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Como realizar o manejo correto de tripes em soja

Como se dá a distribuição dos danos ocasionados por tripes nas plantas de soja e de que modo realizar o manejo destes insetos diminutos que possuem aparelho bucal do tipo raspador e cuja incidência explodiu nas lavouras durante a última safra.

A cultura da soja todos os anos é submetida a um amplo espectro de insetos-praga, que ocasionam danos diretos e indiretos, reduzindo a produtividade das cultivares comercializadas na hora do plantio. Na safra atual, em função das variáveis climáticas, principalmente da estiagem recente, alguns grupos de insetos tiveram seu desenvolvimento favorecido, agravando assim seus danos para cultura.

Entre os insetos-praga que mais causaram dor de cabeça a produtores e técnicos nesta safra estão tripes, insetos diminutos com alto potencial biótico e de ciclo curto (em torno de 15 dias), sendo que uma das fases iniciais se dá no solo e o restante na planta (Figura 1). O adulto pode viver até 45 dias, o que corresponde a uma sobreposição de gerações, agravando ainda mais o problema para a cultura infestada.

Figura 1 - Fases de desenvolvimento de tripes. Fonte: https://www.ipmlabs.com/thrips-damage
Figura 1 - Fases de desenvolvimento de tripes. Fonte: https://www.ipmlabs.com/thrips...

O dano característico deste grupo de insetos relaciona-se com seu aparelho bucal, do tipo raspador, especialmente de folhas, pois ao alimentarem-se, acabam promovendo o rompimento das células, o que provoca sintomas de raspagem, deixando o limbo foliar com aspecto “prateado”. Trabalhos realizados anteriormente demonstram queda de 45% na fotossíntese, 36% na condução estomática e 30% na transpiração em uma densidade populacional de 73 tripes/folíolo posicionados no estrato superior de plantas de soja em estádio R5.

Além do dano causado pelo comportamento alimentar, tripes podem também causar danos indiretos (esses menos recorrentes) através da transmissão de viroses, como o vírus da queima-do-broto-da-soja. Ainda merecem destaque as relações entre C. brasiliensis e plantas daninhas localizadas em áreas adjacentes a lavouras, fato determinante para a sobrevivência destes indivíduos durante períodos desfavoráveis (entressafras). Danos por C. brasiliensis variam entre 10% e 25% de queda na produtividade final. Trabalhos envolvendo este grupo de insetos denotam linhagens resistentes a inseticidas à base de espinosade, elevando ainda mais sua importância econômica.

Experimento

Para melhor compreender como se distribuem os danos deste grupo de insetos na cultura da soja, foram avaliadas no município de Ibirubá, no Rio Grande do Sul, quatro cultivares (Tabela 1) durante a safra 2018/2019, todas conduzidas conforme as recomendações técnicas e em um tamanho de parcela de 100 metros quadrados para cada cultivar.

Para cada cultivar, foram selecionadas de maneira aleatória dez plantas de soja, sendo cada planta dividida em três partes (estratos: inferior, médio e superior) e retirados 30 folíolos por estrato de planta, totalizando 90 folíolos por cultivar avaliada (Figura 2). Todas as cultivares avaliadas estavam em estádio R5. Desta forma, os dados foram analisados primeiramente entre estratos das cultivares avaliadas. Posteriormente os folíolos avaliados foram divididos em três partes iguais (estratos: superior, médio e inferior) para avaliar a concentração dos danos em folíolo. Os dados foram analisados estatisticamente a um nível de 5% de probabilidade de erro.

 

Figura 2 - Esquema da partição de plantas e folíolos de soja em diferentes estratos (superior, médio e inferior) para avaliação dos danos de tripes em diferentes cultivares
Figura 2 - Esquema da partição de plantas e folíolos de soja em diferentes estratos (superior, médio e inferior) para avaliação dos danos de tripes em diferentes cultivares

Resultados

Houve diferenças significativas para concentração dos danos de tripes entre os estratos de todas as cultivares avaliadas. Em todas as cultivares foi observada maior concentração dos danos para os estratos médio e superior, sendo que nas cultivares BRS5601 e NA5909 o estrato superior foi o que apresentou maior concentração dos danos. Para NS5445 e SYN 1562 o estrato médio apresentou maior concentração dos danos (Figura 3).

Figura 3 - Concentração dos danos de tripes em função do estrato da planta em diferentes cultivares de soja avaliadas. Ibirubá, RS, safra 2018/2019
Figura 3 - Concentração dos danos de tripes em função do estrato da planta em diferentes cultivares de soja avaliadas. Ibirubá, RS, safra 2018/2019

A distribuição de tripes entre os estratos das plantas de soja relaciona-se com sua preferência por ambientes com umidade relativa e radiação solar adequadas para sua sobrevivência. Desta forma, populações de tripes posicionam-se nos estratos médio e superior, onde irão encontrar tais condições mencionadas. Entretanto, vale ressaltar que uma parte do desenvolvimento deste inseto se dá no solo (Figura 1), sendo assim, novas infestações iniciam-se no estrato inferior. Desta forma, tecnologias que atinjam o chamado “baixeiro” da soja, além de reduzirem com eficiência populações já estabelecidas, contêm de forma eficiente novos fluxos populacionais desta praga.

Na análise dos folíolos, observou-se que em todas as cultivares avaliadas os danos concentraram-se principalmente no estrato inferior, seguido pelo médio e o superior (Figura 4). Esta distribuição dos danos está relacionada diretamente com a posição do inseto no folíolo, em que procura as partes com maior fluxo de seiva na planta, desta forma gasta menos energia ao se alimentar e obtém maior quantia de nutrientes, o que facilita a manutenção das populações e do seu alto potencial biótico.

Figura 4 - Distribuição dos danos de tripes em função do estrato do folíolo em diferentes cultivares de soja. Ibirubá, RS, safra 2018/2019
Figura 4 - Distribuição dos danos de tripes em função do estrato do folíolo em diferentes cultivares de soja. Ibirubá, RS, safra 2018/2019

De maneira geral, os resultados demonstram que plantas em estádio R5 apresentaram maior concentração dos danos nos estratos médio e superior. Entretanto, deve-se tomar cuidado quanto às populações iniciais, pois começam no estrato inferior, esgotando os recursos ali disponíveis, passando a sobrar maior quantidade de recursos para novas populações nos estratos médio e superior. Outra situação a ser observada é a relação direta entre área foliar existente nos estratos médio e superior em comparação ao estrato inferior. Por ser maior nos estratos médio e superior, a população pode tender a concentrar-se nestas áreas, causando maior quantidade de danos. Sendo assim, além de variações microclimáticas, a quantidade de recurso disponível e a época de infestação impactam na distribuição destes insetos ao longo da planta. 

É preciso esclarecer que não há intenção em comparar qual cultivar apresentou maior severidade, pois para tal deve ser avaliado um número de cultivares próximo ou igual ao que se tem disponível no mercado. Desta forma, busca-se somente conhecer em que parte da planta e do folíolo se concentram os danos de tripes na cultura da soja, focando em um manejo com base no comportamento do indivíduo.

Estratégias de manejo

No manejo fitossanitário de tripes, o pressuposto monitoramento deve ser considerado não somente na cultura da soja, mas também na antecessora. Havendo densidades populacionais, as medidas de supressão podem ser tomadas a partir da dessecação. Outra oportunidade reside no tratamento de sementes. Com o estabelecimento da cultura da soja, ações de monitoramento devem ser realizadas a partir das folhas cotiledonares. Havendo densidades populacionais (um a dois tripes por planta) recomenda-se efetuar a ação de supressão populacional. Destaca-se que o início de ações de supressão a partir da fase reprodutiva é temerário, muito em função das populações de tripes estarem distribuídas nos diferentes terços das plantas. Nessa fase, embora sejam executadas ações de supressão, as populações remanescentes, concentradas principalmente nas partes mediana e inferior, reinfestam a parte superior do dossel vegetativo, gerando uma falsa impressão de manejo. Diante disso, havendo densidades, recomenda-se estabelecer as estratégias de supressão já na fase vegetativa. Embora inicial, estima-se que este inseto tem potencial de gerar perdas significativas que perfazem os 15%.

Eduardo Engel, Esalq/USP, Intagro Pesquisa e Desenvolvimento; Mauricio P. B. Pasini, Unicruz, Intagro Pesquisa e Desenvolvimento

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