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Medidas de controle de afídeos em batata

Além de provocar prejuízos diretos à cultura da batata, afídeos transmitem vírus causadores de severos prejuízos. Por isso, mais que apenas controlar o inseto é necessária uma série de medidas que evitem a disseminação dos patógenos nas áreas de produção.

Os afídeos são pragas-chave na cultura da batata. Alguns autores consideram os afídeos ou pulgões (Homoptera: Sternorryncha: Aphididae) como o principal grupo de insetos-praga das áreas agrícolas que se localizam na zona temperada, graças à possibilidade de se reproduzirem por partenogênese telítoca, provocar danos diretos (injeção de toxinas, redução de tamanho pela sucção de seiva) e indiretos (aparecimento de fumagina graças à secreção de fezes açucaradas ou honeydew). No entanto, o principal dano se dá pela transmissão de vírus vegetais. 

Estes danos diretos se correlacionam com densidade populacional ou número de insetos em campo. Contudo, os indiretos dizem respeito à transmissão de vírus com caráter de associação não persistente e persistente (vide quadro), comuns em material de propagação vegetativa, no caso a batata-semente.

Atualmente acredita-se que 70% dos fitovírus transmitidos por insetos vetores são disseminados por afídeos. Mas por que esta facilidade na transmissão de fitovírus? Os afídeos obedecem perfeitamente alguns pré-requisitos para serem bons vetores: possuem alta mobilidade, conseguindo se deslocar a grandes distâncias quando em voos migratórios; o comportamento alimentar é totalmente diferente de outros homópteros que dilaceram as células hospedeiras do vírus, ao contrário de Auchenorrincha (cigarrinhas), os afídeos são mais delicados e perpetuam a célula buscando o floema intercelularmente; são extremamente polífagos, possuem uma alta gama de hospedeiros alternativos para se alimentar e são estrategistas R, desta maneira possuem alta fecundidade (partenogênese); possuem um ciclo de vida curto (alguns dias, dependendo da temperatura), são colonizadores (se fixam à planta depois da escolha e se reproduzem em altos índices) e finalmente são multivoltinos (várias gerações durante uma cultura).

Principais espécies na cultura

As principais espécies que se encontram na cultura de batata são: Aphis gossypii, Aulacorthum solani, Brevicoryne brassicae, Macrosiphum euphorbiae e Myzus persicae, sendo estas últimas duas espécies as de maior importância no processo de transmissão, principalmente pelo fato de colonizar as plantas de batata (residentes da cultura) enquanto as demais espécies são migratórias e/ou visitantes. M. persicae é considerada a espécie mais importante no processo de transmissão, pois apresenta um componente auxiliar (HCPro), responsável por aumentar o potencial vetorial.

Atualmente, a infecção por fitovírus em batata vem crescendo em importância nas lavouras de Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Durante o ano todo, a presença de inúmeras plantas alternativas que servem como hospedeiras tanto para o inseto-vetor quanto para os fitovírus favorece a disseminação e o estabelecimento de viroses nas áreas de produção.

Bioecologia de afídeos

Myzus persicae (Sulzer, 1776) ou pulgão-verde-da-batata, pulgão-verde-do-pessegueiro

Os adultos possuem corpo ovalado com aproximadamente 2mm de comprimento. As ninfas se assemelham muito aos adultos, no entanto, a forma é mais achatada e mede entre 1mm - 1,5mm. As formas ápteras são de coloração verde-clara. Adultos alados são verdes, com cabeça, antena e tórax pretos, se reproduzem por partenogênese telítoca, sem participação do macho, gerando em torno de 80 indivíduos/fêmea. Atacam preferencialmente as folhas em todo o desenvolvimento vegetativo.

Os prejuízos são de ordem direta, resultado da sucção contínua de seiva, e indireta, pela transmissão de vírus. Os danos mais severos são decorrentes das doenças que têm esses vírus como agente causal. Destacam-se o vírus do mosaico da batata (Potato virus Y - PVY), o vírus A da batata (Potato virus A - PVA) e o vírus do enrolamento da folha da batata (Potato leafroll virus - PLRV). As perdas por degenerescência provocadas por esses patógenos podem variar de 40% a 100%.

Outras culturas hospedeiras de importância econômica são cebola, amendoim, beterraba, melão, pepino, melancia, mamão, soja, algodão, feijão, tabaco, alface, tomate, pimentão, milho, berinjela e trigo, entre outras culturas.

Macrosiphum euphorbiae (Thomas, 1878) ou pulgão-grande-da-batatinha, pulgão-verde-escuro-da-batata

Seus adultos ápteros medem aproximadamente 1,7mm a 3,6mm de comprimento e sua forma imatura possui coloração mais pálida e olhos avermelhados, antenas com extremidades mais escuras ou por completo e sifúnculos com pontas escuras. Os adultos alados medem cerca de 3mm a 4mm de comprimento. São visivelmente maiores que as formas ápteras, com seus sifúnculos e antenas mais escuros que os dos insetos ápteros. Nas formas aladas, as antenas são maiores que o corpo. Atacam as folhas, o caule, os ramos e os frutos durante todo o ciclo de desenvolvimento da cultura.

Os prejuízos provocados se constituem em um dos danos diretos pela sucção de seiva e injeção de toxinas. Esse pulgão é vetor de fitovírus de característica não persistente: Papaya ringspot virus – type watermelon (PRSV-W), Zucchini yellow mosaic virus (ZYMV), Potato virus Y (PVY), Cucumber mosaic virus (CMV).

Outras culturas conhecidas como hospedeiras da espécie são beterraba, rabanete, pimenta, pimentão, Citrus spp., pepino, melancia, gladíolo, morango, feijão, algodão, alface, rosa, batata-doce, tomate, berinjela, trigo, caupi, videira e milho.

Aparelho bucal e hábito alimentar

O aparelho bucal dos pulgões e a forma de alimentação são fatores importantes que permitem a habilidade vetora do inseto desse aparelho bucal. É do tipo picador-sugador, sendo adaptado para a penetração de tecidos e a extração de nutrientes. É formado por dois pares de estiletes (mandibulares e maxilares), um labium e um labrum. O labrum é curto, cobrindo a base dos feixes estiletares, possuindo na sua superfície interna um sulco longitudinal que direciona o feixe estiletar. O labium (rostro ou probóscide), é um órgão segmentado em forma de calha e quando não está sendo utilizado na alimentação, está posicionado na região ventral do inseto. Os fluidos são succionados através do canal alimentar e a saliva secretada pelo canal salivar. O sistema salivar é formado por um par de glândulas principais e duas acessórias, enquanto o canal alimentar é formado pelo próprio canal oriundo dos estiletes, a bomba de sucção e do tubo digestivo dividido em estomodeu, mesêntero e proctodeu.

A atividade estiletar durante a penetração e mesmo a sua salivação e ingestão de fluidos já foram amplamente estudadas através do monitoramento eletrônico de gráficos (EPG – Electrical penetration graphs), mostrando que o pulgão possui pelo menos quatro fases de secreção salivar durante a penetração dos estiletes na planta: secreção intracelular, salivação intracelular, salivação no interior dos vasos crivados do floema e salivação associada à ingestão de seiva do floema. Também se sabe que há dois tipos de saliva envolvidos na fase de secreção intracelular. A saliva gelificante, que auxilia a bainha salivar, recobrindo e dando suporte ao estilete e formando dutos intercelulares que evitam ações de defesa das plantas, como a formação de caloses e ação de proteinases P. Outras funções são lubrificá-lo durante a penetração, conferindo a rigidez necessária. Esta saliva acaba sendo substituída periodicamente, graças à secreção de gotas no extremo terminal, deixando marcado o caminho seguido pelo estilete. Estas gotículas também são úteis para selar os orifícios de inserção dos estiletes maxilares preservando a viabilidade da célula nas picadas de prova, ou seja, na transmissão de vírus não persistentes como o vírus do mosaico da batata (Potato Y virus – PVY). A saliva aquosa é utilizada na digestão dos tecidos e na própria lubrificação dos estiletes, sendo que nas demais fases da secreção salivar, está envolvida no processo de ingestão-egestão, em que podem ser trocadas determinadas substâncias entre o inseto e a planta hospedeira, inclusive fitovírus (principalmente os de floema, como o vírus do enrolamento da folha da batata – Potato leafroll virus, PLRV). Apesar de no início das pesquisas relacionadas com insetos vetores se pensar que esta interação se dava muito superficialmente, atualmente se sabe que é um processo muito mais complexo, desde a escolha da planta até o próprio processo de penetração estiletar e transmissão do patógeno.

Figura 1 - Principais tipos de onda envolvidos no comportamento alimentar de afídeos (Adaptado de Garzo, 2002).
Figura 1 - Principais tipos de onda envolvidos no comportamento alimentar de afídeos (Adaptado de Garzo, 2002).

Considerações finais

O controle de pulgões é desafiador, uma vez que não se trata apenas do controle do inseto, mas sim de uma série de medidas que evitem a disseminação dos patógenos nas áreas de produção.

A utilização de material sadio e certificado evita que as próprias plantas cultivadas sirvam como fonte de infecção primária, ou seja, ofereça patógenos para que outra plantas do mesmo local sejam contaminadas. A infecção ocorre a partir da fonte de inóculo externa, por meio de revoadas ou voos migratórios de insetos, quando virulíferos e principalmente alguns indivíduos que colonizaram hospedeiras em áreas adjacentes à área plantada.

Uma vez que a área é iniciada sem fonte de inóculo (plantas sadias), a preocupação é evitar que o patógeno chegue à área, ou seja, evitar que insetos contaminados se alimentem e colonizem as plantas de batata.

O único método eficaz para detectar a presença de pulgões na área é por meio de monitoramento. Embora estudos tentem demonstrar a flutuação populacional das espécies de acordo com o estágio fenológico da cultura, essa dinâmica é facilmente afetada por condições do ambiente e não servem como parâmetros seguros para a tomada de decisão.

O monitoramento deve ser realizado por meio da observação de plantas aleatórias no talhão, tomando toda a planta como unidade de amostra, pois embora os pulgões apresentem preferência por brotações novas, muitas vezes podem estar localizados em folhas mais velhas na parte mais baixa (protegida). Por se tratar de espécies vetoras, e não ser possível determinar a campo (de uma forma rápida e segura) o percentual de insetos contaminados, não há nível de controle definido. Cabe salientar que os voos de pulgões em busca de novas plantas possuem distância média de 100m, o que indica que em condições de ventos moderados a infestação terá início pela bordadura, onde o monitoramento deve ser intensificado.

O controle químico, por meio da utilização de produtos sistêmicos, é uma medida eficiente para o controle, mas isoladamente não representa solução. Devem ser utilizados, sempre que possível, produtos com seletividade a inimigos naturais, como parasitoides, por exemplo, que representam uma ferramenta natural de controle de pulgões.

Outra medida importante é o controle de plantas voluntárias no período de entressafra, bem como o controle de plantas daninhas dentro e fora da área de plantio, de forma a reduzir hospedeiros que permitem a multiplicação tanto dos vírus quanto dos vetores.

 Inúmeros pesquisadores têm discutido amplamente o Manejo Integrado de Pragas na cultura de batata (MIPbatata) e determinam como principal problema a quebra de paradigmas, incentivando a utilização integrada das ferramentas de controle (químicas, culturais, biológicas, comportamentais etc). Outra necessidade evidente é o monitorando da resistência de insetos a inseticidas, nesse caso as espécies de pulgões, principalmente quando considerado o elevado número de aplicações para o controle de uma praga que possui ciclo curto e potencial de reprodução assexuada.

Batata e desafios fitossanitários

A batata, Solanum tuberosum L., é uma espécie da família Solanaceae originária da região andina, com mais de quatro mil variedades comestíveis, cultivadas em 130 países. Trata-se da terceira maior fonte de alimento para o ser humano, atrás apenas do arroz e do trigo. O Brasil representa o 11° país no mundo quanto à produtividade, com 279.410kg/ha, sendo a hortaliça mais importante, com uma produção anual de aproximadamente 3,5 milhões de toneladas em uma área de cerca de 130 mil hectares. O agronegócio da batata envolve em torno de cinco mil produtores em 30 regiões de sete estados brasileiros (Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás e Bahia) - Associação Brasileira da Batata (ABBA). O cultivo é dividido em três épocas de plantio: das secas (janeiro a abril); de inverno (maio a julho) e das águas (agosto a dezembro). O fato deste tubérculo ser plantado de maneira contínua ajuda muito na perpetuação tanto de insetos como de patógenos, destacando-se: I) fungos (requeima, pinta-preta, fusariose); II) bactérias (canela-preta, murchadeira); III) vírus (PVYO, PVYN, PVYC, PVYNTN, PVY N-Wi PLRV, Begomovírus – ToSRV e Crinivírus – ToCV); IV) insetos (vaquinha, mosca-minadora, afídeos e “mosca-branca”, estes dois últimos responsáveis pela disseminação de fitovírus) e; V) nematoides (Meloidogyne e Pratylenchus). 

Fernando Sanhueza Salas, Instituto Biológico de São Paulo; Cristiane Müller, Corteva AgroScience; Thiago Navarro, Instituto Biológico de São Paulo; Regiane Oliveira, Unesp

Cultivar Hortaliças e Frutas Novembro 2019

A cada nova edição, a Cultivar Hortaliças e Frutas divulga uma série de conteúdos técnicos produzidos por pesquisadores renomados de todo o Brasil, que abordam as principais dificuldades e desafios encontrados no campo pelos produtores rurais. Através de pesquisas focadas no controle das principais pragas e doenças do cultivo de hortaliças e frutas, a Revista auxilia o agricultor na busca por soluções de manejo que incrementem sua rentabilidade. Na edição de novembro de 2019 você confere também: 

- Leprose dos citros
- Enxertia em hortaliças
- Combate da praga Diabrotica speciosa no tomate
- Ferramentas para controle das moscas-das-frutas 
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