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Estratégias de manejo contra praga do bronzeamento do tomateiro

O que observar no manejo do microácaro do bronzeamento do tomateiro (Aculops lycopersici), um dos menores artrópodes conhecidos, cujo ataque gera frutos que não amadurecem e provoca diminuição na produtividade que pode superar 65%.

O tomateiro Solanum lycopersicum Mill (Solanaceae) é uma cultura de elevada importância mundial, tanto para o consumo in natura como para fins industriais. A produção dessa cultura gera muitos empregos diretos e indiretos, sendo uma das hortaliças mais cultivadas e consumidas no mundo. Entretanto, o tomateiro é uma planta altamente suscetível a diversas pragas e doenças. Com relação às pragas, muitas são bastante conhecidas pelos produtores, seja pelos prejuízos causados ou por serem facilmente reconhecidas no campo. Por outro lado, algumas pragas são menos conhecidas e muitas vezes passam despercebidas pelos produtores no início da infestação. Geralmente, isso ocorre pelo tamanho diminuto da praga ou por ocorrerem esporadicamente na cultura. Neste caso, destaca-se o microácaro do bronzeamento do tomateiro Aculops lycopersici (Tryon) (Acari: Eriophyidae). É uma praga associada à cultura do tomate em todo o mundo.

O microácaro do bronzeamento é um dos menores artrópodes conhecidos, medindo de 0,15mm a 0,20mm de comprimento na fase adulta, o que torna muito difícil sua detecção a olho nu ou até mesmo com uso de lupas de bolso comuns no início da infestação. É uma praga altamente especializada, habitando locais bastante específicos na planta, como base dos tricomas presentes em ramos, folhas e frutos jovens.

O microácaro pode ser reconhecido pelo corpo em formato vermiforme e pela coloração branco-leitoso. Os ovos medem 0,02mm de diâmetro e são ovipositados pelas fêmeas nas nervuras ou na base dos tricomas. Passa por dois estágios ninfais, nos quais o primeiro estágio apresenta 0,1mm de comprimento e o segundo, 0,12mm. Os ácaros podem passar por esses estágios em menos de um dia, sendo, portanto, um ciclo biológico bastanterápido. Esse ácaro pode atingir a fase adulta em seis dias sobre plantas de tomateiro Santa Cruz, e uma longevidade de 22 dias. Com seus estiletes medindo em torno de 0,01mm, os microácaros se alimentam das células epidérmicas das folhas.

No início da infestação, os primeiros sintomas decorrentes da alimentação dos ácaros são folhas e ramos apresentando um escurecimento leve característico. Com o aumento da população do ácaro, os sintomas evoluem para um escurecimento total das folhas e ramos, popularmente denominado de bronzeamento. A coloração típica dos sintomas causados é semelhante à cor de “café com leite”. Principalmente nos ramos de tomateiro infestados observa-se a morte de tricomas que adquirem uma coloração semelhante à palha.

Folhas e ramos de tomateiro estão entre os alvos do ataque da praga.
Folhas e ramos de tomateiro estão entre os alvos do ataque da praga.

As injúrias são causadas presencialmente nos terços médios e inferiores da planta. Com o aumento da densidade populacional, os sintomas avançam para o terço superior. Além disso, causa malformação de flores e frutos. Curiosamente, plantas altamente infestadas pelo microácaro geram frutos verdes que não amadurecem e muitas vezes apresentam rachaduras. Como consequência, pode ocorrer diminuição de mais de 65% na produtividade das plantas.

As maiores infestações de A. lycopersici ocorrem no período seco e de baixa umidade relativa do ar. O início da infestação poderá ocorrer duas semanas após o transplante das mudas, atingindo níveis mais elevados no período fenológico de amadurecimento dos frutos. Diante disso, o produtor deve monitorar o ácaro logo no início da cultura, principalmente nos períodos de estiagem, na produção a céu aberto. No início da infestação, os métodos de controle são mais eficazes e surtos populacionais dessa praga podem ser evitados.

O monitoramento da praga pode ser realizado a cada cinco dias, amostrando-se folhas, flores e frutos verdes quanto à presença do ácaro com auxílio de lupas com pelo menos 20 vezes de aumento ou quando possível com microscópio estereoscópio. Recomenda-se coletar 20 amostras aleatoriamente na área composta por material vegetal. Caso em uma das amostras o número de ácaros seja superior a nove, é indicado o emprego de algum método de controle. Desta forma, para uma amostragem representativa deve-se amostrar maior número de plantas em detrimento ao número de observações por planta.

Ataque pode inviabilizar frutos e diminuir a produvidade em até 65%.
Ataque pode inviabilizar frutos e diminuir a produvidade em até 65%.

Alguns métodos de controle têm sido propostos no manejo do microácaro. Entre estes, a busca por agentes de controle biológico para o monitoramento tem se destacado. Diversos ácaros predadores foram encontrados e avaliados por pesquisadores como agentes de controle biológico. Entre os ácaros, a espécie de fitoseiideo Euseius concordis (Chant) foi uma das mais eficientes no controle do microácaro do bronzeamento. Todavia, as liberações para serem eficientes devem ser realizadas no início das infestações.

Infelizmente, ainda não existe a comercialização legalizada de agentes de controle biológicos para controle de A. lycopersici. Por isso, o controle químico continua sendo a principal ferramenta no manejo. No entanto, muitas vezes devido ao rápido desenvolvimento biológico de A. lycopersici e às elevadas densidades populacionais torna-se necessária a realização de várias aplicações de acaricidas durante o ciclo da cultura. Contudo, o uso intensivo de acaricidas pode acarretar em rápida evolução da resistência, eliminar inimigos naturais e consequentemente aumentar os custos de produção.

Outra alternativa que tem sido explorada no manejo do microácaro é o uso de produtos naturais extraídos de plantas, comumente denominado de biopesticida, bioacaricida ou bioinseticida. Inúmeros compostos naturais vêm sendo descobertos e amplamente testados para controle de pragas agrícolas e urbanas. Na maioria dos casos os produtos naturais possuem vantagens em relação aos sintéticos tradicionais, como nenhuma ou baixa toxicidade aos mamíferos, curta persistência no ambiente, maior seletividade aos organismos benéficos e não alvos, bem como menor risco ao desenvolvimento de resistência.

Fruto de tomateiro com rachadura provocada pela incidência do microácaro.
Fruto de tomateiro com rachadura provocada pela incidência do microácaro.

Com o objetivo de avaliar um produto natural, o oximatrine, extraído da planta asiática Sophora flavescens Ait, estão sendo desenvolvidas pesquisas no Laboratório de Acarologia da Unesp, campus de Jaboticabal (UnespP/FCAV). Diversos resultados obtidos comprovaram a eficácia de oximatrine no controle de ácaros. No caso, para avaliar o efeito de oximatrine sobre o microácaro do tomateiro foi desenvolvida uma pesquisa em casa da vegetação. Inicialmente, plantas de tomateiro foram cultivadas individualmente em vasos de 5L contendo como substrato solo, areia e esterco bovino misturados em proporções iguais. A infestação de A. lycopersici ocorreu naturalmente nestas plantas.

Foram avaliados quatro tratamentos, sendo dois tratamentos com o biopesticida oximatrine nas concentrações de 1ml e 2ml de produto comercial (p.c.) por litro de água, um tratamento com propargitena concentração de 0,5ml de p.c./litro de água e um tratamento controle (testemunha) somente com aplicação de água. Cada tratamento foi repetido quatro vezes (quatro plantas/tratamento). A densidade populacional do ácaro foi estimada avaliando-se quatro folíolos por planta, antes e após a aplicação. Os tratamentos com oximatrine apresentaram eficiência semelhante ao acaricida sintético. Aos três dias após a aplicação, nos tratamentos com oximatrine a 2ml/L e propargite não foram encontrados ácaros vivos sobre as plantas, portanto apresentaram eficiência de 100%. No futuro este produto poderá ser uma ferramenta importante no manejo do microácaro do bronzeamento, uma vez que este produto já possui registro junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para outras culturas, como citros e café.

Outra estratégia interessante que futuramente pode auxiliar na redução dos prejuízos causados ao tomateiro por esta praga reside no uso de genótipos com características de resistência e/ou tolerância. Trabalhos também desenvolvidos na Unesp/FCAV verificaram diferenças quanto à suscetibilidade a esse ácaro. Nessas pesquisas foi demonstrado que a cultivar comercial TLCV15 de S. lycopersicum, amplamente cultivada em alguns países da África, é altamente suscetível ao ácaro. Em contrapartida, o genótipo sul-americano selvagem PI134417 de Solanum habrochaites Knapp & Spooner, assim como o cruzamento deste genótipo com a variedade comercial TLCV15 (F1, F2 e RC1), é menos suscetível ao ácaro. Esses resultados foram atribuídos principalmente à maior quantidade de tricomas glandulares encontrados no genótipo selvagem e nos seus híbridos. Essas estruturas liberam substâncias tóxicas sobre a superfície das plantas e assim afetam negativamente a biologia do ácaro.

Figura 1 - Efeito de oximatrine sobre a mortalidade do microácaro do bronzeamento Aculops lycopersici aos 1 e 3 dias após a aplicação (DAA) em plantas de tomate. 0 DAA indica a densidade populacional de A. lycopersici antes da aplicação (prévia).
Figura 1 - Efeito de oximatrine sobre a mortalidade do microácaro do bronzeamento Aculops lycopersici aos 1 e 3 dias após a aplicação (DAA) em plantas de tomate. 0 DAA indica a densidade populacional de A. lycopersici antes da aplicação (prévia).
Figura 2 - Densidade populacional do microácaro do bronzeamento Aculops lycopersici em folíolos de tomateiro Solanum habrochaites (PI134417), S. lycopersicum (TLCV15) e os híbridos F1, F2 e RC1 resultantes de cruzamentos entre PI134417 e variedades comerciais.
Figura 2 - Densidade populacional do microácaro do bronzeamento Aculops lycopersici em folíolos de tomateiro Solanum habrochaites (PI134417), S. lycopersicum (TLCV15) e os híbridos F1, F2 e RC1 resultantes de cruzamentos entre PI134417 e variedades comerciais.

Portanto, o manejo adequado de A. lycopersici inicia-se com o monitoramento adequado durante todo o ciclo da cultura e também com a integração dos métodos de controle para a sustentabilidade da atividade agrícola. Diversos resultados sobre o manejo dessa praga têm sido obtidos por pesquisadores em todo mundo e poderão ser utilizados a médio e longo prazo. Contudo, ainda são necessários mais esforços para entendimento completo dos diversos fatores que interferem no manejo do ácaro. 

Patrice Jacob Savi e Daniel Junior de Andrade, Universidade Estadual Paulista

Cultivar Hortaliças e Frutas abril/Maio 2020 

A cada nova edição, a Cultivar Hortaliças e Frutas divulga uma série de conteúdos técnicos produzidos por pesquisadores renomados de todo o Brasil, que abordam as principais dificuldades e desafios encontrados no campo pelos produtores rurais. Através de pesquisas focadas no controle das principais pragas e doenças do cultivo de hortaliças e frutas, a Revista auxilia o agricultor na busca por soluções de manejo que incrementem sua rentabilidade. Na edição de abril/maio você confere também: 

- O que é possível fazer para barrar o avanço do vetor do greening nos pomares do Sul do Brasil

- Aplicativo auxilia na identificação de pragas e doenças do maracujá

- Indução de resistência no controle de antracnose em pimentão

- Como combater vírus em tomateiro

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