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Manejo integrado contra doenças da parte aérea do algodoeiro

Principais doenças da parte aérea do algodoeiro, a mancha-de-ramulária e a mancha-alvo norteiam a tomada de decisão de parte importante do manejo das lavouras.

A área de cultivo do algodoeiro tem aumentado expressivamente nas últimas safras, especialmente no Cerrado brasileiro. A expansão iniciada na década de 1990, por conta da migração de áreas de produção do Nordeste para o Centro-Oeste, tem possibilitado ao Brasil se posicionar como um dos principais produtores mundiais de fibra. Atualmente, o país ocupa a quarta posição em produção de fibra em nível global.

Apesar de ser reconhecida como uma das cadeias produtivas mais organizadas e consolidadas do agronegócio nacional, a cotonicultura brasileira enfrenta a cada safra grandes desafios para se manter competitiva e produzir fibra de qualidade. Os desafios fitossanitários são intensificados por um ambiente predominantemente tropical, exigindo cada vez mais o aperfeiçoamento técnico dos envolvidos com o cultivo do algodoeiro.

Dentro do contexto fitossanitário, o bicudo (Anthonomus grandis) continua sendo a principal praga do algodoeiro, causando perdas consideráveis em praticamente todas as safras e se consolidando como uma das principais preocupações dos cotonicultores. Quanto à ocorrência de doenças, a mancha-de-ramulária (Ramulariopsis gossypii sin. Ramularia areola) e a mancha-alvo (Corynespora cassiicola) são atualmente as principais doenças de parte aérea da cultura e norteiam a tomada de decisão sobre o manejo de doenças do algodoeiro.

A mancha-de-ramulária do algodoeiro, causada pelo fungo Ramulariopsis gossypii (sin. Ramularia areola), é a doença mais importante da cultura do algodoeiro na atualidade. As reduções de produtividade podem alcançar 75%, dependendo do inóculo inicial, da suscetibilidade da cultivar, das condições ambientais e das práticas de manejo empregadas para o seu controle. Além da produtividade, a mancha-de-ramulária pode prejudicar a qualidade da fibra de algodão, afetando características tecnológicas como micronaire, comprimento e resistência.

Os sintomas da mancha-de-ramulária são específicos e incidem nas duas faces foliares. Inicialmente, se apresentam como manchas branco-azuladas na face adaxial, evoluindo para a presença de micélio branco nas faces abaxial e adaxial, devido à esporulação abundante (Figura 1). A doença pode causar danos às células do mesófilo, às membranas e ao funcionamento da maquinaria enzimática, na abertura e fechamento dos estômatos e taxa fotossintética.

Figura 1 - Sintomas iniciais e avançados da mancha-de-ramulária (Ramulariopsis gossypii) em folhas de algodoeiro. Safra 2018/19, Planaltina/DF
Figura 1 - Sintomas iniciais e avançados da mancha-de-ramulária (Ramulariopsis gossypii) em folhas de algodoeiro. Safra 2018/19, Planaltina/DF

O início do processo infeccioso ocorre a partir de conídios ou ascósporos produzidos sobre os restos culturais de algodão ou em plantas de algodão perenizadas, que são a fonte de inóculo primário. O inóculo secundário é formado a partir da infecção das primeiras folhas e então se dissemina através de chuva, irrigação, vento, pessoas e maquinários. Desse modo, áreas com histórico de cultivo com algodão tendem a ter maior severidade da mancha-de-ramulária.

A mancha-de-ramulária é favorecida pela alternância entre períodos úmidos (noturnos) por períodos secos (diurnos), temperaturas entre 25ºC e 30°C e umidade relativa elevada (> 80%). Essa condição é satisfeita na maioria das regiões produtoras de algodão no Brasil, com chuvas frequentes e intermitentes. Sob tais condições e considerando que a maioria das cultivares disponíveis é suscetível ao patógeno, a ramulária tem ocorrido com alta severidade em praticamente todas as safras.

A mancha-alvo do algodoeiro é causada pelo fungo Corynespora cassiicola, um fungo necrotrófico que ataca a cultura da soja e mais 500 espécies vegetais distribuídas em 380 gêneros. Em algodoeiro, essa doença é mais recente nas condições climáticas brasileiras, tendo sido identificada inicialmente durante a safra 2004/05 no Mato Grosso e na safra 2013/14 na Bahia, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Desde então, a doença vem assumindo importância crescente, especialmente em Mato Grosso, onde o algodão é cultivado em sucessão à cultura da soja, gerando perdas consideráveis em produtividade.

O principal dano da mancha-alvo no algodoeiro é a desfolha precoce, resultante da formação de lesões semelhantes às observadas na cultura da soja, caracterizadas como manchas circulares, de coloração e tamanhos variados, possuindo normalmente de 2mm a 10mm de diâmetro (Figura 2). A sintomatologia varia em função da suscetibilidade da cultivar, porém a característica mais comum e marcante tem sido a queda da folha, mesmo com baixa severidade.

Figura 2 - Sintomas iniciais (esquerda) e avançados (direita) da mancha-alvo (Corynespora cassiicola) em folhas de algodoeiro. Safra 2018/19, Planaltina/DF
Figura 2 - Sintomas iniciais (esquerda) e avançados (direita) da mancha-alvo (Corynespora cassiicola) em folhas de algodoeiro. Safra 2018/19, Planaltina/DF

A infecção por mancha-alvo começa normalmente no terço inferior da planta, onde há menor incidência de luz, e com o passar do tempo progride para o terço médio, podendo atingir o terço superior da planta sob condições muito favoráveis. A doença é favorecida por temperaturas entre 25ºC e 30°C e longos períodos de molhamento foliar, evoluindo rapidamente em períodos com vários dias consecutivos de chuva e alta nebulosidade.

Corynespora cassiicola é um fungo necrotrófico e se pereniza no sistema de cultivo, sobrevivendo na palhada de soja ou algodão, que são as fontes de inóculo primário para a ocorrência da doença. A dispersão a curtas distâncias na lavoura ocorre por ação da chuva e do vento, que transferem inóculo de restos culturais para as folhas sadias. As infecções iniciais costumam ocorrer logo após o fechamento das entre linhas.

A mancha-alvo e a mancha-de-ramulária podem ocorrer simultaneamente na lavoura, ainda que diferenças marcantes de suscetibilidade entre cultivares de algodoeiro sejam conhecidas para os dois patossistemas. Desse modo, a escolha de estratégias a serem empregadas para o seu manejo deve ser sempre realizada de maneira integrada, desde práticas pré-plantio (preparo da área e escolha de cultivares), passando pelo bom estabelecimento da cultura, manejo de regulador de crescimento e por fim posicionamento dos fungicidas.

Em condições práticas, existem vários outros fatores que norteiam o produtor na tomada de decisão sobre a escolha do local de plantio, sistema de preparo do solo e opção por cultivar. Geralmente, o cultivo é realizado em condições que favorecem a ocorrência dessas doenças em alta severidade, em função principalmente da utilização de cultivares sensíveis a um ou ambos patógenos, cultivo de algodão sobre algodão para aproveitar o preparo do solo e semeadura de algodão em sucessão à cultura da soja.

Como resultado desse cenário e para proteger o potencial produtivo e a qualidade da fibra produzida, é necessário realizar pulverizações de fungicidas em parte aérea, variando desde quatro aplicações por ciclo da cultura até 12 aplicações por ciclo da cultura, dependendo da pressão da doença. Apesar de existirem muitos fungicidas disponíveis e registrados para a cultura do algodoeiro, esses produtos pertencem a poucos grupos químicos com mecanismos de ação diferentes.

Como em qualquer patossistema, o aumento na pressão de seleção para um determinado micro-organismo tem como uma das consequências a seleção de populações menos sensíveis a determinados fungicidas. No caso de mancha-de-ramulária, há relatos de resistência de Ramulariopsis às estrobilurinas. Apesar de ainda não existirem publicações comprovando resistência do fungo aos triazóis, a queda na eficiência de fungicidas pertencentes a esse grupo nas últimas safras tem sido notável (Figura 3).

Figura 3 - Eficiência de controle da mancha-de-ramulária por fungicidas triazóis nas últimas quatro safras (A); efeito do aumento de dose desses produtos (B)
Figura 3 - Eficiência de controle da mancha-de-ramulária por fungicidas triazóis nas últimas quatro safras (A); efeito do aumento de dose desses produtos (B).

Os resultados apresentados demonstram queda na eficiência de triazóis nas últimas safras, porém não significam que os princípios ativos mencionados não tenham mais utilidade na cultura do algodão. Esses dados evidenciam a necessidade de utilização consciente em um programa integrado de controle, para que possam contribuir no manejo da doença.

Para a mancha-alvo, há relato de resistência do fungo Corynespora cassiicola em relação às carboxamidas na cultura da soja. Entretanto, por se tratar do mesmo patógeno nas duas culturas e em função do cultivo em sucessão, espera-se impacto da resistência também na cultura do algodoeiro. Apesar da escassez de resultados de eficiência de fungicidas para o controle da mancha-alvo no algodoeiro, os resultados disponíveis em soja evidenciam que poucos produtos apresentam boa eficiência sobre o controle dessa doença.

Considerando dados médios de eficiência de fungicidas em experimentos conduzidos nas últimas quatro safras na região central do Brasil, observa-se melhor desempenho para o controle da mancha-de-ramulária dos princípios ativos bixafen, fluxapiroxade, hidróxido de fentina e clorotalonil. Já para o controle da mancha-alvo, as moléculas bixafen, fluxapiroxade, protioconazol e mancozebe têm se destacado como as mais eficientes.

O enfrentamento da resistência de fungos a fungicidas e a consequente manutenção da eficiência de controle das moléculas fungicidas disponíveis dependem do emprego conjunto de várias estratégias. Dentre elas, rotacionar as áreas de cultivo, utilizar cultivares com menor suscetibilidade, realizar bom manejo de regulador de crescimento, efetuar aplicações preventivas de fungicidas e com tecnologia de aplicação adequada estão entre os principais.

Adicionalmente, a utilização de associações de fungicidas multissítio (especialmente clorotalonil, mancozebe e oxicloreto de cobre) com fungicidas sítio-específicos é extremamente importante para a manutenção da eficiência de fungicidas sítio-específicos disponíveis. Além do mais, as combinações contribuem para o retardo do processo de seleção direcional de populações menos sensíveis dos fungos, contribuindo com o manejo de resistência fúngica. 

Tormen, Ribeiro e Baldo apontam medidas integradas de manejo das duas doenças
Tormen, Ribeiro e Baldo apontam medidas integradas de manejo das duas doenças.

Nédio Rodrigo Tormen e Bruno de Castro Ribeiro, Instituto Phytus; Vítor Augusto Carvalho Baldo, Universidade de Brasília

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