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Uso de mecanização na poda de uva

Pressionada por fatores como competitividade e escassez de mão de obra, a vitivinicultura passa cada vez mais a demandar o uso da mecanização para o manejo da videira.

A vitivinicultura é uma atividade importante para a sustentabilidade da pequena propriedade no Brasil e consome uma quantidade expressiva de mão de obra para a realização das operações de campo, força de trabalho que tem se tornado cada vez mais escassa ao longo dos últimos anos. Ao mesmo tempo que o cultivo se expande, novos polos de produção vitivinícola, tanto nacionais como internacionais, pressionaram a indústria do setor, que busca se ajustar à competição dos novos tempos.

A videira apresenta uma forma livre em ambiente natural, onde o mecanismo da autorregulação do crescimento e desenvolvimento prevalece. Geralmente, plantas não podadas apresentam alternância de safras, ou seja, anos com alta produção, seguidos por anos de baixa produção. A poda como estratégia de manejo tem a finalidade de equilibrar o número de frutos e o desenvolvimento vegetativo, controlar a arquitetura do dossel e adequar o crescimento e desenvolvimento com a exploração econômica do cultivo.

O manejo vegetativo é uma prática comum aplicada às videiras e tem por finalidade melhorar a distribuição dos ramos e folhas para favorecer a captação da radiação solar, diminuir o sombreamento no interior da copa e evitar a formação de microclima favorável ao desenvolvimento de doenças. O equilíbrio entre a área foliar e a produção beneficia o desenvolvimento das plantas e a composição da uva.

De modo geral, o manejo vegetativo pode ser classificado em poda de formação, produção e de limpeza, podendo receber denominações diferentes de acordo com as épocas em que são realizadas (poda de inverno e verão), com o enfolhamento das plantas (poda seca e poda verde) e sua intensidade (poda drástica, renovação, esqueletamento etc.). O manejo vegetativo é ligado a uma sequência de operações (desbrota, desponte, raleio de flores e frutos, entre outros) durante o desenvolvimento da planta.

É importante ressaltar que a poda de produção pode ser dividida em pré-poda e a poda propriamente dita, quando se realiza uma limpeza inicial de ramos, para depois proceder a poda.

Em vista de que os tratos culturais da videira exigem uma quantidade expressiva de mão de obra, para a realização das operações de campo, a mecanização das operações de manejo dos vinhedos tem sido utilizada, em todo o mundo, com o objetivo de facilitar os trabalhos de campo e contornar a escassez de mão de obra, além da redução dos custos de produção. Observa-se uma adoção em torno de 50% de mecanização nas operações de manejo da videira, já há algumas décadas, pelas regiões de produção vitícola em vários países. A Austrália é um dos países com maior índice de aplicação da mecanização, em todas as operações de manejo vitícola. No Brasil, a adoção da mecanização do manejo na cadeia vitícola ainda é incipiente, com algumas inciativas em pontos isolados no Sul e no Nordeste.

Considerando-se a adoção da poda mecanizada, deve-se levar em consideração as condições topográficas, edafoclimáticas e padronização de sistemas de cultivo que permitam sua implementação. Alguns sistemas de cultivo vitícola são mais propícios à mecanização que outros. O sistema de cultivo da videira em espaldeira é mais propício à implementação da poda mecanizada, mas todos os sistemas de condução da videira podem ser adaptados à prática de manejo mecanizada, principalmente a uva cultivada para vinho e suco.

A adoção de mecanização parcial ou total do manejo de qualquer cultivo sugere uma abordagem sobre as consequências de tais práticas sobre a qualidade da produção, na comparação com o manejo manual.

Considerando somente a poda mecanizada da videira, a adoção desta prática influencia a ecofisiologia do dossel, a composição do rendimento e a qualidade de derivados da uva, sendo que resultados nessa área são mais abundantes para variedades de Vitis vinifera. No entanto, estudos feitos no Instituto Agronômico (IAC) têm se concentrado no impacto desta prática sobre cultivares híbridas.

À primeira vista, a adoção da poda mecanizada tem um impacto direto nos custos de produção e na velocidade das operações. Trabalhos realizados na área da mecanização do manejo da videira demonstram que os custos de produção sofrem redução significativa. Há relatos de redução em 50% nos custos de produção em vinhedos, quando se utilizou a poda mecanizada seguida de repasse manual para retirada de ramos remanescentes.

Geralmente, no início a adoção da poda mecanizada pode causar pequena redução de produção e da qualidade da uva em vinhedos já estabelecidos. Contudo, após dois a três anos, a produção e a qualidade retornam a níveis equivalentes ao manejo manual. Todavia, o abaixamento dos custos do cultivo compensa a eventual redução na produtividade da uva. A automação da poda tem funcionado melhor quando aplicada em vinhedos jovens, já estabelecidos para este fim, muito embora também tenha funcionado em vinhedos já estabelecidos; neste caso, necessitando de maior tempo para a adaptação.

No Instituto Agronômico (IAC), foi realizada uma avaliação sobre os impactos da adoção da poda mecanizada da videira. Um protótipo podador, desenvolvido no próprio Instituto, tem sido utilizado com sucesso na operacionalização da poda da videira.

As avaliações foram realizadas em um vinhedo de “Isabel precoce”, em linhas cultivadas em espaldeira, no espaçamento de 3m na entre linha e 2m entre plantas, com linhas de 120m de extensão. O estabelecimento de 3m na entre linha foi utilizado para evitar a compactação do solo próximo à zona radicular da planta; já o espaçamento entre plantas, 2m, tem ligação com a facilitação da mecanização da limpeza de plantas daninhas na linha de plantio; a altura dos mourões foi estabelecida em 2,20m acima do solo, o que permite a passagem da máquina de poda com facilidade.

As práticas de poda realizadas ao longo dos anos constituem a pré-limpeza inicial (pré-poda), que consiste num corte retilíneo ao longo do cordão de condução das plantas, deixando-se em torno de seis gemas por ramo podado. Posteriormente à passagem da máquina, um repasse manual é feito para o abaixamento de gemas. Ressaltando que a altura de corte de ramos está ligada à habilidade operacional do operador.

Os tempos cronometrados para a passagem da máquina, em pré-poda, são, em média, de cinco minutos para um trajeto de 120 metros, para esta operação.

Dependendo da variedade e do microclima, o repasse manual poderia ser dispensado, em função do índice de carga planejado para o vinhedo, que consiste na relação entre a parte vegetativa e a reprodutiva, o que deve ser estudado para cada variedade em seu ambiente de cultivo.

Uma característica importante que ocorre em vinhedos submetidos à poda mecanizada é que um pequeno número de ramos não brotará no ano da poda, devido a pequenas oscilações na altura de corte. Com isto, ao longo dos anos, haverá acúmulo destes ramos mortos, havendo a necessidade de uma eventual limpeza, para sua eliminação.

Nos estudos realizados no IAC, foram coletados dados para se avaliar a composição do rendimento e a composição físico-química da baga, e a complexidade do vinho obtido.

 Vinhedo antes da poda de inverno
Vinhedo antes da poda de inverno
Execução da pré-poda para eliminação dos ramos com podador desenvolvido no CEA/IAC
Execução da pré-poda para eliminação dos ramos com podador desenvolvido no CEA/IAC
Vinhedo limpo após a pré-poda mecanizada e repasse manual
Vinhedo limpo após a pré-poda mecanizada e repasse manual

Em geral, os resultados mostram que a adoção da mecanização do processo de poda dos vinhedos (estabelecidos para poda mecanizada) não influenciou a qualidade da uva Isabel precoce, quando comparado ao manejo manual da poda, ao longo dos anos. Não houve influência sobre o número e o peso de cachos, assim como não ocorreram modificações significativas no conteúdo de sólidos solúveis, antocianinas, fenóis totais e taninos. No caso da cultivar Isabel, não observou-se influência sobre a qualidade do vinho.

Ressalte-se, porém, que devido à gama de variedades de videira em uso no País, em variados microambientes, mais estudos são necessários, para verificação dos impactos diretos sobre o comportamento varietal e sobre a qualidade da produção, o que deve ser realizado, especificamente, para cada cultivar, por certo número de safras, antes de ser amplamente recomendada.

Observando resultados de estudos semelhantes, verificou-se que alguns autores relatam diferenças na produtividade, mais favorável a videiras conduzidas sob poda mecanizada, com diferenças mínimas na qualidade do vinho produzido.

Por outro lado, há casos em que uma diminuição significativa no vigor das videiras foi observada, quando se sujeitaram vinhedos à poda mecanizada.

Há relatos de observações comparando a poda manual e a poda mecânica, durante alguns anos, onde foi verificado aumento da produtividade quando se adotou o manejo mecanizado, mas com a necessidade de uma renovação na formação da planta após cinco anos de poda mecânica, para promover a renovação das gemas.

Em geral, para uma ampla gama de variedades, observações de longo prazo mostram que ao ser adotada a poda mecanizada, o número de cachos aumenta, mas diminui de peso, ocorrendo uma natural compensação, tendendo-se a uma igualdade na produtividade, entre o manejo manual e o mecanizado da poda.

Com isto, se reforça o fato de que não existe uma regra geral quanto à resposta à poda mecânica. Cada variedade tem que ser estudada separadamente, pois o resultado depende de vários fatores, advindos da interação do sistema solo-planta-atmosfera, além da relação planta-máquina.

Maria Aparecida Lima, Antônio Odair Santos, Centro de Engenharia/CEA, Instituto Agronômico (IAC)

Cultivar Hortaliças e Frutas Setembro 2020

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