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Importância da manutenção de máquinas agrícolas

Tão importante quanto a escolha da máquina certa para o trabalho, a manutenção também deve ser planejada com antecedência, prevendo custos que serão dispensados, época ideal para realização e quem prestará o serviço.

Leia mais na edição 206 da Cultivar Máquinas.O engenheiro aeronáutico norte-americano Joe Sutter sintetiza muito bem as escolhas para manutenção: “Manutenção é isso: quando vai bem, ninguém lembra que existe. Quando algo vai mal, dizem que não existe. Quando é para gastar, acham que não é preciso que exista. Porém quando realmente não existe, todos concordam que deveria existir”. Presencio constantemente essa realidade em meu dia a dia e sempre me vem à mente esta brilhante citação do Engenheiro Joe.

Máquinas agrícolas (assim como os aviões) não são descartáveis para serem usadas por um curto período e depois dispensadas – talvez no futuro. Sendo assim, necessitam de manutenção para continuarem a executar os serviços para os quais foram construídas. E a escolha da manutenção tem início já na aquisição da máquina.

Frequentemente sou abordado com questões: “Qual a marca ou o modelo que dá menos manutenção ou oficina?”, “Qual tem menor custo de manutenção?”, “Qual é de mais fácil manutenção?” ou, ainda, “Quais máquinas os mecânicos conhecem melhor?”. E agora? Com tranquilidade e paciência é possível esclarecer tais questões. Claro que se fazem necessários tempo e domínio de informações técnicas para adequar a realidade de cada caso e, acima de tudo, não se deixar contaminar por influências das propagandas. Também é de bom senso evitar opiniões emotivas, pois possuímos nossas preferências, e além do mais, carregamos nossas inevitáveis idiossincrasias que fazem parte da existência de cada um. Ruminando todas essas nuances é possível fazer algumas orientações. Então, atrevemo-nos.

MÁQUINA CERTA PARA CADA SERVIÇO

Todas as máquinas são construídas para determinado serviço. Este é o início de toda a escolha: identificar o serviço a ser feito. Não existe máquina para fazer todo o serviço, por mais que seja multifuncional. Assim como não existe máquina perfeita – a não ser nas peças cinematográficas. Adequar a máquina às necessidades dos serviços, ou vice-versa, eis a premissa básica, do contrário não há manutenção que resista. Para o homem rural isto significa conhecer muito bem o que deve ser feito pelo maquinário em sua propriedade, com pleno domínio dos serviços que devem ser executados. Isso não é tarefa difícil, mas alguns necessitam buscar orientação de técnicos especialistas, abastecer-se de informações. Eis o primeiro passo.

Antes de entrarmos na escolha da máquina é importante identificar pessoas treinadas e qualificadas para a operação e manutenção. Já tivemos casos de máquinas paradas por falta de operador, e também por indisponibilidade de pessoas qualificadas para executarem manutenção. Vivenciamos em nossa realidade um contraste gritante entre pessoas desempregadas buscando serviço e, ao mesmo tempo, falta de pessoal qualificado para determinados serviços, entre os quais operação e manutenção de máquinas agrícolas. De nada adianta ter máquinas com tecnologias de ponta se não houver pessoas preparadas. Destacamos este tópico, pois é uma realidade que já presenciamos: o proprietário adquiriu duas colheitadeiras novas, investiu no treinamento para três colaboradores e apenas um teve condições de operar o equipamento. Que horror! Máquina pronta, a colheita esperando e falta alguém que coloque o equipamento para produzir.

PÓS-VENDAS

Serviço a ser feito, pessoal qualificado, e agora? Escolha da máquina. Marca, modelo, recursos tecnológicos... E a manutenção? Nem sempre lembrada que existe. Mas quando não existe, aí sim, chama o engenheiro. Não basta ter máquina excelente, com todos os recursos que a tecnologia oferece, e não ter um bom serviço de pós-venda, em que entram manutenção, peças e pessoas preparadas. A escolha, portanto, deve levar em consideração este aspecto fundamental: pós-venda. E isto tem que ser pesquisado de uma forma local e dentro da realidade nas proximidades da propriedade. Constatar se há oficina credenciada com peças em estoque e pessoal preparado para a execução dos serviços. Também é importante verificar a disponibilidade de oficinas independentes que já estejam preparadas para serviços de manutenção, muitas vezes estas oficinas possuem estruturas superiores às das revendas autorizadas, sendo que há casos de revendas que terceirizam para tais oficinas. Portanto, é uma opção a considerar, mas é necessária uma verificação bem acurada e in loco.

Existem manutenções que são mais complexas, durante os períodos de uso das máquinas ou na entressafra
Existem manutenções que são mais complexas, durante os períodos de uso das máquinas ou na entressafra
Algumas manutenções básicas, como a troca de filtros de ar, podem ser realizadas pelo próprio operador
Algumas manutenções básicas, como a troca de filtros de ar, podem ser realizadas pelo próprio operador
As manutenções diárias e obrigatórias geralmente são aquelas mais simples, como a verificação do nível de óleo, lubrificantes e líquidos de arrefecimento
As manutenções diárias e obrigatórias geralmente são aquelas mais simples, como a verificação do nível de óleo, lubrificantes e líquidos de arrefecimento
Algumas máquinas, como colhedoras de cana ou de algodão, devem passar por manutenções bem complexas na entressafra, para garantir retorno ao trabalho sem contratempos
Algumas máquinas, como colhedoras de cana ou de algodão, devem passar por manutenções bem complexas na entressafra, para garantir retorno ao trabalho sem contratempos.

Exemplo de situações reais no Rio Grande do Sul: no Sul do Estado há forte presença de uma determinada marca de máquinas agrícolas e que presta excelentes serviços de pós-venda, no entanto na região central do Estado é outra realidade, pois a mesma marca deixa a desejar nesse quesito, enquanto outra possui presença marcante junto às propriedades rurais. Fato semelhante também acontece entre as regiões das Missões e a fronteira Oeste do Estado, porém envolvendo outras marcas de maquinários. Podemos afirmar categoricamente que só no Rio Grande do Sul há, no mínimo, quatro situações diferenciadas e bem marcantes nos serviços de pós-venda e assistência técnica, isso tanto na rede de autorizadas quanto nos serviços de oficinas independentes.

Mais do que nunca se faz necessário conhecer a realidade de cada local, ou seja, estar com os pés firmes no chão. Saber o que realmente é necessário. No linguajar campeiro: “Calçar o pé na macega e não afrouxar a maneia”, pois os marketings de vendas são cada vez mais agressivos e petulantes, caso o produtor não estiver preparado, entra numa canoa furada. Claro, o homem do campo é bastante maneiro, mas há que se estar atento. A mansidão do Pampa nos aponta para cautela nas escolhas.

ESTRUTURA PARA GUARDAR O MAQUINÁRIO

Agora é a vez de a propriedade preparar-se para receber a máquina escolhida. Máquina nova requer local adequado, o ideal é também ser galpão novo, com ferramentas novas, bancadas novas etc. Aí já é pedir demais: “gastar? Não é preciso que exista”. Tudo bem, então galpão remodelado, limpo, com piso de cimento, e fechado. Sim, que possa proteger o equipamento das intempéries, principalmente do inverno e da alta umidade do Sul. Lembro de um fato que presenciei: um proprietário adquiriu uma colheitadeira já no meio da colheita de verão e a utilizou pouco. Depois se envolveu com armazenagem e comercialização e a máquina foi recolhida para um galpão antigo e aberto, apenas com cobertura e dois lados fechados. Passou o inverno em tais condições. Quando houve necessidade de pô-la em funcionamento, o problema apareceu. Máquina nova dotada de tecnologia eletrônica sofreu interferência de umidade junto aos conectores e cablagem (mesmo sendo blindados) e mais no sistema de combustível, pois a variação térmica associada à umidade do ar penetra nos dispositivos, e não foi possível fazer funcionar. Chama a assistência técnica. Serviços, peças contaminadas, limpeza e descontaminação, algumas substituídas, testes de diagnósticos, deslocamento das equipes de manutenção. Palavras do proprietário: “Encostou aos R$ 20 mil”. À dura custa aprendeu a lição. Fim de safra: preventiva geral na máquina e guardá-la em local adequado. E mais um item importantíssimo, que frequentemente é esquecido: colocar o equipamento para funcionar ao menos uma vez por mês. Funcionar e pôr para deslocar-se com acionamento de todos os recursos e comandos disponíveis. No mínimo por um período de uma hora – no mínimo.

TREINAMENTO E QUALIFICAÇÃO

Por fim, destacamos os aspectos de qualificação e preparo das equipes de manutenção e de operação. As máquinas atuais exigem cuidados e práticas operacionais e de manutenção diversa entre si e entre as mais antigas. Portanto, mais do que nunca é importante seguir as recomendações previstas nos manuais dos fabricantes. São novos procedimentos e novas rotinas de oficina e de operação que, se comparadas ao maquinário mais antigo, requerem mudanças comportamentais, e isso sabidamente exige bastante cautela e muito treinamento e orientação. Durante muitos anos convivemos com poucos modelos de máquinas e que eram bastante semelhantes. Fato que mudou muito recentemente. Muitas vezes um procedimento operacional aceito em uma determinada máquina não é recomendado para outra. Então: muito treinamento e orientação correta, observando os procedimentos recomendados pelos fabricantes.

E nas rotinas de oficina também há mudanças significativas. Além do ferramental tradicional se fazem necessários computadores com softwares especiais, os equipamentos de diagnóstico, bancadas de teste eletrônicas, ferramentas específicas para remoção e instalação de componentes. Um visual diferenciado daquela antiga oficina empoeirada e com sujeiras de óleos e graxas. Agora, o ambiente tem que ser limpo e sem contaminação, do contrário os componentes eletrônicos sofrem alterações e deixam de funcionar corretamente, acarretando maiores custos. Os serviços com resíduos de óleos e graxas ainda se fazem presentes, mas requerem cuidados e rápida remoção para coleta adequada.

Estamos diante de uma nova realidade. Lembro-me de uma velha oficina de um amigo de infância, onde na entrada ele fixou um aviso com os seguintes dizeres: “O difícil já está pronto; o impossível demora um pouco; e milagre a gente também faz”. Esta época de milagres já passou, agora é muito conhecimento, informação e trabalho conectado aos manuais técnicos e às redes de apoio. Para tal, pessoas treinadas e qualificadas. Aquele mecânico tapado de graxa e com macacão sujo faz parte do passado, hoje é o mecatrônico ou equipes multifuncionais na volta da máquina. Os serviços são mais rápidos, desde que executados conforme o recomendado e com ferramental adequado.

E o produtor rural, que antes dispunha de alguns operadores que também executavam os principais serviços de manutenção, como faz agora? Manutenção é fundamental. Então, como fazer? Cada administrador possui seus critérios de escolha para manutenção, o importante é que reconheça que existe e que é necessário para o bom desempenho do maquinário. Pode ser toda terceirizada, que é uma tendência no momento. Há os que fazem opção por manutenção com equipe própria, pois mantém um controle mais eficiente dos serviços, talvez com um custo um pouco maior que a terceirização. Há a opção mista, ou seja, mantém uma equipe de manutenção reduzida, mais focada na preventiva básica, e aciona os serviços terceirizados para revisões maiores ou eventuais corretivas e emergenciais. Alguns administradores estão adotando um regime diferenciado, onde um ou dois funcionários assumem a operação e a manutenção preventiva básica da máquina, ou seja, são gestores da máquina. São responsáveis por manter a máquina em plenas condições de funcionamento. Claro que para tal se faz necessário todo um conjunto de apoio de ferramental, local apropriado e estoque de peças e fluidos para substituições nas manutenções preventivas, para agilizar a execução dos serviços. É importante destacar esse aspecto do estoque, pois do contrário haverá tempo ocioso da máquina e do funcionário aguardando a chegada do material. Destaco tal situação por já ter presenciado. Simpatizo bastante com esta sistemática de gestores de máquinas, mas é imprescindível pessoas qualificadas em todos os sentidos: técnico-operacional, conhecimento de manutenção e segurança, e acima de tudo saber trabalhar em equipe e possuir comportamento ético profissional correto, pois exige mais responsabilidade. Confesso que a ética profissional, na conjuntura atual, é algo escasso, mas ainda é possível encontrar.

Em tratores, por exemplo, o sistema hidráulico exige atenção, já que ele é fonte de ligação também com o sistema de implementos
Em tratores, por exemplo, o sistema hidráulico exige atenção, já que ele é fonte de ligação também com o sistema de implementos

 Joel S. Alves,
Instrutor de Operação e Manutenção de Máquinas e Implementos Agrícolas e  Rodoviárias 

Leia mais na edição 206 da Cultivar Máquinas.

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