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Manejo de nematoides em batata

Nematoides são um grave problema para o cultivo da batata, com danos que vão desde a redução na produtividade até o aumento nos custos de produção.

A batata (Solanum tuberosum L.) é a terceira cultura alimentar mais importante do planeta, e a primeira commodity não grão. Estima-se que mais de um bilhão de pessoas consomem batata diariamente. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em 2018 a produção mundial ultrapassou a casa de 368 milhões de toneladas, produzidas em aproximadamente 17,6 milhões de hectares. No Brasil, a batata é a hortaliça mais importante. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam para cerca de 80 mil hectares plantados tanto em 2019 como em 2020. A produção do ano passado foi de 3,8 milhões de toneladas e, em 2020 já chega a 3,4 milhões de toneladas.

Os nematoides são responsáveis por sérios problemas para o cultivo da batata em praticamente todas as regiões do mundo onde é cultivada, com danos variáveis, chegando até a comprometer toda a produção. Os danos causados por nematoides vão desde a redução na produção, bem como da qualidade comercial dos tubérculos em função das alterações físico-químicas em resposta à infecção. Deve-se somar ainda a elevação no custo de produção com a necessidade de adoção de práticas de manejo específicas para estes patógenos. Estes danos dependem da densidade populacional do patógeno presente no solo, da cultivar utilizada, da espécie/raça de nematoide e das condições ambientais.

No Brasil, os danos maiores são provocados pelo nematoide-das-galhas, Meloidogyne spp., em especial M. incognita e M. javanica, que são as espécies com maior distribuição nas regiões produtoras. A alta incidência destas duas espécies é atribuída à capacidade de reprodução em regiões com ampla variabilidade de temperatura do solo (18°C a 32ºC) e também à ampla gama de hospedeiros que auxiliam na manutenção e multiplicação de inóculo, tanto em espécies cultivadas quanto daninhas. Meloidogyne hapla e M. arenaria ocorrem em áreas isoladas do país, porém causam maiores problemas em regiões tropicais e subtropicais. Outro grupo com importância em cultivos de batata no País é o gênero Pratylenchus. Este grupo também tem destaque pela sua vasta gama de hospedeiros e pela sua ampla distribuição geográfica. As principais espécies de Pratylenchus que causam danos à bataticultura do País são P. brachyurus, P. coffeae e P. penetrans, com predominância da primeira sobre as demais.

Existem outros nematoides com alto poder destrutivo para a cultura da batata que ainda não foram relatados no Brasil e, por isso, detêm o status de praga quarentenária A1. São estes os formadores de cistos ou nematoides-dourados, Globodera pallida e G. rostochiensis. Além do falso nematoide-das-galhas, Naccobus aberrans, e o nematoide-da-podridão-da-batata, Ditylenchus destructor.

Nematoide-das-galhas Meloidogyne spp.

O principal sintoma resultante da alimentação dos nematoides-das-galhas nos tecidos de batata é a formação de galhas, que são protuberâncias que ocorrem nas raízes e na superfície dos tubérculos. As galhas nos tubérculos variam de pequenas e numerosas, dando aspecto áspero à superfície, podendo ser acompanhadas de rachaduras até grandes caroços isolados. Os tubérculos apresentam aspecto “empipocado”, com facilidade para o apodrecimento devido à perda de amido no tecido em torno das “pipocas”, em especial quando a batata é lavada (Figura 1).

Figura 1 - Sintomas em tubérculos de batata causados por Meloidogyne spp. A, B e C: galhas e D: galhas com apodrecimento dos tubérculos devido à entrada de outros patógenos
Figura 1 - Sintomas em tubérculos de batata causados por Meloidogyne spp. A, B e C: galhas e D: galhas com apodrecimento dos tubérculos devido à entrada de outros patógenos

Nematoide-das-lesões-radiculares Pratylenchus spp.

Mais de 300 plantas de diferentes famílias botânicas já foram relatadas como hospedeiras de Pratylenchus spp., causando danos severos em diversas culturas de importância econômica, como soja, feijão, algodão, milho, especialmente na região dos Cerrados. Recentemente, vem representando grande ameaça a hortaliças, principalmente na bataticultura. A intensificação dos cultivos, o plantio em extensas áreas no País, a ausência de rotação de culturas e a rotação ou sucessão com plantas hospedeiras têm contribuído para sua importância nos últimos anos.

Dentre as várias espécies de Pratylenchus que atacam a batata no mundo, P. penetrans é a mais importante. Pratylenchus penetrans ocorre principalmente na região Sul, P. coffeae foi registrada em áreas anteriormente cultivadas com café, principalmente nas regiões Sudeste e Sul, enquanto P. brachyurus ocorre nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do País.

Os danos causados por espécies do gênero Pratylenchus são de natureza diferente quando comparados com os dos nematoides-das-galhas, pois estes nematoides têm ciclos de vida bem distintos. Geralmente penetram nos tubérculos pelas lenticelas e invadem os tecidos em sua volta, produzindo lesões escuras e circulares de tamanho variável, com necrose dos tecidos infectados. Essas lesões evoluem com o passar dos dias, prejudicando o aspecto visual dos tubérculos, pois a presença de lesões (Figura 2), aliada à perda de peso e de turgescência dos tubérculos no armazenamento, reduz seu valor comercial e os tornam impróprios para batata-semente. Além disso, estas lesões podem servir de porta de entrada para outros micro-organismos presentes no solo, com aumento do grau de depreciação dos tubérculos para comercialização.

Figura 2 - Sintomas em tubérculos de batata causados por Pratylenchus brachyurus
Figura 2 - Sintomas em tubérculos de batata causados por Pratylenchus brachyurus

As plantas infectadas formam reboleiras na lavoura. Um dos sintomas iniciais do ataque de Pratylenchus spp. é o atraso no desenvolvimento das plantas infectadas, com drástica redução de crescimento em relação às demais. Em geral, as plantas apresentam florescimento tardio e intensa necrose nas radicelas.

MANEJO DE NEMATOIDES NA BATATICULTURA

Não há uma técnica que isoladamente seja efetiva no controle dos nematoides em batata, sendo a adoção do chamado controle integrado, pela associação de várias técnicas, a mais indicada.

Prevenção

No caso da cultura da batata, o uso de batata-semente certificada, livre de nematoides fitoparasitos, é essencial para manter este grupo de patógenos fora da área de cultivo. Com isso, reduz-se drasticamente a possibilidade de se introduzir na lavoura tanto nematoides já presentes no Brasil, mas principalmente os nematoides quarentenários, pois estes apresentam alto risco de introdução com a importação de batata-semente infectada.

Mesmo fazendo-se o uso de batata-semente de boa qualidade deve-se evitar o plantio em épocas em que ocorram temperaturas elevadas e chuvas, pois a maioria das espécies de ocorrência no país se multiplica bem nestas condições.

Soqueira de batata que deve ser eliminada devido à suspeita de contaminação por nematoides
Soqueira de batata que deve ser eliminada devido à suspeita de contaminação por nematoides

Rotação de culturas

Para a cultura da batata, as gramíneas são recomendadas em rotação com batata para o controle de vários patógenos de solo, incluindo os nematoides. Porém, grande número de cultivares de gramíneas como milho (Zea mays L.), milheto (Pennisetum glaucum) e sorgo (Sorghum bicolor) são excelentes multiplicadores de Pratylenchus brachyrus, que é uma importante espécie para a cultura da batata, responsável por causar danos em diferentes regiões de cultivo no Brasil.

É importante escolher a espécie e a cultivar correta para plantio em sucessão ao cultivo da batata, pois no caso de espécies do nematoide-das-lesões-radiculares, Pratylenchus spp., estas podem elevar seus níveis populacionais durante o ciclo vegetativo destas hospedeiras, tornando-se sério problema quando a cultura da batata voltar a ser plantada. Espécies deste gênero apresentam menor número de plantas hospedeiras em relação ao nematoide-das-galhas. Entretanto, multiplicam-se e aumentam seus níveis populacionais de forma rápida em algumas espécies de gramíneas, como capim-jaraguá (Hyparrhenia rufa), colonião (Panicum maximum) e braquiárias (Brachiaria spp.), com danos expressivos quando o cultivo de batata é realizado em áreas que foram utilizadas como pastagens. E é fato que algumas cultivares de milho podem reduzir a população de Meloidogyne spp, no entanto, podem aumentar a de P. brachyurus.

Uso de plantas antagonistas

O plantio de plantas antagonistas causa redução dos níveis populacionais de nematoides em diferentes culturas. As crotalárias, principalmente Crotalaria spectabilis C. juncea, são exemplos de plantas antagonistas que são utilizadas com sucesso no controle de nematoides. Para o controle das espécies de Pratylenchus indica-se apenas o plantio de C. spectabilis. Estas plantas podem ser utilizadas como cultura de cobertura ou serem incorporadas ao solo na forma de adubo verde. Contribuem com melhoria das condições físicas e químicas do solo, por torná-lo mais friável e descompactado estruturalmente, e pela incorporação de fertilizantes naturais.

As plantas antagonistas podem permitir a invasão de nematoides, porém não permitem seu desenvolvimento até a fase adulta, sendo mais eficientes para aqueles de hábitos sedentários, como Meloidogyne spp. Um dos mecanismos de ação das crotalárias é a produção de substâncias tóxicas, como a monocrotalina, que inibe o movimento dos juvenis. Assim, é recomendável seu cultivo até aproximadamente 80 dias, seguidos da incorporação da massa verde, pois se deve evitar o início da floração para não dificultar o processo de decomposição pela formação de alto volume de materiais fibrosos.

Utilização de matéria orgânica

A utilização de matéria orgânica funciona como condicionador do solo, favorecendo suas propriedades físicas, além de contribuir para o fornecimento de determinados nutrientes, como nitrogênio. As plantas são favorecidas em relação ao ataque dos nematoides pelo seu crescimento mais vigoroso. Ademais, a matéria orgânica estimula o aumento da população de micro-organismos de solo, em especial de inimigos naturais dos nematoides, além de liberar substâncias nematicidas com sua decomposição.

Resíduos de plantas, como repolho (Brassica oleracea var. capitata), couve-flor (Brassica oleracea var. botrytis), couve (Brassica oleracea), brócolis, sorgo (Sorghum bicolor), nim (Azadirachta indica), mucunas (Mucuna aterrima), bagaço de cana-de-açúcar, palha de café, torta de mamona, manipueira (resíduos do processamento da mandioca), feijão-de-porco (Canavalia ensiformis) e tagetes (Tagetes spp.), ou mesmo o esterco bovino são exemplos de materiais orgânicos que podem ser utilizados como parte de um programa de manejo integrado de nematoides.

Eliminação de restos culturais, soqueira e plantas daninhas

Não são recomendadas a manutenção e a incorporação de restos culturais e soqueira infectados por nematoides na área cultivada, por inviabilizar os métodos usuais de controle, considerando que os nematoides alojados nos restos de raízes e tubérculos nas áreas de plantio tornam-se protegidos da ação de nematicidas e outros agentes físicos e biológicos de controle. Nos sistemas radiculares e tubérculos que ficam no solo, o nematoide-das-galhas sobrevive principalmente na forma de ovos, que ficam protegidos dentro da massa de ovos aderida às fêmeas no interior dos tubérculos ou mesmo externamente ao sistema radicular. Dessa maneira, o ideal é a retirada de todo sistema radicular e tubérculos de plantios anteriores.

A eliminação de plantas daninhas na safra e entressafra impede o aumento e a manutenção do nematoide nas áreas cultivadas. As plantas daninhas são excelentes formas de disseminação e de sobrevivência destes nematoides, o que dificulta bastante o manejo que o produtor irá adotar, por exemplo o uso do alqueive a médio prazo é inviabilizado na presença destas hospedeiras.

Variedades resistentes

Muito embora não haja até o momento cultivares de batata ou fonte de resistência com alto grau de resistência aos nematoides, a utilização de variedades menos suscetíveis constitui, juntamente com as práticas culturais citadas anteriormente, uma prática relevante para o controle de nematoides. Sendo assim, é necessário um trabalho contínuo de avaliação dos materiais disponíveis quanto à suscetibilidade aos nematoides, evitando o plantio de variedades altamente suscetíveis, e de busca por fontes de resistência genética.

Controle biológico

O desenvolvimento de nematicidas biológicos tem crescido nos últimos anos. Vários organismos presentes no solo são parasitas de nematoides, principalmente fungos e bactérias, que são os mais promissores organismos de utilização no controle biológico. No Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), atualmente encontram-se registradas aproximadamente 29 formulações à base de Pasteuria, Bacillus, Pochonia, Paecilomyces e Trichoderma.

Controle químico

O controle químico é uma importante ferramenta no manejo de nematoides na cultura da batata. Entretanto, não deve ser visto como única nem a mais eficaz medida de redução dos níveis populacionais dos nematoides.

Sua utilização deve ser associada a outros métodos de controle, de modo a garantir maior eficiência no manejo. Na Tabela 1 encontram-se listados em números os ingredientes ativos (IA), a quantidade de produtos comerciais, os grupos químicos, as empresas responsáveis pelo registro e as indicações. De maneira geral, é recomendada uma única aplicação no momento do plantio, em tratamento de sulco, antes da cobertura das batatas-semente com o solo. Sendo que o efeito residual no solo varia entre os diferentes ingredientes ativos e se relaciona com a velocidade de degradação destes no solo.

MANEJO INTEGRADO

É importante ressaltar que nenhuma prática de controle de nematoides isolada trará benefícios, e que todas as medidas de controle devem ser vistas como “parte” de um programa de manejo integrado de nematoides. Na Tabela 2 encontra-se um resumo relativo à eficiência de algumas medidas de manejo a serem empregadas em área de plantios de batata.

Implemento agrícola para aplicação de nematicidas
Implemento agrícola para aplicação de nematicidas

Jadir Borges Pinheiro, Embrapa Hortaliças; Nadson de Carvalho Pontes, Instituto Federal Goiano – Campus Morrinhos; Giovani Olegário da Silva, Embrapa Hortaliças; Adriana Figueiredo, BayerCrop Science

Cultivar Hortaliças e Frutas Dezembro/Janeiro 2021

A cada nova edição, a Cultivar Hortaliças e Frutas divulga uma série de conteúdos técnicos produzidos por pesquisadores renomados de todo o Brasil, que abordam as principais dificuldades e desafios encontrados no campo pelos produtores rurais. Através de pesquisas focadas no controle das principais pragas e doenças do cultivo de hortaliças e frutas, a Revista auxilia o agricultor na busca por soluções de manejo que incrementem sua rentabilidade. 

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