtor, uma vez que ele pode não ver as lagartas ou as injúrias de alimentação desses insetos.

Figura 7 - Nota de injúria (média ± EP) causada pela alimentação de Spodoptera frugiperda em seis espécies de plantas daninhas e milho em casa de vegetação. Médias seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo teste de Dunn a 5% de probabilidade. Escala de notas de 0 a 5 adaptada de Carvalho (1970). Adaptado de Moraes et al., 2019
Figura 7 - Nota de injúria (média ± EP) causada pela alimentação de Spodoptera frugiperda em seis espécies de plantas daninhas e milho em casa de vegetação. Médias seguidas de mesma letra não diferem entre si pelo teste de Dunn a 5% de probabilidade. Escala de notas de 0 a 5 adaptada de Carvalho (1970). Adaptado de Moraes et al., 2019

É importante o produtor estar atento à observação de injúrias de alimentação também nas plantas daninhas (Figura 8), o que pode ser um bom indicador da presença das lagartas se alimentando das plantas, sobretudo no momento do preparo do plantio, em que a permanência dessa lagarta em plantas daninhas pode levar a possíveis reduções do estande da lavoura recém-plantada.

Figura 8 - Plantas daninhas com injúrias causadas pela alimentação de Spodoptera frugiperda. (a) trapoeraba, (b) sorgo-selvagem, (c) capim-amargoso, (d) caruru e (e) capim-pé-de-galinha
Figura 8 - Plantas daninhas com injúrias causadas pela alimentação de Spodoptera frugiperda. (a) trapoeraba, (b) sorgo-selvagem, (c) capim-amargoso, (d) caruru e (e) capim-pé-de-galinha

Em geral, os resultados mostraram que a sobrevivência e o desenvolvimento da lagarta-do-cartucho foram semelhantes aos do milho nas plantas daninhas sorgo-selvagem e capim-pé-de-galinha, e que a buva, o capim-amargoso e a trapoeraba foram os piores hospedeiros dessa praga.

Apesar de a trapoeraba e o capim-amargoso terem recebido as menores notas de injúria em casa de vegetação, registre-se a capacidade dessa praga para sobreviver nessas espécies de plantas daninhas por um certo período. Além disso, é importante destacar que as plantas daninhas nas quais a lagarta-do-cartucho apresentou um longo período de desenvolvimento, como o capim-amargoso e a trapoeraba, podem favorecer a presença e a persistência da praga, servindo do que se pode chamar de “abrigo”.

Recentemente, foi detectado um capim-pé-de-galinha com resistência múltipla a herbicidas (glifosato e fenoxaprop-p-etil) no estado de Mato Grosso, Brasil (Heap & Duke 2018). A falta de controle desse capim vem aumentando principalmente nas regiões do Cerrado no Brasil. Esse fato também contribuiu para o aumento dessa planta daninha nos sistemas de produção agrícola (Takano et al., 2016).

De acordo com os resultados, o manejo dessas plantas daninhas é muito importante nos campos brasileiros durante a entressafra, com o objetivo de reduzir o banco de sementes no solo, a incidência da lagarta-do-cartucho e os custos de produção. Adegas et al. (2017) estimaram um custo superior a R$ 9 bilhões anuais gerados pela presença de plantas daninhas resistentes, considerando apenas o sistema de produção de soja no Brasil. Isso, sem considerar nesse custo a sobrevivência de pragas nessas plantas daninhas, como a lagarta-do-cartucho, o que elevaria esse valor. Desse modo, as estratégias de manejo de plantas daninhas devem ser divulgadas e adotadas pelos produtores rurais.

Recomendações de manejo

Para o adequado manejo de plantas daninhas na entressafra, medidas integradas de controle para evitar o aumento da produção de sementes durante o período da entressafra são necessárias. Entre essas medidas, estão a possibilidade de uso de herbicidas residuais após a colheita, o emprego de plantas de cobertura e práticas de controle mecânico.

Para evitar que as plantas daninhas da área possam servir como ponte verde de S. frugiperda e não aumentem o seu banco de sementes é necessário realizar o adequado controle das infestantes durante o período de entressafra. É importante que a dessecação seja realizada de maneira antecipada, preferencialmente 15 dias a 20 dias antes do semeio da cultura, e que seja realizado o monitoramento de pragas próximo à data de semeio, para verificar se há necessidade de aplicação de inseticidas para controle da praga-alvo.

Natália Alves Leite, Tamara Moraes, Alexandre Ferreira e Décio Karam, Embrapa Milho e Sorgo; 

Simone Mendes,* 

Embrapa Milho e Sorgo* autora correspondente

Cultivar Grandes Culturas Dezembro/Janeiro 2021

A cada nova edição, a Cultivar Grandes Culturas divulga uma série de conteúdos técnicos produzidos por pesquisadores renomados de todo o Brasil, que abordam as principais dificuldades e desafios encontrados no campo pelos produtores rurais. Através de pesquisas focadas no controle das principais pragas e doenças do cultivo de grandes culturas, a Revista auxilia o agricultor na busca por soluções de manejo que incrementem sua rentabilidade. 

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