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Manejo racional e sustentável de ácaros na citricultura

Causadores de prejuízos econômicos e ambientais à citricultura, os ácaros demandam cada vez mais atenção e novos estudos para que o manejo ocorra de modo racional e sustentável.

Dentre as pragas dos citros no estado de São Paulo, destacam-se os ácaros, devido principalmente aos prejuízos econômicos e ambientais decorrentes da necessidade da aplicação de acaricidas sintéticos. Algumas espécies de ácaros fitófagos são citadas há muito tempo como importantes para o manejo da citricultura, como é o caso do ácaro-da-leprose, do ácaro-da-falsa-ferrugem, do ácaro-branco e do ácaro-purpúreo. Atacam diversas partes das plantas, como flores, folhas, frutos em diferentes estádios de desenvolvimento, pecíolos, pedúnculos, ramos e tronco. Além disso, algumas espécies são vetoras de viroses.

Tenuipalpidae 

Ácaros-da-leprose-dos-citros 

No Brasil, é denominado ácaro-da-leprose-dos-citros e na literatura inglesa como flat mites ou false spider mite, as espécies da família Tenuipalpidae. 

Brevipalpus yothersi é uma espécie polífaga, encontrada em várias plantas hospedeiras, inclusive daninhas comuns em pomares de citros, havendo assim a possibilidade de servirem de refúgio para o ácaro. Essa espécie é cosmopolita, com relatos em outros continentes, exceto nas regiões Ártica e Antártica. No Brasil, é encontrado em vários estados da Federação, em diferentes espécies do gênero Citrus. Em plantas cítricas, B. yothersi pode ser encontrado durante o ano todo, com picos populacionais no período de estiagem prolongado, que no estado de São Paulo corresponde aos meses de inverno. Esse ácaro tem a capacidade de transmitir o vírus da leprose dos citros. Brevipalpus papayensis é também encontrada nos pomares citrícolas de São Paulo e pode ser recuperada em várias plantas hospedeiras, incluindo daninhas. Assim como B. yothersi, é uma espécie cosmopolita. A sua população nos pomares citrícolas é muito baixa, contudo, esse ácaro também tem a capacidade de transmitir o vírus da leprose dos citros. 

Até recentemente, Brevipalpus phoenicis era considerado o vilão da história, identificado como principal vetor da leprose dos citros no mundo e responsável por grande parcela da aplicação de acaricidas no Brasil. Agora, sabe-se que a história não é assim, pois B. phoenicis ocorre em baixíssima população e ainda não se conseguiu criá-lo em laboratório e comprovar se é transmissor do vírus. Em poucas espécies de plantas foram encontrados exemplares desse ácaro.

Atualmente há informações de novas espécies de Brevipalpus ocorrendo na citricultura paulista. Em um futuro próximo serão devidamente publicadas e divulgadas. Esses ácaros ocorrem em maiores populações nos frutos que nas folhas, principalmente aqueles com sintomas de verrugose. 

A incidência do vírus da leprose causa queda acentuada de frutos, morte de ramos e da planta, sendo uma população relativamente baixa capaz de transmitir a doença. A poda e retirada de ramos sintomáticos e principalmente colheita antecipada auxilia substancialmente no controle de Brevipalpus. A infestação do material de colheita auxilia na disseminação desses ácaros. A duração do período de ovo a adulto de Brevipalpus é em média de 35 dias a 30ºC.

Espécies de ácaros Brevipalpus papayensis, B. yothersi e B. oleivora

ERIOPHYIDAE 

Ácaro-da-falsa-ferrugem

Conhecido popularmente como ácaro-da-falsa-ferrugem, o eriofiídeo Phyllocoptruta oleivora é relatado como praga-chave na cultura dos citros no Brasil e também em outros países. Apresenta especificidade hospedeira, ocorrendo em todas as variedades de citros. Quando adulto, possui coloração amarelada, o corpo é fusiforme, variando de 150µm a 165µm de comprimento. Em condições favoráveis, o ciclo completo é em torno de sete dias a dez dias no verão e de 14 dias no inverno, com longevidade de cerca de 20 dias. O ácaro-da-falsa-ferrugem pode ser encontrado em folhas, ramos e frutos e nesse último observa-se o surgimento de manchas ferrugíneas que variam de intensidade em função da infestação. O vento auxilia muito a disseminação do ácaro-da-ferrugem. Os maiores prejuízos seriam qualitativos para a comercialização dos frutos e no rendimento industrial.

Microácaro-marrom 

Tegolophus brunneus foi descrito inicialmente em plantas de citros coletadas no estado de São Paulo, em associação com o ácaro-da-falsa-ferrugem. Pouco se sabe sobre os danos reais causados por esse ácaro nas plantas de citros. Atualmente, estudos sobre a biologia desse ácaro estão sendo realizados. Essa espécie ainda não pode ser considerada uma praga para a cultura, até que sejam realizados estudos comprobatórios. Ácaro-das-gemas O eriofiídeo Aceria sheldoni é encontrado nas gemas que darão origem a folhas e frutos, onde se alimentam, causando deformações desses órgãos. Esse ácaro ataca diversas variedades de citros, mas causa deformações mais importantes em limões. 

Sintoma do ataque do ácaro das gemas, Aceria sheldoni

TARSONEMIDAE 

Ácaro-branco ou do prateamento-dos-frutos 

Polyphagotarso nemuslatus é conhecido como ácaro-branco, devido à sua coloração esbranquiçada, ou ácaro-do-prateamento em função dos danos causados nos frutos cítricos. Esse ácaro é polífago e cosmopolita, sendo encontrado em plantas pertencentes a mais de 60 famílias diferentes. O ácaro-branco é encontrado em todas as variedades cítricas, principalmente em pomares de limas ácidas, como o limoeiro Tahiti, ocorrendo mais intensamente em épocas chuvosas e no início da frutificação. A duração do período de ovo a adulto é de 3,7 dias e a longevidade de 13 dias. 

TETRANYCHIDAE

Os ácaros tetraniquídeos podem ter alguma importância em pomares de citros que apresentem desequilíbrios, causados por excesso de aplicação de fungicidas, inseticidas e por estresse hídrico, ou ainda por manejo inadequado de plantas espontâneas que servem de refúgio a ácaros predadores. 

Ácaro-purpúreo 

O tetraniquídeo Panonychus citri pode ser encontrado em quase todas as regiões citrícolas do mundo. Esses ácaros infestam folhas, ramos e frutos. Nas folhas e ramos, os sintomas são reconhecidos por pontuações descoloridas, devido à morte das células, conhecidas como mosqueamento. Em infestações severas ocorre a desfolha e seca dos ponteiros. O ciclo de ovo a adulto se completa em dez dias a 11 dias.

Ácaro-amarelo-esverdeado 

O tetraniquídeo Aponychus chiavegatoi foi descrito de exemplares coletados em pomares citrícolas do estado de São Paulo. São ácaros de coloração amarelo-esverdeada e com manchas escuras na margem do corpo. Vivem próximos às nervuras e não produzem teias. Aparentemente não causam danos significativos à cultura.

Ácaro-mexicano 

Popularmente conhecido como ácaro-mexicano, Tetranychus mexicanus é frequentemente encontrado na cultura citrícola. São ácaros que variam do vermelho-alaranjado ao verde-pardacento devido à planta hospedeira e à parte da planta onde se encontra. Ocorre principalmente sobre folhas mais novas. Sendo considerado uma praga esporádica na citricultura. A duração do ciclo de ovo a adulto é em média de dez dias a 12 dias. 

Ácaro-texano 

Eutetranychus banksi, conhecido como ácaro-texano, tem ampla distribuição no continente americano e é encontrado em uma vasta gama de plantas hospedeiras no Brasil. Geralmente não chegam a constituir uma praga para a cultura de citros, contudo, podem atingir níveis elevados em anos de muita seca. É controlado naturalmente por fungos entomopatogêncicos. A duração do ciclo de ovo a adulto é em média de 12 dias a 13 dias a 25ºC. 

TYDEIDAE 

Ácaro-verde-alaranjado 

Brachytydeus formosa é encontrado em grandes colônias nos ramos, pedúnculos e folhas. Nos ramos e pedúnculos, esses ácaros provocam o amarelecimento da região atacada. Nas folhas podem aparecer áreas amareladas devido ao ataque desses ácaros. Essa espécie é encontrada em um grande número de plantas hospedeiras. Na cultura dos citros ocorre na época seca do ano e não é considerado praga. A duração do ciclo de ovo a adulto é em média de 37 dias a 28ºC.

Ácaros predadores 

Ácaros predadores também são amplamente conhecidos em pomares de citros. Em São Paulo, os mais comuns são Iphiseiodes zuluagai, Euseius citrifolius e Euseius concordis, todos da família Phytoseiidae. Além dos fitoseídeos, ácaros predadores da família Stigmaeidae também têm sido assinalados sobre plantas cítricas de São Paulo. Vários estudos demonstram as interações entre os membros das famílias Phytoseiidae e Stigmaeidae e o potencial para controle de ácaros fitófagos, bem como os efeitos de produtos químicos nesses predadores. Em baixas populações, os ácaros tetraniquídeos e tideídeos servem de alimento aos ácaros predadores.

O agroecossistema citrícola é complexo, sendo carente de estudos minuciosos sobre a diversidade de ácaros e suas interações em diferentes variedades e regiões produtoras. No estado de São Paulo, a citricultura é conduzida sob diferentes condições de solo, clima e vegetação natural, exigindo conhecimento científico para conduzir um manejo adequado e sustentável. As recentes informações sobre a fauna de ácaros demandam novos estudos sobre a bioecologia desses organismos na citricultura. Em vista do aumento considerável da aplicação de agroquímicos na citricultura paulista, o impacto decorrente do uso dessas moléculas sobre ácaros fitófagos e inimigos naturais deverá ser reavaliado, especialmente quanto à eficácia e ao registro de acaricidas para espécies de Brevipalpus. Em função do grande número de aplicações de defensivos na citricultura para o controle de insetos e ácaros vetores, além de outras pragas e doenças limitantes à produção, torna-se necessário o constante monitoramento da resistência de pragas. Seria relevante também considerar a redução de inimigos naturais decorrente da aplicação contínua de produtos químicos e também a indução desses compostos ao fenômeno da hormese, que beneficiaria os ácaros fitófagos.

Jeferson Luiz de Carvalho Mineiro e  Adalton Raga, Instituto Biológico

Cultivar Hortaliças e Frutas Fevereiro 2019

A cada nova edição, a Cultivar Hortaliças e Frutas divulga uma série de conteúdos técnicos produzidos por pesquisadores renomados de todo o Brasil, que abordam as principais dificuldades e desafios encontrados no campo pelos produtores rurais. Através de pesquisas focadas no controle das principais pragas e doenças do cultivo de hortaliças e frutas, a Revista auxilia o agricultor na busca por soluções de manejo que incrementem sua rentabilidade. 

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