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Efeitos da aplicação associada de inseticidas e fungicidas em soja

A mistura de agroquímicos tem se popularizado cada vez mais no Brasil, ao mesmo tempo em que cresce a necessidade de entender melhor a interação e os efeitos de produtos associados.

A soja é a principal cultura de verão do Brasil, segundo maior produtor e o maior exportador da commodity no mundo. A continuidade e a evolução dessa produção passam pelo uso de diversas tecnologias que, cada vez mais, devem trazer sustentabilidade para a cadeia produtiva.

A ocorrência de doenças e de insetos em lavouras de soja é um dos principais problemas para o seu cultivo e requer a adoção de medidas de manejo fitossanitário. Entre essas práticas, o controle químico tem sido necessário para o controle de doenças, como a ferrugem-asiática da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, e de insetos, como o percevejo-marrom, Euschistus heros. Algumas das pulverizações realizadas para o controle da ferrugem-asiática podem coincidir com a necessidade de controle do percevejo-marrom em soja, mas mesmo quando tecnicamente essa necessidade não coincide, considerando os preceitos do Manejo Integrado de Pragas (MIP) e de Doenças (MID), tem sido comum a realização de misturas dessas e de outras classes de produtos em tanque, com o objetivo de aproveitamento da operação de pulverização. Segundo dados de pesquisa, a mistura de agroquímicos em tanque é adotada em 95% das pulverizações realizadas pelos agricultores, utilizando-se de dois a cinco produtos na calda de aplicação, sendo que a associação mais frequente (31%) é de fungicidas com inseticidas (Gazziero, Planta Daninha, v. 33, p. 83–92, 2015).

As associações de diferentes produtos podem gerar um efeito aditivo (a ação é a soma das qualidades individuais de cada formulação), sinérgico (a ação é superior à soma das qualidades individuais de cada formulação) ou antagônico (a ação é inferior à soma das qualidades individuais de cada formulação). O antagonismo pode ocorrer em razão da incompatibilidade física e/ou da incompatibilidade química entre produtos, alterando a qualidade do controle obtido com as pulverizações. As características físicas como solubilidade, constante de ionização (pKa) e coeficiente de partição octanol-água (Kwo) costumam ser as primeiras interações que ocorrem e, somente após essas reações, ocorrerão as interações químicas (Ikeda, Informe Agropecuário, v. 34, n. 276, 2013). Além disso, a associação de diferentes produtos em uma única aplicação é uma prática que pode trazer outros benefícios econômicos, pois a redução do número de entradas na lavoura pode levar a menor compactação do solo, menor amassamento de plantas, economia de água, de combustível e de tempo de trabalho.

Durante muitos anos, mesmo sendo frequentemente utilizada pelos agricultores, a prática de mistura em tanque não era regulamentada em lei, deixando na ilegalidade quem a realizasse. A partir da publicação da Instrução Normativa nº 40, de 11 de outubro de 2018, a prática foi regulamentada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), ficando o engenheiro agrônomo responsável pela recomendação das misturas em tanque e sua forma de aplicação, por meio do receituário agronômico, bem como por responder por quaisquer consequências adversas que essa recomendação possa causar.

Um gargalo existente em todo esse processo encontra-se no fato de não ser necessário o registro de misturas por parte das empresas desenvolvedoras de produtos químicos, aumentando a incerteza do que diferentes misturas possam ocasionar na pulverização, bem como o risco de prejuízos para o agricultor e ao engenheiro agrônomo que assina o receituário. Por isso, é de grande importância a realização de pesquisas para o maior conhecimento sobre as mais diversas misturas que possam ser realizadas durante o manejo da cultura da soja. No entanto, a grande quantidade de produtos químicos registrados para a cultura, torna quase impossível o teste de todas as combinações que vêm sendo utilizadas no campo. Além disso, dificilmente uma única pesquisa consegue abordar os diversos aspectos das misturas, sendo eles as interações físico-químicas dos produtos, o efeito sobre a tecnologia de aplicação, o efeito sobre a cultura (fitotoxicidade) e a eficiência biológica sobre os diferentes alvos de acordo com os produtos misturados (herbicidas, fungicidas, acaricidas e/ou inseticidas, entre outros). Resta então à pesquisa ir testando o máximo possível de misturas e avaliar os seus diferentes aspectos, com o objetivo de minimizar os riscos das pulverizações.

Folha de soja com sintomas de ferrugem-asiática (esquerda) e presença de percevejo-marrom sobre vagem (direita)
Folha de soja com sintomas de ferrugem-asiática (esquerda) e presença de percevejo-marrom sobre vagem (direita)

Neste sentido, foram realizados experimentos para avaliar a associação de fungicidas e inseticidas, recomendados para o controle da ferrugem-asiática e do percevejo-marrom, respectivamente, em relação à eficiência de controle da doença.

Os experimentos foram conduzidos durante duas safras no campo experimental da Embrapa Soja, em Londrina, no Paraná

 

Experimento 1

A semeadura foi realizada no dia 24 de novembro de 2018, com a cultivar DM 66I68RSF IPRO. Neste experimento os tratamentos consistiram em dois programas de controle químico para a ferrugem-asiática com diversos fungicidas, adicionados ou não de inseticidas recomendados para o controle do percevejo-marrom, todos nas doses recomendadas na bula (Tabela 1). Os princípios ativos descritos entre parênteses na Tabela 1 são misturas comerciais. Foram feitas três aplicações em cada tratamento (Tabela 1).

O delineamento experimental foi em blocos casualizados, com quatro repetições. As parcelas experimentais possuíam seis linhas de 7m de comprimento, espaçadas em 0,45m entre linhas. As aplicações foram feitas com pulverizador costal pressurizado por CO2, com barra de pulverização com quatro pontas de jato leque, modelo XR110.02 e volume de 150L/ha. Avaliou-se a severidade da ferrugem-asiática coletando-se dez folíolos da soja em cada repetição, na altura do terço médio das plantas. A partir dessas avaliações calculou-se a área abaixo da curva de progresso da doença (AACPD). Também foi avaliada a porcentagem de desfolha das plantas. Foram realizadas a análise de variância dos dados e a comparação de médias pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.

Os primeiros sintomas da doença na testemunha foram observados na primeira quinzena de janeiro, no estádio R2, e a severidade manteve-se baixa até o final do mês, evoluindo a partir de fevereiro de forma acelerada. No momento da primeira aplicação, a ferrugem-asiática estava com 5% de incidência na área, ou seja, a cada 100 folíolos coletados, cinco estavam com sintomas iniciais das doenças. As aplicações foram realizadas nos estádios R2, R4 e R5.2. Foram feitas avaliações de severidade nos estádios R2, R4, R5.2, R5.4 e R6. A desfolha foi avaliada no estádio R7.

Experimentos foram conduzidos durante duas safras no campo experimental da Embrapa Soja, em Londrina, no Paraná
Experimentos foram conduzidos durante duas safras no campo experimental da Embrapa Soja, em Londrina, no Paraná

Nas avaliações entre R4 e R5.4 a testemunha apresentou maior severidade em relação aos demais tratamentos, e entre esses não ocorreram diferenças significativas. Na avaliação em R6, a testemunha apresentou maior severidade que os demais tratamentos e, entre esses tratamentos, o de número 5 apresentou maior severidade que o de número 3. No entanto, considerando a comparação entre os tratamentos que diferiram apenas na adição ou não dos inseticidas, não houve diferença significativa entre esses (Tabela 1). As avaliações de desfolha e AACPD mostraram diferença significativa apenas entre a testemunha e os demais tratamentos, sem diferença entre os tratamentos com aplicação dos controles químicos.

 

Experimento 2

Neste segundo experimento, a semeadura foi realizada no dia 3 de dezembro de 2019, com a cultivar BRS 318RR. Não foi testado um programa de controle para a ferrugem-asiática, mas sim misturas específicas para o combate da doença, que foram repetidas em três aplicações em cada tratamento, com ou sem a adição de inseticidas para o controle do percevejo-marrom (Tabela 2). É importante salientar que não se recomenda repetir mais que duas vezes a aplicação dos mesmos ingredientes ativos, para não aumentar a seleção de populações do fungo resistentes aos fungicidas. Portanto, as três aplicações realizadas das mesmas misturas foram feitas com objetivo experimental e não se constituem recomendação de programa de controle para a ferrugem-asiática.

O delineamento experimental, os métodos de aplicação e de avaliação foram os mesmos descritos no experimento anterior.

A ferrugem-asiática incidiu no experimento na segunda quinzena de janeiro, no estádio R3, e a severidade evoluiu de forma lenta durante todo o ciclo da cultura, em decorrência do volume de chuvas abaixo do normal, configurando inclusive um cenário de seca que prejudicou o desenvolvimento da cultura. No momento da primeira aplicação a ferrugem-asiática estava com 53% de incidência na área e severidade média de 1%, nos folíolos coletados no baixeiro das plantas. As aplicações foram realizadas considerando a ocorrência da doença, nos estádios R4, R5.2 e R5.4. Foram feitas avaliações de severidade nos estádios R5.2, R5.4 e R6.

Todas as avaliações de severidade da doença, bem como as avaliações de desfolha e AACPD, mostraram diferença significativa apenas entre a testemunha e os demais tratamentos, sem diferença entre os tratamentos com aplicação dos controles químicos (Tabela 2).

 

Conclusões gerais

A associação dos inseticidas e dos fungicidas, utilizados nas condições dos dois experimentos, não afetou o controle da ferrugem-asiática em relação à severidade da doença.

É importante ressaltar que, embora as misturas em tanque possam apresentar as vantagens descritas nesse texto, e no caso dos ensaios descritos, sem problemas para a eficiência dos fungicidas, é imprescindível a utilização de critérios técnicos para decidir a necessidade da colocação dos produtos no tanque. Nos dois experimentos, na primeira aplicação para a doença, não havia a necessidade de controle do percevejo-marrom, sendo que a mistura só foi realizada para atender o objetivo do experimento, mas não havia necessidade para aplicação do inseticida, devido à ausência de percevejos. Para as demais aplicações havia a necessidade de fazer o monitoramento com “pano de batida”, para determinar a necessidade do controle químico do percevejo-marrom.

Rafael Moreira Soares e
Samuel Roggia,
Embrapa Soja, Londrina

 

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