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Influência da manutenção da palhada em doenças que afetam a cana

Em um sistema de produção caracterizado pela mecanização na colheita da cana-de-açúcar é preciso atenção à influência da manutenção da palhada em doenças que afetam a cultura.

A cana-de-açúcar é uma importante fonte de matéria-prima para combustível e energia e sua produção aumentou no Brasil na última década, estimando-se a área colhida em 8,38 milhões de hectares na safra 2019/2020 (Conab, 2019). Brasil, Índia e China são os maiores produtores do mundo. O método de colheita da cana no Brasil mudou recentemente de manual para mecanizado, principalmente em resposta a apelos sociais e ambientais. E mudanças no sistema de produção levam, invariavelmente, a mudanças da epidemiologia das doenças. A colheita manual envolve a queima anterior da palhada, enquanto a técnica mecanizada deixa até 20 toneladas de palha no solo após a colheita. A ausência de fogo e a consequente manutenção da palhada no sistema favorecem as populações de micro-organismos necrotróficos (aqueles que se multiplicam em tecidos vegetais em decomposição) e também proporciona um ambiente mais favorável para a vida no solo, através do aporte de carbono, manutenção da umidade e redução da temperatura e incidência de luz sobre o solo.

Os restos vegetais das plantas são degradados através da ação dos micro-organismos (fungos, bactérias etc.) e existe uma grande diversidade deles no ambiente, sendo alguns patogênicos às espécies vegetais, ou seja, capazes de causar doença. Espera-se que a manutenção da palhada da cana-de-açúcar nas lavouras favoreça a multiplicação dos fungos que causam manchas foliares, como mancha-anelar, mancha-ocular e mancha-parda, levando a um aumento na severidade dessas doenças. Por outro lado, é possível que a manutenção da palhada reduza a ocorrência de doenças provocadas por fungos de solo, como podridão-abacaxi e “pokkah boeng”, já que a palhada melhora as condições para a microbiota do solo, facilitando assim os processos de controle biológico e supressividade natural a patógenos.

A mancha-anelar causada pelo fungo Leptosphaeria sacchari tem sido relatada como uma doença amplamente distribuída na cana-de-açúcar, porém considerada um problema secundário restrito a folhas velhas. Diferentes respostas varietais já foram relatadas para esta doença, indicando sua importância em programas de melhoramento. A seleção de linhagens com ausência ou reduzida severidade de manchas foliares durante o melhoramento genético é apontada como um dos principais motivos para que essa doença permanecesse pouco importante nas lavouras. No entanto, um aumento dessa doença tem sido observado no Brasil: anteriormente restrita a folhas velhas, agora é comum nas folhas novas de cultivares suscetíveis, e a manutenção dos restos vegetais não queimados no campo favorece a multiplicação do fungo causador da doença.

Sintoma de mancha anelar nas folhas
Sintoma de mancha anelar nas folhas.

Experimentos conduzidos em Dourados, Mato Grosso do Sul, mostraram que a manutenção da palhada na lavoura promoveu aumento da severidade de mancha-anelar. Esse resultado já era esperado, devido à característica necrotrófica do fungo. Ou seja, o fungo permanece no ambiente, junto com a palhada, levando a um aumento do inóculo da doença para as novas plantas. Neste mesmo experimento duas outras doenças foram avaliadas: a podridão-vermelha e a “pokkah boeng”.

A incidência de podridão-vermelha, causada pelo fungo Colletotrichum falcatum, praticamente não foi influenciada pela manutenção da palhada na lavoura. Sabe-se que a podridão-vermelha está normalmente associada à incidência de broca e/ou presença de ferimentos nos colmos, que servem de porta de entrada para o fungo. Embora o fungo não seja considerado um verdadeiro fungo de solo, esporos dispersos no solo podem produzir infecção em touceiras.

Podridão-vermelha associada à galeria da broca (esquerda) e  folhas com sintomas de podridão-vermelha (segunda e quarta imagem) e mancha anelar (terceira imagem)
Podridão-vermelha associada à galeria da broca (esquerda) e folhas com sintomas de podridão-vermelha (segunda e quarta imagem) e mancha anelar (terceira imagem).

Outra doença avaliada foi a “pokkah boeng”, causada pelo fungo Fusarium moniliforme. O número de colmos doentes foi menor onde a palhada foi mantida na lavoura. F. moniliforme é um fungo típico de solo, e por isso está sujeito à interação com os demais micro-organismos do solo. Neste caso, já era esperado que a manutenção da palhada reduzisse a incidência da doença, pois os efeitos benéficos ao solo devido à manutenção da palhada, como aporte de carbono, retenção de água, redução da temperatura etc., favorecem a atividade microbiana no solo e, por conseguinte, o controle biológico espontâneo promovido pelos micro-organismos habitantes do solo.

Evidencia-se, portanto, a necessidade de observar a incidência e severidade das doenças da cana-de-açúcar sob uma nova perspectiva, ou seja, sabendo que o ambiente agora favorece os fungos causadores de manchas foliares, cuja severidade deve ser mais cuidadosamente avaliada, dando preferência para o plantio daquelas menos manchadas, ao mesmo tempo em que o melhoramento genético continua com sua missão (dentre tantas outras) de fornecer ao produtor variedades resistentes ao maior número possível de doenças. Por outro lado, a mudança no ambiente promovida pela manutenção da palhada favorece a microbiota do solo, o que pode facilitar o controle biológico (natural ou induzido) de doenças causadas por fungos de solo. 


Alexandre Dinnys Roese e Cesar José da Silva, Embrapa Agropecuária Oeste, Dourados (MS)

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