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Eficiência nas mediadas de controle de ácaros na soja

Como anda a eficiência dos acaricidas contra o ácaro-rajado (Tetranychus urticae) e o ácaro-verde (Mononychellus planki), duas espécies agressivas que afetam especialmente as folhas e provocam prejuízos na cultura da soja.

No Cerrado do Oeste da Bahia, duas espécies de ácaros-praga destacam-se pela importância econômica, sendo o ácaro-rajado (Tetranychus urticae Koch) nas culturas de algodão, soja e feijão, e o ácaro-verde [Mononychellus planki (McGregor)] na soja. Estes organismos alimentam-se de células superficiais das faces inferior e superior das folhas, ocasionando, em ataque intenso, redução da taxa fotossintética da planta em decorrência dos danos foliares e da desfolha precoce, com reflexo negativo na produtividade e qualidade dos frutos e fibra.

Os sinais característicos da infestação destes ácaros na soja e no feijão começam com a presença de numerosas pontuações esbranquiçadas dispersas na face superior dos folíolos, progredindo, em situação de população elevada e período longo de ataque, para o escurecimento da face inferior, clorose, seca e queda do folíolo. Nas reboleiras, as plantas são de porte menor, com folíolos mais claros, e em caso de infestação por ácaro-rajado também com presença de fios de seda ligando e/ou cobrindo folíolos e plantas. Já no algodoeiro, o ácaro-rajado produz manchas avermelhadas na face superior da folha, que progridem para necrose e seca do tecido afetado, sendo comuns na inserção do pecíolo com o limbo foliar e entre os lóbulos da folha.

Na soja, o ácaro-rajado e o ácaro-verde são mais comuns em folíolos dos terços apical e médio, e em menor população no baixeiro. Em muitas lavouras acompanhadas pela Universidade do Estado da Bahia, em Luís Eduardo Magalhães/BA, nas safras de 2017/18 a 2019/20, a infestação pelas duas espécies era simultânea no mesmo talhão e folíolo da planta, sempre em populações muito desiguais para uma ou outra espécie. No algodoeiro, o ácaro-rajado é encontrado nos terços apical e médio, com populações mais elevadas a partir da metade do ciclo da cultura. As reboleiras dos ácaros surgem nas bordas dos talhões, dispersando-se progressivamente para o interior da área por ação do vento e também do homem (aderidos à roupa dos monitores).

Fios de seda do ácaro-rajado cobrindo o ponteiro da planta de soja
Fios de seda do ácaro-rajado cobrindo o ponteiro da planta de soja

Altas populações destes ácaros nas lavouras normalmente ocorrem em anos mais secos, com ocorrência de veranicos longos e temperaturas diárias elevadas. Nestas condições há uma redução no tempo de desenvolvimento dos ácaros (ovo-adulto), com maior número de gerações/safra, e também o aumento na taxa de sobrevivência pela menor remoção de ácaros das plantas por ação direta das gotas de chuva e do vento. A baixa umidade relativa do ar desfavorece a ocorrência de doenças fúngicas nas populações de ácaros, como também na qualidade das aplicações para seu controle. A resistência aos acaricidas, principalmente para o ácaro-rajado, é um fenômeno amplamente comprovado e que resulta em falhas de controle, alastramento da infestação na lavoura e comprometimento da produção. Os efeitos dos produtos piretroides nas populações de ácaros fitófagos são variados, em especial para o ácaro-rajado, com alguns produtos contribuindo para o aumento populacional e dispersão na lavoura e outros, como a bifentrina e a fenpropatrina, com propriedade acaricida.

Alguns técnicos e pesquisadores relatam que existe uma relação de causa e efeito entre o manejo químico da ferrugem-asiática (Phakopsora pachyrhizi) e outras doenças da soja, com a explosão populacional de ácaros nas lavouras, porém falta informação para sua melhor compreensão. Na safra 2017/18, a equipe do professor Marco Antonio Tamai, da Universidade do Estado da Bahia (dados não publicados), presenciou, em Luís Eduardo Magalhães/BA, a ocorrência de epizootia de um fungo da ordem Entomophthorales dizimando a população do ácaro-rajado em uma lavoura de soja que tinha recebido duas aplicações de fungicidas para controle da ferrugem. Os ácaros mortos apresentavam corpo amarelo-palha, sendo encontrados na face inferior dos folíolos. Os espécimes de ácaros-verde presentes nos mesmos folíolos não foram infectados pelo fungo, demonstrando especificidade do entomopatógeno.

Escurecimento da face inferior de um folíolo de soja causado pelo ácaro-verde
Escurecimento da face inferior de um folíolo de soja causado pelo ácaro-verde

Um fator também pouco estudado é o efeito das cultivares e variedades de soja e algodão na reprodução dos ácaros, o que permite concluir que são vários os fatores bióticos, abióticos e de manejo que atuam, de maneira isolada ou associada, para que as populações destes organismos estejam crescentes em diversas regiões produtoras do País.

No Brasil há diversos trabalhos que estimaram a perda de produtividade pelo ataque de ácaros tetraniquídeos na soja, família à qual pertencem os ácaros rajado e verde, podendo chegar a 50% da produtividade, segundo Silva e Gassen (2005), e até 60% da produtividade em caso de ataque severo no período de enchimento dos grãos (Moscardi et al., 2012). As perdas podem ser ainda de 270kg/ha (Arnemann et al., 2006), chegar até 4,5 sacas de soja/ha (Roggia e Sosa-Gomez, 2012) e ficar entre 426,7kg/ha e 493,1kg/ha (Fiorin, 2014).

Na mais ampla e atualizada revisão sobre manejo de pragas da soja no Brasil, feita pela Embrapa Soja, é descrito como a principal dificuldade do manejo de ácaros o fato de ainda não se conhecer um procedimento adequado para sua amostragem na lavoura, e o momento correto para se recomendar a aplicação do acaricida (Moscardi et al., 2012).

Com o objetivo de gerar informações atualizadas referentes à eficiência de acaricidas no controle destes ácaros na soja, a Universidade do Estado da Bahia (Barreiras/BA), em parceria com a empresa Círculo Verde Assessoria Agronômica e Pesquisa (Luís Eduardo Magalhães/BA), conduziu, nas safras 2018/19 e 2019/20, quatro ensaios, sendo três em estufa (ácaro-rajado) e um em campo (ácaro-verde). Os ensaios tiveram duas aplicações de acaricidas, espaçadas em dez dias, sendo a infestação inicial do ácaro-rajado nas plantas de 28, 40 e 64 ácaros/folíolo no primeiro, segundo e terceiro ensaios, respectivamente, e classificadas, nesta ordem, como infestações média, alta e muito alta. No ensaio com o ácaro-verde a infestação inicial era de 41 ácaros/folíolo.

Folha de algodão apresentando lesões causadas pelo ácaro-rajado
Folha de algodão apresentando lesões causadas pelo ácaro-rajado

Os resultados de controle do ácaro-rajado são apresentados nas Tabelas 1, 2 e 3. A abamectina foi muito eficiente nas doses de 500ml/ha (9g i.a.), 600ml/ha (10,8g i.a.) e 700ml/ha (12,6g i.a.) nos três ensaios, não havendo diferença significativa entre as doses, mostrando consistência no desempenho em diferentes níveis populacionais. A ação deste acaricida foi rápida, com controle médio do ácaro entre 69% e 95% nas três doses, o que ocorreu com apenas cinco dias da primeira aplicação, aumentando progressivamente com o passar do tempo até atingir valores médios acima de 92%, após 15 dias da segunda aplicação. Também foi muito eficiente nos três níveis de populações do ácaro (ensaios) o propargito nas doses de 800ml/ha (576g i.a.) e 1L/ha (720g i.a.), sendo equivalente à abamectina. O inseticida-acaricida diafentiurom a 800ml/ha (400g i.a.) foi muito efetivo sobre a população de 40 ácaros/folíolo, também equivalente à abamectina. O produto espiromesifeno (600ml/ha= 144g i.a.) teve seu desempenho muito influenciado pela infestação inicial do ácaro-rajado nos folíolos, com boa performance abaixo de 20 ácaros/folíolo, ou seja, devendo ser posicionados no início da ocorrência da praga na lavoura.

Os resultados de controle do ácaro-verde são apresentados na Tabela 4. Nota-se que quase todos os acaricidas eficientes ao ácaro-rajado também foram para o ácaro-verde, o que é uma vantagem no manejo, pois ambas as espécies podem ocorrer ao mesmo tempo na lavoura. Abamectina nas doses de 400ml/ha (7,2g i.a.), 500ml/ha (9g i.a.) e 600ml/ha (10,8g i.a.) proporcionou controle próximo a 80% após nove dias da aplicação. Os produtos espiromesifeno, aplicado a 600ml/ha (144g i.a.), e diafentiurom, a 800ml/ha (400g i.a.), tiveram desempenho muito semelhante à abamectina. Já propargito foi menos eficiente que os demais.

Nas safras 2017/18 e 2018/19, no Oeste da Bahia, foram observadas lavouras de soja nos estádios R5 e R6 com populações muito elevadas do ácaro-verde, com folíolos apresentando até 120 ácaros. As infestações se iniciaram na fase vegetativa, progredindo continuamente até o final do ciclo da cultura. Na safra 2019/20 foi encontrado um folíolo com 232 ácaros e centenas de ovos, uma mostra do potencial reprodutivo desta praga na lavoura.

Considerando os quatro ensaios, pode-se afirmar que o produtor dispõe de boas opções de acaricidas para o manejo dos ácaros rajado e verde na soja, devendo este ser implementado seguindo os conceitos de manejo da resistência.

Marco Antonio Tamai, Universidade do Estado da Bahia; Mônica Cagnin Martins, Círculo Verde Assessoria Agronômica e Pesquisa; Douglas Pereira dos Santos, Andrew Fhellype Mariano dos Santos, Joyce Pereira de Souza Paes e Jackelyne de Castro Oliveira, Universidade do Estado da Bahia; Fábio Cruz da Silva e Augusto Jorge Cardozo Caetano, Círculo Verde Assessoria Agronômica e Pesquisa

Cultivar Grandes Culturas Novembro 2020

A cada nova edição, a Cultivar Grandes Culturas divulga uma série de conteúdos técnicos produzidos por pesquisadores renomados de todo o Brasil, que abordam as principais dificuldades e desafios encontrados no campo pelos produtores rurais. Através de pesquisas focadas no controle das principais pragas e doenças do cultivo de grandes culturas, a Revista auxilia o agricultor na busca por soluções de manejo que incrementem sua rentabilidade. 

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